A guerra da desinformação

João Gualberto Jr.

Tem aquele ditado segundo o qual a primeira vítima de uma guerra é sempre a verdade. Verdade! O Brasil convive com algumas guerras cotidianas nos morros, no trânsito, nos rincões do país e, evidentemente, na política partidária. Em todas essas frentes, informações são torturadas, detidas e assassinadas diariamente; vide o caso Amarildo, no Rio. Acontece que os crimes são cometidos contra a verdade, nos mais diversos campos, e os cadáveres acabam entrando no cálculo da última batalha da lista acima, a ideológica.

O bipartidarismo informal do Brasil, quase igual ao do sistema norte-americano, coloca-nos numa espécie de campanha eleitoral perene. Aécio Neves acusou a presidente Dilma Rousseff de ser uma “candidata ocupando a cadeira da Presidência da República” em virtude do pronunciamento dela no 7 de Setembro. Mas não é ele um candidato de oposição ao Planalto sentado numa cadeira de senador? E qual é o projeto principal de um parlamentar? A reeleição. Na gestão pública brasileira, seja no Executivo ou no Legislativo, são todos eternos candidatos. Melhor, são soldados nessa guerra fria partidária de dois lados.

A militância se desvirtuou em campanha constante, e o compromisso com a verdade é prescindido em favor do prioritário projeto de poder. São diversos os “fronts” explorados pelas milícias partidárias. A passeata contra a corrupção recebe gente infiltrada. Cartazes e pichações nos muros dizem mais do que as palavras expressam. No mercado editorial, livros com capa e discurso sérios fazem panfletagem deslavada para um lado ou para outro. Gráficos e séries estatísticas atestam qualquer tese que se queira demonstrar – números são dados virgens, conteúdo em estado bruto e de matéria maleável.

CAMPO ABERTO

Na internet, esse campo aberto em que todo mundo é produtor e promotor de conteúdo, a batalha partidária é franca, desembargada. Nas redes sociais, então, discursos enviesados e conspirações são munições plantadas, curtidas e compartilhadas. Há quem se revolte com energia suficiente para um clique, e há quem retruque. São palavras e mais palavras que se desmancham na tela, até surgir o novo post, mais “bombástico”.

A um ano da eleição, a indústria do dossiê opera a todo vapor, sem dúvida, e os guerrilheiros digitais, sejam mercenários ou militantes, se ainda não se armaram, breve começarão a plantar suas minas em blogs e fan pages arquitetadas para parecer independentes. Nessa guerra, perdemos todos, inclusive nós, que militamos por um jornalismo sério. O bombardeamento é geral, e, admite-se, fica difícil ter convicção sobre Mais Médicos, black blocs, mensalão e Amarildos. Resta a desconfiança, baliza firme, de que a verdade, essa musa inatingível, é muito mais complexa do que dois lados insistem em nos convencer. (transcrito de O Tempo)

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One thought on “A guerra da desinformação

  1. “…soldados nessa guerra fria partidária de dois lados…”
    “…milícias partidárias…”

    Excelente resenha de João Gualberto Jr.! Acima da geléia geral, para ser cantada no rádio e arquivada em HD externo, lembrando porém que por muito menos, alguns profissionais de imprensa foram premiados com férias forçadas em paradisíacas fortalezas militares ou o degredo no exterior.

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