A guerra suja

Sebastião Nery

SALVADOR – “Em determinado momento da guerra contra os adversários do regime, passamos a discutir o que fazer com os corpos dos eliminados na luta clandestina. Estávamos no final de 1973. Precisávamos ter um plano. Embora a imprensa estivesse sob censura, havia resistência interna e no exterior contra os atos clandestinos, a tortura e as mortes. Tínhamos problemas com pressões políticas fortes”.

1. – “A primeira tentativa foi a de um intercâmbio de cadáveres. A equipe do Rio passou a despachar os corpos para São Paulo e vice-versa. Mas isso não foi suficiente para manter a discrição no ocultamento dos corpos. Foi quando, discutindo o assunto com Perdigão e Vieira (coronéis do Exercito), surgiu a idéia. Com as transações de armas contrabandeadas pelo Trotte (agente da CIA), passei a exercer influência sobre os fazendeiros que precisavam dessas armas para proteger suas terras das possíveis desapropriações advindas da reforma agrária ou de conflitos no campo. Eu fornecia para eles carteiras do DOPS, o que legalizava o uso das armas, garantindo o seu porte. Construí uma rede informal entre esses fazendeiros do Rio de Janeiro, parte de Minas Gerais, Espírito Santo e da Bahia”.

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CLAUDIO GUERRA

Quando vi o livro “Memorias de uma Guerra Suja”, editado pelo experiente José Mario Pereira da “Topbooks”, um terrível e lancinante depoimento do delegado Claudio Guerra aos consagrados jornalistas Marcelo Neto e Rogerio Medeiros, vi logo que se tratava de coisa seria. Comecei a ler logo no aeroporto. Como fui colega de alguns, amigo de muitos e conheci a grande maioria, foi um soco no peito.

A panela explodiu. Um delegado, diretor-geral do DOPS resolveu contar o que viu e ajudou a fazer. Comandado por coronéis, majores e capitães do Exercito, todos do CIEX (Centro de Informações do Exercito) e do DOI-CODI, dentro de quarteis do Exercito no Rio, São Paulo, Minas e Espirito Santo, participou oficialmente, cumprindo ordens, de dezenas de assassinatos, esquartejamentos, queimas e sumiços de corpos.

É brutal, repugnante, mas é preciso ler. Continua Claudio Guerra:

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HELI RIBEIRO

2. – “Uma dessas amizades, a mais importante para a história que vou contar, foi com os donos da usina Cambahyba, localizada em Campos dos Goytacazes. Heli Ribeiro era o patriarca da família, homem de muito prestígio local (foi vice-governador do Estado do Rio – 1967-71). Por causa dessa amizade, passei a frequentar a usina e a entender o seu funcionamento. Falei, então, sobre o forno da industria para Perdigão e Vieira. Alertei que enterrar corpos em cemitérios clandestinos ou jogá-los ao mar – operação comandada pelo Cenimar – já eram técnicas manjadas, que não tinham a mesma eficácia de antes. Relatei a minha amizade e afinidade ideológica e de confiança com Heli, e os dois me acompanharam até a usina de Campos. O local foi aprovado”.

3. – “O forno da usina era enorme, ideal para transformar em cinzas qualquer vestígio humano. E o melhor para eles: pertencia a uma única família. Não havia sócios, logo qualquer envolvimento de outras pessoas. . Eu frequentava a usina, todo mundo sabia, ninguém achava que havia algo anormal nisso. Eu era amigo da família de Heli, e costumava viajar para a casa de praia deles, em Atafona, para passar o fim de semana”.

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PETROPOLIS

4. – “E foi assim que fui responsável por levar dez corpos de presos políticos para lá, todos mortos pela tortura no DOI e na Casa da Morte, em Petrópolis, além dos cadáveres provenientes do DOI da Barão de Mesquita, no Rio, e os que vinham de São Paulo. Mas não matei nenhum desses. Também lá na usina matei e desapareci com o corpo do tenente Odilon, depois que o coronel Perdigão determinou a sua morte em uma ação de queima de arquivo. Perdigão também usou, por conta própria, a usina para esse fim, em ações das quais não participei. Soube que outros políticos desaparecidos foram queimados lá. Mas não sei nomes nem informações”.

5.- “Quanto aos corpos que foram de minha responsabilidade, eu anotei alguns nomes. Saber do paradeiro dessas pessoas e não revelá-lo à sociedade já estava me atormentando há muito tempo. Ao folhear o “Livro dos Desaparecidos”, produzido pela Presidência da República, consegui identificar as pessoas que eu levei para cremação. Os corpos, repito, já chegavam mortos para mim. Não tenho responsabilidade pela tortura e pelo assassinato deles, mas sim pelo desaparecimento”.

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