A família Sarney (unida jamais será vencida) no caminho da Lampadoza e do cadafalso

José Sarney jamais imaginou chegar a presidente da República. Não acreditava que pudesse ficar tão rico. Nem na imaginação admitia entrar para a Academia, escrever livros, se dizer best-seller. (Desculpem).

Mas tudo isso aconteceu. Só que não pensou nem de longe que tendo servido subservientemente à ditadura, pudesse ser e-n-c-a-r-c-e-r-a-d-o, (pelos fatos, pelos fatos) de maneira cruel e até selvagem.

Sempre se orgulhou da frase que repetia com a maior satisfação: “Não tenho um só inimigo, ninguém pode ficar contra mim”. Se for menos arrogante e prepotente, deve já ter percebido que as coisas ocorrem exatamente ao contrário do que ele pensa.

Por exemplo: os diálogos dos filhos e netos com ele e entre eles, quem entregou à TV Globo? Chegou lá entregue por amigos, já que ele considera que não tem inimigos? Não vou repetir o que foi gravado e exibido, mas trechos são imperdíveis, revelam o carinho entre eles, o lamento de Sarney por não ter sido avisado da necessidade de um emprego para o namorado da neta, a justificativa do filho, “eu sabia que podia resolver tudo com o Agaciel Maia”, a diligência do “patriarca”, que tinha medo que o namoro da neta terminasse sem o namorado ser empregado. Poderia parecer ressentimento ou constrangimento.

Os “dialogos edificantes do avô com sua neta” não foram exatamente transcritos, mas estão presumidos nesta fala da menina com o pai, gravada pela Polícia Federal e entregue à Globo:
Bia Sarney diz que o avô queria já ter sido avisado do pedido da neta para “agilizar” a nomeação.

Bia: Pai.
FS: Ei, meu bem.
Bia: Ó, já entreguei o papel aqui pro Vanderlei e falei com o vovô, né.
FS: Sim.
Bia: Aí ele falou assim: “Ah, você tinha que ter falado antes para eu já agilizar, não sei o quê…” Aí eu falei: “Não vô, eu falei com o papai, e agora eu já tô dando o papel, mas não sei, se der, tal, pra colocar ele no mesmo lugar de onde o Bernardo saiu… ele saiu hoje”. Aí não sei. Você fala com ele amanhã?
FS: Falo. Falo cedo. Liga pra mim na hora que você acordar pra me dar uma cobrada.
Bia: Tá bom, então, pai.
FS:Beijo. Deus te abençoe.
Bia: Beijo.
FS: Tchau.

Comovente, não?

E que carinho, que generosidade e grandeza da filha com o pai (Fernando), com o avô (Sarney), que preocupação com um simples namorado. Se ele não arranjar um emprego com a neta de um ex-presidente da República e presidente do Senado, o que será do seu futuro? E o emprego não consolidará o namoro, não poderá contribuir para que passe a outro estágio?

Leitores e leitoras, moços, médios e idosos, alguma vez já presenciaram uma exposição tão clara, tão irrefutável (e ao mesmo tempo tão singela e delicada) do nepotismo despótico e quase anedótico que nos domina?

Tenho a impressão que “os diálogos do avô e sua neta” são a obra prima involuntária de Sarney. Acho que na literatura brasileira nunca se alcançara uma síntese tão precisa (e repito singela) da nossa verdadeira face. Millor Fernandes que fez critica minuciosa e, lógico, contundente do que Sarney escreveu, não imaginava isso.

Sinceramente, não sei se estou conseguindo me expressar bem. É algo bonito, delicado, mas estarrecedor como um conto de fadas. O nível de corrupção interno da família deve ser comuníssimo, mas nunca antes fora exibido com tamanha nitidez, sem os semitons suavizantes das suposições e das hipóteses.

Eis aí uma família de poderosos da política brasileira, onde a corrupção começa no berço, cotidiana, rotineira, quase vulgar. Um direito de família. Essa frase: “Vovô, arranja um emprego pro meu namorado?” (ou quase isso), já entrou para História do Brasil, com o “Fico”, o “Grito do Ipiranga”, a de Jarbas Passarinho no AI-5.

*  *  *

PS- Fernando Sarney e o patriarca José não pensaram (?) que podiam estar contribuindo para enquadrar a netinha e o namorado por corrupção passiva?

PS2- E o emprego do namoradinho, foi mantido? Nessa época de desemprego total, a solidariedade não vai para Sarney, mas acredito sinceramente: muita gente está pedindo a punição de Sarney, mas que o namorado fique empregado.

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