A falta que faz a confiança na retomada da economia

Vicente Nunes
Correio Braziliense

O setor privado brasileiro já está em recessão. Dados compilados pela economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, mostram que, nos três primeiros trimestres de 2014, o Produto Interno Bruto (PIB) registrou queda média de 0,4%, quando descontados todos os fatores atípicos (sazonais) do período. E não foi diferente no último trimestre do ano passado.

Pelos cálculos de Zeina, entre janeiro e setembro de 2014, segundo números liberados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o consumo das famílias e os investimentos (formação bruta de capital fixo) apontaram recuo médio de 1,4% por trimestre, também descontada a sazonalidade. Já o consumo do governo avançou 1%. “Isso mostra que foi o setor privado que encolheu”, diz a economista.

Como as informações do último trimestre de 2014 só serão divulgadas no fim de março, ainda não é possível medir, exatamente, quanto recuaram o consumo das famílias e os investimentos nesse período. “Mas é certo que houve queda, mesmo que pequena”, afirma Zeina. Ela ressalta que, no caso da formação bruta de capital fixo, é possível que já se perceba algum impacto da retração dos desembolsos da Petrobras e de empreiteiras que prestam serviços à estatal, por causa da Operação Lava-Jato.

DESCONFIANÇA GERAL

Diante desse quadro, destaca a economista, é possível explicar o porquê de as famílias e os empresários estarem tão desconfiados com o futuro do país. Não veem perspectivas de recuperação da atividade tão cedo. Na avaliação de Zeina, a reversão do pessimismo só será possível quando o ajuste fiscal se mostrar efetivo. Por enquanto, é uma promessa do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que enfrenta sérias resistências dentro do governo e em boa parte do PT, o partido de Dilma Rousseff.

Zeina explica que a farra fiscal que prevaleceu no primeiro mandato de Dilma machucou demais o setor privado, ao estimular a inflação, distorcer o sistema tributário — devido à escolha de setores específicos para receber benefícios — e incentivar, por meio de programas sociais, que jovens deixassem de procurar emprego. “Tudo isso minou a produtividade e reduziu o potencial de crescimento da economia.”

SALVAR 2016

É possível, no entender da economista da XP, ainda salvar 2016. Para isso, Dilma não pode abandonar a equipe econômica à própria sorte. Com a forte queda na popularidade do governo, teme-se que, fragilizada e com a base no Congresso esfacelada, a presidente da República opte por recuar na promessa de economizar 1,2% do PIB para pagar juros da dívida.

O Planalto sabe o tamanho do risco que está correndo se jogar Levy e o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, aos leões. Retomada a irresponsabilidade fiscal que integrantes do governo e petistas defendem, Dilma chegará ao fim do segundo mandato de joelhos. Não é preciso ser nenhum especialista em economia para entender o tamanho do estrago cometido nos últimos quatro anos. O crescimento minguou, a inflação está rodando entre 7% e 8%, o deficit fiscal encosta nos 7% do PIB e o rombo nas contas externas é de 4% do Produto.

PAÍS EM CRISE

Todos os indicadores mostram um país em crise, que pode ser ainda mais profunda caso o governo faça concessões a políticos que estão mais preocupados com o curto prazo. O Brasil perdeu os anos de 1980 e 1990 por erros monumentais na gestão econômica. A partir de 1994, com o Plano Real, começou a arrumar a casa. Foi um longo caminho. Mas conseguiu domar a inflação e, com a responsabilidade fiscal e monetária, dar previsibilidade aos agentes econômicos.

Infelizmente, hoje, o retrocesso é claro. Há, sim, uma promessa de mudança. Palavras nesse sentido não faltam. Porém, o que o país realmente precisa é de convicção sobre o que deve ser feito.

4 thoughts on “A falta que faz a confiança na retomada da economia

  1. É isso aí,

    inflação rondando entre 7% e 8%, déficit fiscal em 6,7% do PIB e rombo nas contas externas de 4,17% do PIB.

    Se somarmos o rombo fiscal com o rombo das contas externas temos 10,87% do PIB, ou R$585,0 bilhões no déficit gêmeo.

    Estamos falando de uma descapitalização monstruosa a que a economia brasileira foi lançada e que levará toda a população a sentir no bolso o declínio econômico.

    Uma economia com recuo no consumo e sem poupança para investir. Não há qualquer expectativa de alteração no quadro de estagnação econômica, senão, pelo próximo quadriênio, por, pelo menos, os próximos dois anos. Até que o ajuste fiscal restritivo abra espaço para o ajuste monetário expansivo e seja capaz de dar novo impulso à retomada, também, da expansão da política de rendas com ganho para a demanda agregada.

    Dilma plantou e todos nós vamos colher.

    • E temos que dar graças a Deus de termos reservas em moeda externa em quantidade suficiente para nos dar autonomia no comércio internacional e poder de controle cambial, sem o que o caos seria, ainda, muito maior; assim como maior seria a descapitalização.

  2. Ponhamos na cabeça uma coisa. Sejamos realistas:
    – COM A PRESIDANTA NO COMANDO NÃO HÁ A MINIMA POSSIBILIDADE DE O PAÍS SE RECUPERAR, POR MELHOR QUE SEJA O MINISTRO DA FAZENDA. PARA RECUPERAR A CONFIANÇA DOS AGENTES ECONOMICOS SUA QUEDA(A DA ANTA) É UMA CONDIÇÃO MAIS DO QUE NECESSÁRIA, É FUNDAMENTAL.

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