A Igreja Católica e os conservadores bloquearam o planejamento familiar

Pedro do Coutto

O representante do Fundo de População da ONU no Brasil, Harold Robinson, anunciou que de 1951 a 2011, portanto nos últimos 60 anos, a população mundial cresceu 2,5 bilhões para 7 bilhões de seres humanos no planeta, ponto atingido na segunda-feira 31. Um aumento, como se constata, superior a cem por cento. Na verdade equivalente a cerca de 150 por cento.

O universo respondeu bem ao desafio, suportou a pressão da demanda crescente por alimentos, água, mas não está suportando no plano da saúde e do saneamento. E também sob o ângulo dos desequilíbrios sociais. Não se trata de renda per capita, mas de distribuição de renda. Ela não avança por igual. Não se trata de os ricos serem menos ricos, mas de os pobres serem menos miseráveis, último estágio da pobreza.

Estamos há 1978 anos da morte de Cristo. Ele legou ao mundo princípios essenciais de justiça. Inclusive de justiça social. Mas os valores cristãos não se realizam com a velocidade necessária. Um quarto da população mundial é composta de pessoas analfabetas e que todas as noites vão dormir com fome porque não possuem recursos para comprar comida. O mais primário dos direitos, o direito de existir, o direito a vida com dignidade mínima, não é considerado. Pelo contrário.

O trabalho escravo ou semi escravo resiste à passagem dos séculos.As forças conservadoras, a começar pela Igreja de Roma, se opõem ao planejamento familiar. Incrível. No Brasil, o debate começou com a instalação da BENFAM, que, me parece desapareceu, e contou com o apoio de Roberto Campos e Mário Henrique Simonsen, que ocuparam o Ministério do Planejamento em governos da ditadura. Mas nem assim as barreiras foram vencidas, os obstáculos transpostos.

Francamente, dizer que o sexo deve ter sua prática restrita à procriação é um absurdo. Fora da realidade. O Vaticano perdeu-se no tempo e no espaço. Afastou-se do cristianismo para exercer o catolicismo. Passou à condição de Estado político, aliás Estado do Vaticano é o seu nome. Esteve e está na retaguarda do progresso.

Foi assim em relação a Maria Madalena, foi assim em relação a Galileu, foi assim em relação à Inquisição, foi assim através de seu silêncio quanto à escravidão negra, colombiana, mais recente que a escravidão branca que se perde na noite dos tempos, como se dizia antigamente.

Voltando ao tema população, ela cresceu infinitamente mais nos países e regiões pobres. Nesses pontos críticos, sufocados pela negação do cristianismo, as mulheres não tem acesso a métodos anticoncepcionais, os quais são também preventivos do HIV, vírus da AIDS, descoberto em 81 pelos cientistas Roberto Galo, americano, e André Montaigner, frances, que disputam até a patente.

Como, diante de uma epidemia que infecta 40 milhões de pessoas, e que cresce à razão de 5% ao ano, quatro vezes mais que a população, a Igreja Católica pode permanecer no conservadorismo, ao lado das posições mais reacionárias do planeta? Impressionante.

 Tomando por base o Brasil, se o planejamento familiar tivesse sido colocado em prática há 40 anos, outra seria a classificação de nosso país na escala de desenvolvimento social. Os conservadores, como o nome indica, sempre na contramão da história. Uma pena que tenha sido assim. Agora só resta a esperança de, como Proust, partir-se em busca do tempo perdido.

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