A Folha de S. Paulo e as vendas de eletrodomsticos

Pedro do Coutto

Na edio de quarta-feira, a Folha de So Paulo manchetou o caderno econmico com uma detalhada reportagem de Mariana Sallowicz, com base em dados do IBGE e do DataPopular, sobre o crescimento da venda de eletrodomsticos no pas, de 2002 a 2010, governo Lula. Concluiu que o aumento verificado em nmero de unidades situa-se mais na classe C do que nas classes A e B.

Uma primeira leitura, uma primeira impresso pode levar o equvoco muito comum quando se analisa estatsticas. O primeiro deles: acreditar simplesmente que o poder aquisitivo elevou-se mais no andar de baixo como no filme Metrpolis, imagem sempre citada por Elio Gaspari do que no andar de cima. O segundo: que pode ter surgido uma nova classe mdia em decorrncia da ascenso social dos grupos de menor renda. O terceiro: pode induzir a que se acredite ter havido forte redistribuio de renda no pas.

Nada disso. Expandiu-se o crdito, isso sim, atravs do alongamento dos prazos. Redistribuio de renda s pode ocorrer quando os reajustes salariais derrotarem as taxas de inflao do IBGE. O Programa Bolsa Famlia, com seu atendimento a 12 milhes de residncias, cerca de 40 milhes de pessoas, significa meio efetivo de sobrevivncia, mas impossvel de garantir a compra dos produtos da chamada linha branca.

Basta confrontar o que expe a matria da FSP e os nmeros revelados pelo Datafolha, irmo do DataPopular, em conjunto com o IBGE, no anurio de Midia 2010, que dividiu a populao por classes em cada regio do pas e nas principais cidades. Este Anurio instrumento fundamental para nortear os investimentos em publicidade de acordo com os nveis de audincia das emissoras de televiso e a circulao de jornais, alm da diviso do mercado do rdio e de acessos Internet. Logo, suas informaes so aceitas plenamente. Afinal de contas, o universo da publicidade no Brasil envolve desembolsos anuais da ordem de 25 bilhes de reais. E, felizmente, sinal de progresso, tem apresentado avanos anuais superiores aos ndices inflacionrios. Os anunciantes, mais do que o governo, se orientam pelos nmeros que o anurio apresenta.

Acentua Mariana Sallowicz que o consumo da classe C superou (estatisticamente) o da classe A. Mas no disse que a classe C abrange 41% da populao e a classe A apenas 6%. O termmetro de consumo da classe C subiu mais que o da classe B. Mas o peso da classe B de 28% entre as diversas faixas de renda. Enquanto isso, os grupos D/E renem praticamente 25%. Temos ento, praticamente, um tero no andar de cima. Dois teros no andar de baixo de Lang-Gaspari. Isso explica grande parte das contradies embutidas na constelao estatstica. Mas existe outro aspecto que tambm assinala que o panorama da evoluo social no to acentuado como parece.

Como os economistas classificam os eletrodomsticos? Bens de consumo durvel. Qual sua durao mdia? Este esclarecimento essencial. Pois quem j possua uma geladeira nova em 2005 no adquiriu outra em 2009. Porm quem no possuia nenhuma em 2007 conseguiu adquiri-la em 2008. Como o nmero dos que no possuam aparelhos em bom estado em 2006, por exemplo, era maior dos que possuam bens eletrodsticos em 2009, ao conseguir compr-los representam ( em percentagem ) mais do que os que j as haviam comprado antes.

Um movimento do mercado social digamos assim que nada tem com distribuio de renda ou ascenso a melhor patamar econmico. Para confirmar isso, o Anurio da Mdia editado pelo Datafolha apresenta a escala salarial das cidades de So Paulo e Rio: apenas 24 por cento das famlias ganham acima de 5 salrios mnimos. Sendo que somente 2,1% tm rendimento mensal entre 20 a 50 pisos. Acima de 50 salrios mnimos encontra-se apenas a frao de 0,85%. A realidade esta a. Cuidado com os nmeros. Mais ainda com as estatsticas.

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