A Grécia do xará

Sebastião Nery

O telefone tocou, o garçon atendeu, chamou: “Mister Sebástien”.

Eu me levantei, ele se levantou. Chamava-se Sebástien. O telefonema era para ele. Quando desligou, puxou conversa. Estávamos no bar do hotel de Belgrado, capital da antiga Yugoslávia. Eu vinha de Moscou e Budapeste para a ultima escala, antes de Roma e Paris. Era um homem de rosto estranho, bebia sozinho a um canto. Grego, vivia na Polônia, amigo e companheiro de cadeia de Gomulka, chefe do Partido Comunista e do governo da Polônia.

Tinham acabado de sair da prisão. Passou anos, depois da primeira guerra, nas montanhas da Grécia, lutando na guerrilha do Comandante Marko contra a ocupação inglesa. Era 30% de um homem. Faltava muita coisa nele: não tinha um braço, a perna esquerda era de aço, as costas quase toda de platina. Sobreviveu a um bombardeio de avião inglês e a uma dura prisão americana. Acabou preso na Polônia, acusado de anti-stalinista.

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TITO

Depois de muitas doses e historias inesquecíveis sobre a resistência grega contra a ocupação inglesa, que a Grécia teve que travar depois que expulsou as tropas de Hitler, ele me convidou para o jantar de Tito à delegação da Polônia. E cumpriu. Entrei com um convite polonês. Eu tinha passado a semana toda lutando por um convite para a recepção que o presidente Tito, da Yugoslávia, daria a Gomulka, secretario do partido e chefe do governo da Polônia, e a Josef Cyrankiewicz, presidente do Conselho de Ministros polonês. Não conseguira registrar a tempo minha carteira de jornalista para ter acesso ao banquete.

No jantar, percebi o tratamento reverencial que lhe davam. Era um herói da resistência a Hitler na Grécia, mas sobretudo dos anos da luta dos gregos contra os ingleses, que queriam substituir Hitler e os alemães.

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METÁFORAS

Ao lado do hotel, estacionou um grande caminhão. Leio na carroceria : – “Metáforas”. Pergunto ao porteiro italiano: – O que é isso? – Caminhão de “metáforas”.

Não era uma jamanta de poesia. Era apenas um caminhão de mudanças. “Metáfora” é mudança. Como se fosse o apartamento de Drummond levado para Itabira. Mesmo para quem, como eu, inutilmente estudou grego no Seminário, é impraticável no dia a dia. E o grego moderno, depois de tantas invasões, sobretudo a longa dos turcos, mudou muito o velho grego clássico.

Para esperar o ônibus você não fica no vulgar “ponto”, mas no “êxtase”. Saindo do “êxtase”, a viagem necessariamente será mais agradável. Quando você sai do ônibus, do restaurante, da igreja, não sai pela “saída”. Sai pelo “êxodo”. Como Moisés. A França não é França. É “Gália”, como dizia César o imperador- jornalista, inventor do “lead”, em um dos mais competentes textos da historia da imprensa, antes de Cristo, que começava assim: -“Galia in partes tres divisa est” (“A França é dividida em três partes”). E a própria Grécia não é Grécia. É “Hellas”, “Helada”. Homero puro.

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PERICLES

O rosto sereno, os olhos vazados, a barba encaracolada, no famoso busto que os ingleses roubaram e levaram para o Museu de Londres onde está lá até hoje, durante 30 anos ele fez questão de submeter-se, todos os anos, ao voto do povo, a eleições livres. E foi sempre reeleito. A democracia, a mais perfeita instituição política que o homem conseguiu criar em toda a sua história, da qual Churchill disse que é a “pior forma de governo, com exceção de todas as outras”, nasceu sobretudo em suas mãos, de seu exemplo, de sua vida, 500 anos antes de Cristo.

Quando Péricles, o ateniense, deu aos representantes da terceira classe o direito de serem “arcontes” (parlamentar, magistrado com poder de legislar e executor das leis); quando distribuiu dinheiro aos pobres para que também eles pudessem exercer funções públicas; quando deu aos indigentes o direito de irem ao teatro de graça, Péricles estava instalando a primeira constituinte democrática, fazendo a primeira Constituição democrática, criando a democracia, 2.500 anos atrás.

Quando vejo, nos jornais e TVs, como vi agora em Berlim, essa escabrosa Angela Merkel, gorducha filhota de Hitler, pregando a ocupação da Grecia pelos banqueiros, lembro-me de meu xará Sebastien, que deixou metade do corpo nas montanhas gregas para que os ingleses não fizessem da Grecia a colônia que a asquerosa Merkel quer fazer agora da Alemanha.

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