A falta de limite da estupidez humana

Sandra Starling

Em 12 de fevereiro de 1945, Winston Churchill ordenou um bombardeio maciço a uma das mais belas cidades europeias: Dresden, conhecida como a Florença do Elba. A cidade era a pérola da arquitetura barroca, legado da dinastia Wettin, especialmente de Augusto, o Forte, príncipe eleitor da Saxônia e rei da Polônia no século XVIII. Na véspera, encerrara-se a Conferência de Yalta, ocasião em que os chefes de governos aliados (URSS, EUA e Reino Unido), já como virtuais vencedores da Segunda Grande Guerra, discutiram o que seria a divisão da Europa após a rendição da Alemanha.

Depois de três dias de incessantes descargas de bombas, despejadas por centenas de bombardeiros da RAF, as cifras mais modestas indicam que 50 mil civis haviam morrido. Instalações militares e depósitos de combustíveis situados nos arredores foram deliberadamente poupados. Na praça central, conhecida como Altmarkt, foi preciso acender uma pira de mais de 7.000 cadáveres que não puderam ser sepultados. Muitos afirmam que a motivação de Churchill teria sido vingar a devastação de Londres, provocada pelas incursões da Luftwaffe e pelas nuvens de V-2 nos anos anteriores.

A ser isso verdade, evidencia-se que a magnanimidade dos vencedores não era uma característica do processo civilizatório de que se gabava ser portador. O mais provável, porém, é que Churchill quisesse mostrar a Stalin que a Grã-Bretanha ainda era militarmente respeitável e deveria ser considerada na partilha do espólio nazista. No castelo de Cecilienhof, em Potsdam, local da conferência seguinte (julho de 1945), pode-se ver a que ridículo se submeteu o premiê britânico. Em contraposição aos suntuosos aposentos proporcionados por Stalin a Truman, o generalíssimo soviético reservou a Churchill não mais que um cubículo.

LOCOMOTIVA DO MUNDO

Stalin sabia que a locomotiva do mundo capitalista já se deslocara para o outro lado do Atlântico. Nas últimas reuniões em Potsdam, Churchill não estaria mais presente. Fora derrotado nas urnas por Clement Atlee.

Trago isso à tona após assistir pela TV, no último dia 9, ao vistoso desfile militar promovido por Putin, na praça Vermelha, em comemoração à vitória soviética naquilo que Stalin chamava de “guerra patriótica”. Vêm-me, então, à memória as palavras de uma jurista alemã, estampadas no tapume de uma das inúmeras reconstruções promovidas atualmente em Dresden: “Permanecem ira e lágrimas. Sem dúvida, a primeira supressão, mundo afora, de um legado cultural da lista do patrimônio histórico e artístico do mundo é um pesado revés para a integridade da herança cultural de toda a humanidade”.

Dresden é um monumento vivo da estupidez humana. Estamos mais uma vez atravessando uma crise econômica de gravíssimas proporções, pior, talvez, que a dos anos 30 do século passado. E todos caminham no mesmo rumo de então para resolvê-la: protecionismo comercial, nacionalismo, xenofobia e rearmamento.

Pelo visto, a barbárie é, de fato, o traço mais recorrente do que entendemos como história.

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5 thoughts on “A falta de limite da estupidez humana

  1. O mais paradoxal é que sessenta anos depois, a Alemanha vencida, com Berlin detruida é a economia mais forte da europa. No mesmo período a Inglaterra e a União Soviética desmoronaram como impérios. Por esse ângulo, as vezes pode-se imaginar que Hitler tenha vencido a guerra. Quanto a Dresden, Hiroshima, Stalingrado e outras, para os comandantes, são meros efeitos colaterais. Não se pode mudar os fatos.

  2. O artigo da Sandra Starling é oportuno com relação à barbárie humana!
    No entanto, Dresden serve como um de tantos exemplos desta bestialidade referida pela articulista e que se traduz em guerra, significando carnificinas inexplicáveis e injustificáveis.
    A título de informação, foram jogadas mais bombas nesses dias na cidade alemã, que durante TODA A GUERRA, que levou seis anos!!!
    Hiroshima, Nagasáqui, Tóquio, Stalingrado, Dresden, Berlin, Londres, Nanquin, Shangay, a região da Normandia, na França, a Alemanha como um todo, apenas para citar como devastações quase total pela guerra, servem como modelo do quanto o homem precisa se desenvolver internamente, o quanto necessita ampliar a sua visão sobre ele mesmo e de seus semelhantes.
    Mais adiante, após a Segunda Guerra, temos outro marco na História em termos de vítimas: a independência da Índia, em 1947, que ocasionou a morte de milhares de pessoas que o número de vítimas da Segunda Guerra, supreendentemente!
    Calcula-se que a divisão da Índia, na sua independência, entre siks, muçulmanos, católicos, protestantes, o território da Cashemira, mais o Paquistão Oriental, mais tarde Bangladesh, e Ocidental, atualmente Paquistão, que surgiram como consequência da libertação da Índia do jugo britânico, tenha resultado em mais de um milhão de mortos na ida e vinda de hindus e muçulmanos deslocando-se para seus países que foram definidos na partilha da Índia.
    Em seguida, tivemos a Guerra da Coréia; dois anos após, a derrota francesa em Dien Bien Phu, perdendo a Indochina; nesta trilha de mortes, a independência da Argélia; a Guerra de Biafra; o Muro de Berlim; a revolução Cubana; o Apartheid sul-africano; Ruanda; Vietnã; revoluções latino-americanas, Panamá, Nicarágua, São Domingos, Granada, Haiti; revoluções sul-americanas, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Brasil, Peru; a guerra étnica no desmembramento da Ioguslávia com a morte de Tito, denominada Guerra da Bósnia, o Vietnã europeu; a invasão russa na Hungria, na Tchecoslováquia; a revolução na Grécia; Chipre; Chechênia; a Guerra das Malvinas; Sudão; as guerras entre árabes e judeus, 1956, l967, 1973, e com a Palestina diariamente; a revolução Chinesa, enfim, o término da Segunda Guerra não trouxe paz ao mundo, lamentavelmente, ao contrário, acirrou disputas políticas e terrritoriais que perduram muitas até hoje.
    Certamente tais chacinas e desprezo pela raça humana pelos próprios humanos, advém da falsidade como professam seus deuses e, em consequência, estabelecem seus princípios e valores igualmente falsos.
    Ora, somam-se a atração pelo poder, o domínio sobre os mais fracos, a exploração de riquezas, o dinheiro prevalecendo sobre a vida humana, e temos um caldo grosso e denso de cadáveres que alimentam o egoísmo, que nutrem os mais ricos, e que transformam este belo Planeta em um mundo odioso, cruel, injusto e sem esperança de PAZ mundial!

