A hora de pedir o boné

Carlos Chagas

Com todo o respeito e correndo o risco de represálias, não há como evitar o comentário: o voto mais esdrúxulo, contraditório e velhaco na decisão do Supremo Tribunal Federal que condenou José Dirceu por crime de corrupção ativa foi do ministro Dias Toffoli. Ainda bem que oito integrantes da mais alta corte nacional de justiça desmoralizaram o ex-advogado do PT e braço jurídico da Casa Civil nos tempos de José Dirceu. Deixaram o douto jurista de calças na mão.

Admite-se que Ricardo Lewandowski, votando pela absolvição dos líderes do PT, agiu conforme sua consciência. Teve todo o direito de errar, dentro das máximas do regime democrático.

Mas Dias Toffoli lambuzou-se todo. Porque obviamente para retribuir ao ex-patrão as benesses recebidas, até sua designação para o Supremo, decidiu eximi-lo das culpas de chefe da quadrilha da corrupção. Mas de forma cruel condenou quantos se encontravam sob as ordens de Dirceu, como José Genoíno, Delúbio Soares, Marcos Valério e outros. Quer dizer, mandou os Sete Anões para a fogueira mas poupou a Bruxa Malvada.

Depois de Joaquim Barbosa não perdoar ninguém, Rosa Weber e Carmem Lúcia mostraram-se indignadas. Gilmar Mendes acusou o próprio Lula. Marco Aurélio lembrou que no Brasil ninguém sabe de nada. O decano Celso Mello bateu firme e Ayres Brito jogou a pal-de-cal num dos maiores escândalos da República. Pois Dias Toffoli mostrou que falta alguém em Nuremberg. Felizmente, sendo contraditado, isolado e massacrado pela maioria de seus pares. Não seria o caso de pedir o boné?

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É TRISTE MAS É VERDADE

A vida é sempre mais real do que a ficção, mas é a vida. Em nota divulgada após sua condenação, José Dirceu lançou manifesto lembrando ter sido preso em 1968 junto com centenas de estudantes que se insurgiam contra a ditadura. Um ano depois foi banido do Brasil, tendo voltado na clandestinidade. Em 2005, segunda figura mais importante da República, teve cassado seu mandato de deputado federal, afirmando ter sido transformado em inimigo público número um. Para ele, foi prejulgado e linchado, sem que seus algozes levassem em conta a presunção de inocência. Garante que continuará a lutar contra os que ignoram o Estado de Direito. Está, sua razão de viver.

É a vida. Dirceu mudou, quando deixou de ser pedra e virou vidraça. Ninguém garante que não voltará às origens.

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POR ELA NÃO MUDA NADA

A presidente Dilma reage aos boatos de que promoveria ampla reforma no ministério, uma vez conhecidos os resultados do segundo turno das eleições municipais. Mas terá que enfrentar, senão a dança dos partidos, ao menos a ambição de muitos de seus ministros, candidatos a governador ou a permanecer no Congresso. No correr de 2013 ficarão claras as pretensões, mas como prevenir é sempre melhor do que remediar, quem sabe ela se antecipe? Afinal, é bom preparar o segundo mandato bem antes que ele se inicie.

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