A hospitalidade, direito de todos e dever para todos

Leonardo Boff
O Tempo

A questão mundial dos refugiados nos recoloca sempre o imperativo ético da hospitalidade. São milhões que buscam novas pátrias para sobreviver ou simplesmente para fugir das guerras e encontrar um mínimo de paz.

A hospitalidade é um direito de todos e um dever para todos. Immanuel Kant (1724-1804) viu claramente a imbricação entre direitos e deveres humanos e a hospitalidade para a construção daquilo que ele chama de “paz perpétua”.

Antecipando-se ao seu tempo, Kant propõe a República mundial, ou o Estado dos povos, fundada no direito da cidadania mundial, que tem como primeira característica a “hospitalidade geral”. Por que exatamente a hospitalidade? O próprio filósofo responde:

“Porque todos os seres humanos estão sobre o planeta Terra e todos, sem exceção, têm o direito de estar nele e visitar seus lugares e os povos que o habitam”.

FIM DOS EXÉRCITOS

Essa cidadania materializada pela hospitalidade geral se rege pelo direito, e jamais pela violência. Kant postula a desmontagem de todos os aparatos bélicos e a supressão de todos os exércitos, assim como o faz modernamente a Carta da Terra, pois, enquanto existirem tais meios de violência, continuam as ameaças dos fortes sobre os fracos e as tensões entre os Estados.

O império do direito e a difusão da hospitalidade generalizada devem criar uma cultura dos direitos que penetre as mentes e os corações de todos os cidadãos, gerando de fato a “comunidade dos povos”, que pode crescer tanto em sua consciência que a violação de um direito num lugar é sentida em todos os lugares.

Se queremos uma paz perene, e não apenas uma trégua ou uma pacificação momentânea, devemos viver a hospitalidade universal e respeitar os direitos universais. A paz, segundo Kant, resulta da vigência do direito, da cooperação juridicamente ordenada e institucionalizada entre todos os Estados e povos.

BOA VONTADE

Nos tempos atuais, foi Jacques Derrida que retomou a questão da hospitalidade, conferindo-lhe o caráter incondicional para todos. Mas foi ainda Kant que lhe deu a melhor fundamentação. Sua base é a boa vontade, que, para ele, é a única virtude que não tem defeito nenhum. Na sua fundamentação para uma metafísica dos costumes (1785), faz uma afirmação de grandes consequências: a boa vontade é o único bem que é somente bom e ao qual não cabe nenhuma restrição. Ela supõe total abertura do outro ao outro e a confiança incondicional. Isso é factível para os seres humanos.

A boa vontade é a última tábua de salvação que nos resta. A situação mundial é uma calamidade. Vivemos em permanente estado de sítio ou de guerra civil mundial. Não há ninguém (nem as duas santidades, o papa Francisco e o dalai-lama, nem as elites intelectuais e morais, nem a tecnociência) que forneça uma chave de encaminhamento global. Na verdade, dependemos unicamente da nossa boa vontade.

EM MINIATURA

O Brasil reproduz em miniatura a dramaticidade mundial. A chaga social produzida em 500 anos de descaso com a coisa do povo significa uma sangria desatada. Grande parte de nossas elites nunca pensou uma solução para o Brasil como um todo, mas somente para si. Estão mais empenhadas em defender seus privilégios que garantir direitos para todos. Por mil manobras políticas, até com ameaças de impeachment, conseguem manipular os governos democraticamente eleitos para que assumam a agenda que lhes interessa e para impossibilitar ou protelar as transformações sociais necessárias.

Se a boa vontade é assim tão decisiva, então urge suscitá-la em todos. Todos têm o dever de hospedar e o direito de ser hospedado porque vivemos na mesma casa comum.

5 thoughts on “A hospitalidade, direito de todos e dever para todos

  1. Boff estava indo meu bem no seu artigo quando simplesmente envereda pela política e, como sempre, comete seus pecados mortais, principalmente aquele que lhe levará a queimar no inferno se não se confessar e se penitenciar adequadamente mediante o que escreveu ao final do texto:

    “. Grande parte de nossas elites nunca pensou uma solução para o Brasil como um todo, mas somente para si. Estão mais empenhadas em defender seus privilégios que garantir direitos para todos. Por mil manobras políticas, até com ameaças de impeachment, conseguem manipular os governos democraticamente eleitos para que assumam a agenda que lhes interessa e para impossibilitar ou protelar as transformações sociais necessárias.”