  3. Czeslaw Wieniukiévski. Polonês. Para nós … César.
    Veio para o Rio de Janeiro fugido da Segunda Guerra Mundial. Estava em Varsóvia em 1939, no momento da invasão nazista. Viu de perto os horrores daquilo tudo. Lutou contra Hitler. César casou-se com Dona Carmem, mãe da minha (futura) esposa, Neuza. Conversamos muito sobre o que ele vivenciou pessoalmente na ocasião. Tendo fugido de Varsóvia, César esteve na Itália, França e Rússia, até que um dia foi feito prisioneiro e enviado para um campo de concentração. Como era um boa praça e falava fluentemente vários idiomas, foi aproveitado pelos alemães, para levar recados para as moças italianas. “Você quer se encontrar comigo? Você é linda”, escreviam os alemães. César ia lá, dava o recado ou escrevia. Ganhava chocolates, comia muito bem e tinha o direito de passear tranquilamente. Só que as notícias eram terríveis, davam conta de grandes massacres. O povo polonês estava sendo arrasado, homens, mulheres, idosos, crianças, todos sendo assassinados brutalmente. César e seus compatriotas se reuniam: “Temos que fazer algo! Eles nos tratam muito bem, brincam conosco, são garotões simpáticos, mas são alemães! Temos que sair daqui, temos que fugir!” E … numa noite … após uma bebedeira daquelas … César e os outros poloneses mataram todos os alemães do alojamento. E, com documentos falsos, escaparam.
    ” Olmério (era assim que ele me chamava)!!! Matamos pessoas tão jovens, que xingavam Hitler, que diziam que o Füehrer era maluco!!! Rapazes que gostavam da gente!!! Mas tínhamos que fugir!!!” E … chorava e chorava.
    A estupidez humana … a barbárie … como tudo isso pode acontecer??? César NUNCA ficou curado. Relembrava sempre de tudo; das irmãs, da mãe, dos amigos … que nunca mais iria ver. Sabia os nomes dos alemães que lhe davam chocolate … das cartas que escreveu … das paqueras dos oficiais alemães, que davam em cima das italianas, como qualquer rapaz. “Polônia, minha terrinha querida” … Quando estive em Varsóvia, visitei o “Museu do Levante de Varsóvia”. Lembrei-me do César. Ele lutou junto com a Cavalaria Polonesa, orgulho do país. Só que lutaram contra tanques e artilharia pesada. Foram massacrados, diante da passividade dos “líderes” internacionais, malditos, que estavam aguardando os desdobramentos da invasão. ESTE MUNDO É UM LUGAR MUITO TRISTE. AQUI … PREVALECEM AS SOMBRAS. Hoje vou beber umas cervejas em homenagem ao César.
    Abraços do Olmério, César !!!

  4. Caro Francisco Bentl,
    Caro Almério Nunes,

    Excelentes textos.

    Mas eu ainda tenho fé na humanidade, pois ela ainda é uma raça jovem! Tem só 100.000 anos, meros dois segundos finais da existência do planeta Terra.

    Costumo dizer que os seres humanos se dividem em dois tipos:
    -as pessoas inteligentes, que aproveitam a breve passagem neste mundo para criar algo útil que facilite a vida da próxima geração, que gere sorrisos e alegrias (como exemplo cito os descobridores e inventores dos medicamentos, eletricidade, energia nuclear, carros, aviões, meios de comunicação, etc);
    -e as pessoas medíocres, que aproveitam o curto momento das suas vidas para destruírem o que foi feita pela geração anterior, muitas vezes valendo-se das criações dos primeiros, para matar, roubar, pilhar e distribuir a dor, afome, o sofrimento e a morte.

    Mas acredito que a humanidade já foi pior. Esse negócio de respeitar o que pertence aos outros é coisa nova no mundo.
    Aos poucos as pessoas evoluídas superarão em número as primitivas…

    Abraços.

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