A hora não é agora

Percival Puggina

Para entender o princípio diretor de todas as estratégias petistas não é preciso ser mestre em xadrez, treinado a antecipar sucessivas consequências de um lance. Basta saber isto: o PT jamais, em hipótese alguma, defenderá causa política na qual não leve vantagem. Entendido o axioma, fica fácil deduzir que propostas de reforma eleitoral apresentadas e defendidas pelos petistas precisam ser rejeitadas pela origem.

Entre os poucos fios condutores capazes de unir todos os movimentos de massa destes últimos dias está o monumental repúdio à conduta dos políticos e às instituições nacionais. Nosso modelo é velho na forma e velhaco na execução. A desfaçatez, as ostentações e as malfeitorias que saltitam como pipoca na panela revoltam a população. Os raros afluentes de água limpa que chegam ao mundo político perdem seus efeitos na turbidez dos negócios. Torna-se impossível, então, não sentir o dedo indicador atraído como agulha de bússola para o norte e para o topo das instituições políticas. Ali – bem ali, oh! – onde senta e fala a chefia de Estado, antes Lula e hoje Dilma.

E Dilma veio às falas. Primeiro, propôs uma Constituinte, como fizeram seus parceiros do Foro de São Paulo na Venezuela, Bolívia e Equador. No dia seguinte, face à notória inconstitucionalidade da proposta, a Constituinte do PT virou plebiscito sobre temas de uma reforma política. Ora, por mais que o modelo institucional brasileiro seja o lixo que se sabe, não responde aos mínimos requisitos de prudência fazer mudanças num ambiente de instabilidade. Este é o momento certo para outra coisa: mostrar aos “camisa branca”, aos manifestantes bem intencionados, ser contraditório excomungar os políticos genericamente e não responsabilizar, objetivamente, o partido e as pessoas que, ao longo dos últimos dez anos comandam essa mesma política, levando o país para onde bem entendem e como melhor lhes convém.

Este é o momento de lembrar que nem o lacerdismo foi tão pródigo em lançar denúncias e anátemas sobre seus oponentes quanto o petismo. E que nenhum outro foi tão longe na apropriação do Estado, do governo e da administração para os fins do partido e dos companheiros no poder. Por fim, separar essas três funções – Estado, governo e administração -, atribuindo-as a pessoas distintas, seria a primeira e a principal reforma institucional. Mas desta quase ninguém fala porque significaria retirar o recheio e a cobertura do bolo do poder.

A cautela ensina, até mesmo no plano individual, que não se deve tomar decisões de efeito permanente em momentos de instabilidade emocional. É o que se recomenda ao Brasil agora. A maior imprudência que se pode cometer neste momento é entregar à atual base do governo, amplamente majoritária no Congresso, decisões sobre como devem ser as eleições do ano que vem. Pensando bem, isso é tão evidente que este texto parece totalmente desnecessário, não é mesmo?

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5 thoughts on “A hora não é agora

  1. Prezado Percival Puggina, sua análise está perfeita. Este movimento é na verdade um
    sentimento da população de indignação, pelas mentiras, enganação, corrupção e a lei do Gerson
    (levar vantagem em tudo), utilizada durante esses l2 anos do governo do PT.

  2. E a coisa complicou no estado brasileiro depois que o PT o aparelhou com mais de 50 mil em cargos de confiança, fora os 39 ministérios. Agora a resistência petista em largar o osso é maior que antes. Essa gente está vivendo la dolce vita do poder e já se viciou nos prazeres do poder.

  3. edição melhorada:

    E a coisa complicou no estado brasileiro depois que o PT o aparelhou com mais de 50 mil em cargos de confiança, fora os 39 ministérios. Agora a resistência petista em largar o osso é maior que antes. Essa gente está vivendo la dolce vita do poder e já se viciou nos seus prazeres.

  4. “Este texto parece totalmente desnecessário” … e é, mesmo.
    Ora, se a hora não é agora, quando será? Estamos vivenciando um momento inédito, na História do Brasil, com os estudantes bradando e gritando por melhoras em todos os segmentos nos quais vem sendo destratado, avacalhado, massacrado e humilhado …
    E … por que colocar Carlos Lacerda nisso? O maior “golpe” dele foi posicionar-se corajosamente contra a maior fraude da História Brasileira em todos os tempos, que foi a eleição de Juscelino Kubitschek para presidente da República. Tenho um livro escrito pelo maior historiador que tivemos, Helio Silva, tenho jornais como o Jornal do Commercio e O Globo, que em suas colunas “Há 50 Anos” … contam como tudo aconteceu. Juscelino foi democrata? Perguntem ao Helio Fernandes!!! JK proibiu CL de ir a televisão!!! E Janio Quadros??? Fez sua campanha com uma vassoura simbolizando a limpeza que iria fazer no país, então totalmente emporcalhado. Se ele, Janio, renunciou depois, aí começa uma OUTRA história. E mais: como deputado federal e governador, Carlos Lacerda hoje é exaltado até pelos mais ferrenhos adversários.
    Concluindo; A HORA É ESTA!!! Chega de composições feitas pelos “mesmos” vândalos vampirescos que sugam o sangue dos brasileiros há décadas e décadas!!!

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