A farsa do horrio de vero

Carlos Chagas

Repete-se, uma vez mais, a oitava no governo Lula, a farsa do horrio de vero, anunciado esta semana para comear a 17 de outubro. A moda vem de muito antes, primeiro intermitente, depois absoluta. Os relgios devero ser adiantados por uma hora, visando economizar 5% de energia at o final de fevereiro.

Quer dizer, o governo surripiar uma hora de sono da populao. Da populao? Nem tanto, porque os estados do Nordeste e do Norte insurgiram-se contra a determinao e j no aceitam o horrio de vero. Contestam a autoridade central em defesa de seus cidados. No Sul, Sudeste e Centro-Oeste, porm, o esbulho tem data marcada.

O cidado que sai cedo para trabalhar, acordando s seis da manh, ou antes, precisar acender a luz para escovar os dentes e tomar caf. Vai-se parte da economia dos 5% de energia, ainda que quando chegar em casa depois do servio, o sol ainda brilhe. Bom para quem mora beira do mar, que se no estiver muito cansado ainda poder arriscar alguns mergulhos. Mas pssimo at para a unidade nacional, porque se um indigitado bia-fria morador na Bahia colhe caf em Minas, sair de casa s seis da manh quando j so sete na roa. Ou chega atrasado ou acorda s cinco. Na hora de voltar pior: deixa o trabalho s cinco da tarde mas j so seis em sua casa, correndo o risco de a mulher acus-lo de ficar uma hora bebendo cachaa em vez de vir logo jantar.

O estrago que o horrio de vero causa no relgio biolgico dos habitantes das regies mais populosas do pas levar semanas, at mais de um ms, para ser absorvido. E quando as coisas estiverem normalizadas, repete-se a confuso com o atraso obrigatrio de outra hora, no relgio mecnico.

Logo que empossado, o presidente Lula no teve foras ou no quis acabar com a farsa do horrio de vero, dizem at que influenciado pela sua ento ministra de Minas e Energia, partidria dessa economia que, com todo o respeito, tem sido a base da porcaria. Mas bem que poderia, o primeiro-companheiro, dar um basta aberrao no ltimo ano de seu governo. Interromper essa prtica subdesenvolvida e insistir para que Dilma Rousseff mantenha como uma de suas metas principais a gerao de mais energia em todo o pas. Mais investimentos em hidreltricas, por exemplo.

A NATUREZA DAS COISAS

Contra a natureza das coisas ningum investe impunemente, j dizia Napoleo. As informaes so de que, quarta-feira, at o presidente Lula irritou-se com a nota oficial expedida pela chefe da Casa Civil, Erenice Guerra, rebatendo acusaes de trfico de influncia com adjetivos desairosos contra Jos Serra.

Mais do que protestar diante de tais exageros, o primeiro-companheiro mandou recomendar indigitada ministra que evitasse comparecer a cerimnias pblicas onde ele estivesse presente. Portanto, encontrava-se, dona Erenice, prisioneira em seu prprio gabinete, sem a mnima condio de exercer as funes de coordenadora da administrao federal. Perdera at mesmo o apoio de sua madrinha, Dilma Rousseff.

Ficou famosa a indagao do rei Juan Carlos, da Espanha, ao presidente Hugo Chavez, da Venezuela: por que no te calas? Pois o pas inteiro estava naturalmente perguntando a Erenice Guerra: por que no vais logo embora? E s com o flagrante agravamento das denncias que ela enfim se demitiu (ou melhor, foi demitida).

NO COLOU

No deixam dvida os nmeros anunciados ontem pela Datafolha a respeito da sucesso presidencial: no pegaram em Dilma Rousseff as denncias de quebra do sigilo fiscal de tucanos, promovida por alguns petistas aloprados. A candidata at cresceu um ponto percentual, com 51% contra 27% de Jos Serra. Aguarda-se a prxima pesquisa, quando as trapalhadas de Erenice Guerra podero pesar nas respostas dos consultados. Agora, convm aguardar o Ibope, a Sensus e a Vox Populi.

HISTRIA OPORTUNA

A histria velha mas merece ser recontada. Durante a expanso rabe, l pelos anos setecentos, o general Ibn-El-Abbas ocupou o Egito. Chegando s portas de Alexandria, ento a maior capital do mundo, extasiou-se com a riqueza de sua biblioteca. Dizem que at originais de Homero estavam, em suas prateleiras, se que Homero existiu. Como suas ordens eram de conquistar pelo fogo e a espada as regies dominadas, o general hesitou e mandou uma correio a Bagd para consultar o Califa. O que fazer com aquele patrimnio fantstico?

O Califa respondeu que se todos aqueles escritos concordavam com o Alcoro, eram inteis e deveriam ser destrudos. E se discordavam, eram perniciosos e precisavam ser queimados.

Diz a lenda que durante muitas semanas as centenas de termas de Alexandria deixaram de ser alimentadas a lenha, passando a ser utilizados os papiros de toda a cultura universal reunidos at a conquista. Agora que um energmeno prometeu queimar o Alcoro, ainda que tivesse voltado atrs, a gente fica pensando se o fogo tem sido mesmo amigo da Humanidade…

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