A Globo vetou Ciro Nogueira

Sebastião Nery

Mão Cheinha era doidinho lá no Ceará. A família o mandou para o Sanatório Meduna, em Teresina, no Piauí, do psiquiatra e deputado Clidenor de Freitas, primeiro hospício aberto do país. Mão Cheinha logo virou doido-chefe. Tomava conta dos outros. Há sempre um louco cuidando dos outros.

No imenso quintal do hospício, onde os doidos viviam soltos, havia uma mangueira que nunca dava manga. Mão Cheinha não entendia aquilo, um pé de manga que não dava manga. Um dia, chamou um punhado de doidos:

– Olha, minha gente, vocês são mangas maduras. Subam, fiquem lá nos galhos. Quando eu chamar, vocês caem, porque manga madura sempre cai.

Oito subiram. Mão Cheinha, cá de baixo, comandava:

– Manga um!

Poff! E um doido se esborrachava no chão.

– Manga dois! Manga três! Manga quatro!

E eles iam se largando lá de cima e se arrebentando embaixo. Quando Clidenor, na sala da direção, soube da loucura, correu, a tempo de ouvir Mão Cheinha gritar:

– Manga sete!

O manga sete respondeu:

– Mão Cheinha, chama a manga oito que eu ainda estou verde!

E não pulou.

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COFRE CHEINHO

Em março de 2005, o deputado Ciro Nogueira, do Piauí, corregedor e segundo vice-presidente da Câmara, foi indicado por Severino Cavalcanti, do PP, o Pinheiro Machado do governo Lula, para ministro das Comunicações. Tudo certo, até que a familia Marinho, da TV Globo, vetou.

E vetou não por qualquer razão de hospício: a Globo não tinha intimidade com o rapaz, que, como o manga sete de Mão Cheinha, ainda era muito verde, sem traquejo de transas televisivas, telecomunicativas, néticas e telefônicas.

Até há algum tempo, o Ministério das Comunicações era uma pasta de “caneta vazia”. De repente, mais do que uma caneta cheia, tinha virado um cofre cheinho. Em 2005 e 2006, dezenas de concessões de TVs e rádios iam ser concedidas ou renovadas pelo ministério. E, muito mais apetitoso ainda: iam  ser renovados os contratos das telefônicas. Uma mangueira de interesses.

A Globo pulou no rodeio, como nas novelas de Glória Perez e Benedito Ruy Barbosa: se já estava tudo arrumadinho, para que mexer no que estava quieto?  Lula, que até já havia anunciado uma “reforma” ministerial, adiou para depois do acerto com Mão Cheinha. E Ciro Nogueira ficou pendurado lá em cima da árvore, porque a Globo lhe tirou a escada, e nunca mais conseguiu ser ministro.

 

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