    Em outras palavras:
    O pobre PT e a senhora Dilma estão sendo prejudicados pelas elites, além de impedirem que avancemos socialmente!
    Pronto, Boff atropela a verdade, mente, confunde, e se mostra tão perigoso quanto tem sido o partido dos bandidos este, sim, somente pensando em si e nos bolsos de seus dirigentes, associado à elite mais perniciosa que temos, os banqueiros, também imaginando que, reeleita, a presidente através de uma eleição duvidosa pode cometer seus desmandos e descalabros sem qualquer ameaça à sua função porque protegida pela democracia, uma espécie de salvo-conduto à corrupção e desonestidade, na ótica dos petistas, evidentemente.
    Não entendo como uma pessoa culta e inteligente quanto Boff pode se deixar levar por um comportamento devasso do PT, que propaga avanços sociais inexistentes, que divulga projetos em benefício à população que não vemos, e se transforma em uma elite e, predadora, quando rouba e assalta estatais e o erário público!
    Que paixão arrasadora é esta que Boff sente pelos petistas, que o deixa cego a ponto de não perceber os males que o seu partido do coração comete?
    E a inflação?
    O desemprego?
    As pedaladas?
    O caos na Economia?
    O desequilíbrio entre despesa e receita?
    Ora, não é o PT que está no governo? Então quem pode estar interferindo ou querendo “protelar as transformações sociais necessárias”?
    Acho que Boff exagera no seu caradurismo com relação à política. Tendencioso, manipulador, jamais admitiu os erros e crimes petistas, mas continua com aquele discurso roto e descosido contra “as elites”, sem jamais mencionar quem são elas, pois se veria obrigado a relacionar o PT como um dos responsáveis pelo nosso atraso político, econômico e social, agravado por ex-padres e a CNBB que, de forma criminosa e imperdoável, manejam as mentes dos necessitados e os conduzem por caminhos que os afastam da realidade para que alimentem dentro de si o ódio às classes sociais mais elevadas, isentando os petistas de serem responsáveis pelas nossas dificuldades e mazelas, em explícita tentativa de manipulação porque omite a conduta nefasta do PT à testa do País.
    Boff se mostra perigoso, sub-reptício, um legítimo subversivo porque modifica a realidade conforme seus interesses e conveniências pessoais nos mesmos moldes do seu partido, então se torna cúmplice dos crimes praticados pelo PT em face de aceitar e admitir que a corrupção e a desonestidade instituídas pelo partido são válidas, menos a dos outros, os culpados pelos pobres, evidentemente omitindo que os petistas são responsáveis pela pobreza, no entanto.
    Boff me causa uma espécie de revolta e indignação quando flutua sobre as águas turvas e profundas da política.
    E me lembra aquela passagem de um viajante, que a bordo de seu carro e na sua frente um pequeno riacho, pergunta à pessoa que estava ali perto se o seu veículo passaria pelo córrego.
    O matuto disse que sim.
    O motorista avança e afunda com o seu carro.
    A muito custo consegue escapar de morrer afogado, e dirigindo-se com muita raiva a quem lhe dera a má informação, exclama:
    – Safado, como podes me dizer que eu passaria pelo riacho, se afundei com o meu carro e quase morri afogado?!
    – Uai, agora mesmo passou um patinho com água pelo peito, sô!
    Boff e o seu PT apregoam águas calmas e rasas dependendo de quem lhes perguntam, sabendo, no entanto, que são traiçoeiras, profundas, e somente quem as conhecem podem se aventurar em navegá-las ou atravessá-las, escondendo da maioria inculta e incauta os perigos nelas existentes.
    Boff é maldoso, lamentavelmente.

  2. O teólogo citou de leve os filósofos Kant e Derrida, mas o Bend percebeu bem a jogada governista. Só que, a meu ver, hoje eu incluo os líderes, parlamentares e ministros petistas/governistas como parte das elites. Tem a elites históricas que vem de 1500 e tem as elites recentes.

    • Meu caro amigo e professor Rocha,
      A esquerda sempre usou a filosofia como biombo para suas reais intenções!
      Hábeis em teorias, suposições, imaginações, utopias, quando envolvida em corrupção e desonestidade como a nossa, a brasileira, acusa as elites, mesmo que este discurso esteja surrado, gasto, e ninguém mais dá importância para essas alegações.
      No entanto, de forma maquiavélica, demoníaca, cínica e hipócrita, criam as suas próprias categorias especiais, e formam as elites políticas, uma categoria de gente que vai ganhar milhões, independente da maneira como este dinheiro lhe chegar aos bolsos, mas jamais deixando o velho discurso de lado porque ainda surte efeito aos incultos e incautos, razão pela qual a menor preocupação que a esquerda brasileira tem é justamente com a educação, única forma que o povo teria para ter consciência crítica e cívica, de discernimento, de saber escolher seus governantes sem a necessidade dos formadores de opinião ou de vender seus votos por um prato de comida ou, o mais grave, que se não votar e permitir a continuidade do mesmo governo perderá até mesmo o alimento que recebe mensalmente!
      Foi à base de chantagem, mentiras e ameaças, que a Dilma se reelegeu, afora a sua reeleição estar sob dúvidas até hoje graças às manobras inexplicáveis e injustificáveis do ministro petista Toffoli, e que também impediu que as urnas eletrônicas fossem vistoriadas para ser verificado se passíveis de fraudes ou não.
      Enfim, eis a esquerda nacional, que Leonardo Boff omite, esconde, e propaga como agente do pobre para implementar reformas necessárias à sua melhoria de vida, falácia quando comparada à verdade porque simplesmente responsável pela manutenção da pobreza, a partir justamente de estratégias e táticas para cooptar esse eleitor que necessita de ajuda, inicialmente, mas que deve depois seguir os seus próprios passos, se lhe for oferecido trabalho e estudo e, o benefício, diminuído gradativamente.
      Não é assim que o PT age com o cidadão.
      Os petistas o aprisionam, deixam-no dependente, repito. O pobre é condenado à condição de miserável justamente porque sem o ato paternalista do governo ele volta a padecer pela fome sua e de seus familiares, então vota no partido de bandidos e continuando na sua mesma situação social, apenas deixando de morrer de fome, desde que este governo jamais deixe de alimentá-lo em ato de suprema humilhação que se submete porque necessitado.
      Enfim, a esquerda brasileira não mata diretamente o povo como praticaram seus genocídios os déspotas do passado, mas demonstra ser impiedosa, cruel, desumana, e usa o povo despudoradamente à manutenção de seus objetivos, invariavelmente deletérios e criminosos.
      Um excelente domingo meu amigo e professor Rocha.

  3. Sempre achei que “rico” pensasse assim mesmo:
    -Pobre só come no natal.
    -Pobre só transa no carnaval.
    -E pobre só sente frio no mês de junho…
    E, enquanto fala isso, fala, de bucho cheio, sentado e com os pés em frente a uma lareira – após cansativo dia roubando o dinheiro dos impostos que construiriam o futuro do pobre que tanto diz se preocupar…

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