A herança de Zerbini

Sebastião Nery

Ao embalo dos Beatles, os jovens viravam as pernas do mundo para o ar proclamando que era proibido proibir, o homem descia na lua em sapatos de aço, o Brasil mergulhava nas trevas do AI-5 e, em São Paulo, com a tranqüilidade de um monge budista em férias, um homem sereno e discreto, humilde e sorridente, revolucionava a medicina universal, mudava o destino da humanidade e enchia os brasileiros de orgulho.

Euryclides de Jesus Zerbini, com seu nome de historiador grego, teve a glória de conhecer a imortalidade ainda em vida, como Carlos Chagas, Oswaldo Cruz, César Lattes, Adolf Lutz e outros. Ultrapassou o luminoso portal do reconhecimento que o mundo reserva aos sábios, cientistas e mestres, cujas obras lhes sobreviverão pelos tempos sem fim.

No dia 26 de maio de 1968, o professor Zerbini, catedrático de Clínica Cirúrgica da Universidade de São Paulo, fez o primeiro transplante de coração de um homem, o pecuarista de Mato Grosso João Ferreira da Cunha. Em 5 de setembro, o de Ugo Orlandi. E em 6 de janeiro de 1969, o de Clarismundo Praça. E assim até o fim, em 1993, em plena atividade, com 81 anos.

Zerbini foi o quinto médico do mundo a dominar a técnica do transplante.

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INCOR

A marca do grande mestre é a herança.  Zerbini deixou escola, toda uma fabulosa geração de discípulos, cientistas que o País e o mundo reverenciam, operando nos centros cirúrgicos dos grandes hospitais brasileiros e americanos ou ensinando nas salas de aula das melhores universidades do Brasil e da Europa. Adib Jatene, Fulvio Pileggi, Sérgio Oliveira e Antonio Ramires são seus herdeiros diletos.

E foi a eles que Zerbini entregou o comando e a continuidade de sua maior obra, a Fundação Zerbini, responsável direta pela sobrevivência do INCOR (Instituto do Coração). O cardiologista e professor Antonio Ramires, sucessor de Zerbini na cátedra da USP e diretor da Fundação e do INCOR, foi quem o sucedeu no melhor hospital do Brasil e um dos melhores do mundo.

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TRÊS GERAÇÕES

É uma seqüência magnífica. Jatene, Ramires, Pillegi e Sérgio foram precedidos e preparados por Zerbini e Luiz Venere Décourt, discípulos do veterano Alípio Correia Neto, antecessor de Zerbini na cátedra de Clínica Cirúrgica da USP e um sábio múltiplo: na Segunda Guerra, foi para a Itália com a Força Expedicionária Brasileira, como tenente-coronel-médico, único cirurgião brasileiro com autorização para operar oficiais americanos.

Quando voltou da guerra, Correia Neto ajudou a fundar, em São Paulo, nosso saudoso PSB, Partido Socialista Brasileiro (o legítimo), pelo qual foi candidato a vice-presidente da República em 1950, com João Mangabeira, e que presidiu, a partir de 1955, com o afastamento de João Mangabeira.

Bons tempos aqueles, em que a Medicina Pública tinha padrão de excelência, e a Política, também.

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