A flor e o ódio

Sebastião Nery

Nestor Rocha, conselheiro do Tribunal de Contas do Rio, e sua bela mulher Liliana Rodrigues, vieram, algum tempo atrás, passar o fim-de-semana aqui em Buenos Aires. Talvez de emoção por este encanto de cidade, uma Paris falando espanhol, ou por conta dos cansaços brasileiros, teve um enfarte, socorrido a tempo. No Rio, seu fraterno amigo Murilo Barbosa Lima foi avisado, pegou rápido um avião e desceu em Buenos Aires para ver como estavam as coisas.

Passou no hotel. Nestor havia saído de lá para o hospital e não voltara. E deram o nome do hospital. Murilo correu para o hospital:

– Dr. Nestor esteve aqui com um enfarte grave, mas já não está mais.

– Foi para onde?

– Para o Cemitério da Recoleta.

– Quem autorizou a saída dele daqui para o Cemitério?

– A mulher dele que o estava acompanhando.

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EVITA

Murilo saiu desesperado para o Cemitério da Recoleta. Foi à portaria, não havia registro nenhum. Ficou andando e suando pelas alamedas pensando como é que o Nestor poderia ter sido enterrado em Buenos Aires se o normal é que o corpo fosse levado para o Rio. Na porta solene do túmulo de Evita Peron, lá vinha Nestor, pálido, cabeça baixa, olhar triste, olheiras de Carlos Gardel, acabando de visitar sua heroína Evita . Murilo deu-lhe um abraço e uma bronca:

– Você não tinha lugar melhor para vir do que um cemitério e logo para visitar esta mulher? Quem é que pôs a Evita na sua cabeça?

– O Brizola. Ele adorava a Evita. O hospital é aqui perto.

Murilo ficou com raiva da Evita Peron até hoje. O argentino é mesmo uma mistura de Andaluzia e Sicilia. Tem o fascínio da morte. Foi Evita, depois Peron, agora é Nestor Kirchner. Três mitos.
Entre o amor e o ódio

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CRISTINA

A caminho do hotel, com a cidade de longas alamedas vazias mas cheia de brasileiros, converso com o motorista, um jovem cabeludo, elegante, terno e gravata, bem falante como um baiano de Salvador:

– Que tal sua presidente, a Cristina Kirchner?

– Senhor, não temos só uma presidente. Temos uma flor. Toda manhã, abro a janela e agradeço a Deus por nos ter dado uma flor que cuida de meu país. A presidente Cristina não é só uma mulher. É uma flor. Por isso foi reeleita. Se pudesse ser candidata de novo, seria eleita pela terceira vez. O marido morreu, está de luto até hoje. Candidata, derrotaria os outros todos.

Desço no hotel, vou à banca pegar os jornais, bem em frente ao hotel Alvear. O jornaleiro, também jovem, também cabeludo, também bem falante, irrita-se quando lhe pergunto sobre o governo da Presidente:

– Essa Cristina precisa ir embora. Pode vir qualquer um menos ela. Chega de Kirchner. Pode querer um terceiro mandato, mas não terá.

A Argentina é isso. Uma paixão coletiva, entre a flor e o ódio

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“CLARIN”

Abro, ali mesmo na banca, o ‘El Clarin’, o mais furioso contra a Presidente. Mais irado ainda do que ‘La Nación”. O “Clarin” trava uma batalha na Justiça para manter um escandaloso monopólio que nem a “Globo” tem no Brasil. E o “Globo”, para defendê-lo, mente: – “Cristina dá ultimato para retomar licenças do “Clarin”. A Argentina quer suspender concessões de rádio e TV em dezembro”. É o antijornalismo. Quem conta a verdade é a “Folha”:

1 – “O Clarin terá até 7 de dezembro para cumprir a clausula anti monopólio da lei aprovada em 2009. Pela lei os grupos de mídia poderão ter, no máximo 24 licenças de TV a cabo e 10 concessões abertas de TV.”

2 – “Dono do maior jornal do pais, com 240 (!) canais de TV a cabo,10 frequências de rádio e 4 emissoras de TV aberta, dona de 64% do mercado, depois de uma batalha de anos no congresso e na justiça, afinal o “Clarin” perdeu na Suprema Corte, que lhe deu o prazo de 7 de dezembro.

3 – “Para a ONG “Repórteres sem Fronteiras” a lei é necessária e valente diante dos grupos menos dispostos a dividir o mercado.” (Folha)

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“GLOBO”

Toda semana a Rede Globo (jornal e televisões) solta sua matilha gráfica para morder os calcanhares da presidente argentina por causa daquilo que aqui se chama de “a guerra do monopólio”. Provectos jornalistas e colunistas são obrigados pelo monopólio global a mentir vergonhosamente, dizendo que não há liberdade de imprensa na Argentina.

O “Globo” devia ter ao menos o pudor de informar corretamente, como fez a “Folha”. A “TV Globo” morre de medo de perder seu inexplicável latifúndio da comunicação que, diga-se a bem da verdade, não chega a ser como o do “Clarin”. Está na hora de o Brasil ter fibra e uma legislação contra monopólios de imprensa, como têm os Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Espanha, os países que se respeitam.

sebastiaonery@ig.com.br

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