A inexorvel reao do Trabalho

Carlos Chagas

Faz um ms que transcorreu o Dia do Trabalho. Comprova-se no ter havido o que comemorar. Pelo contrrio, s a lamentar. O Trabalho, com “T” maisculo, anda em baixa no mundo inteiro. Mesmo com o neoliberalismo fazendo gua, prevalece a evidncia de no poder perpetuar-se a execrvel relao do Trabalho com o Capital. O aumento da populao mundial apenas um dos fatores da humilhao da mo de obra humana. Tem gente demais e emprego de menos, no planeta, por enquanto levando as massas acomodao, j que encontrar trabalho remunerado a preo vil melhor do que ficar desempregado. E haja desemprego nos cinco continentes, inclusive nos pases ricos.

Tome-se a China, com um bilho e trezentos milhes de habitantes, onde a mdia dos salrios no passa dos 25 dlares mensais. Registre-se que l, por fora do regime vigente, ningum passa fome, nem mora na rua. O que os chineses ganham d para sobreviver. Alm do que, encontra-se garantida a educao para todos. A sade, tambm. Mesmo assim, o Capital internacional invadiu a China, alimentado pelos baixos salrios e pela excelente qualidade do trabalhador urbano. O tal milagre chins tem suas contradies, porque s as minorias conseguem receber migalhas do banquete da especulao internacional. Por enquanto, melhor isso do que nada.

A gente se pergunta se o Trabalho encontra-se definitivamente condenado, arcabuzado de todos os lados, inclusive pelo avano da tecnologia que substitui o homem pela mquina. No adianta estrilar, claro, as coisas so assim. Por enquanto.

O resultado inicial dessa venenosa equao est na reduo dos chamados direitos trabalhistas, nas naes onde existiam. Suprimem-se ou so reduzidas ao mximo prerrogativas como estabilidade no emprego, pagamento de horas extraordinrias, indenizaes por demisses imotivadas, dcimo-terceiro salrio, frias remuneradas e outras conquistas. O salrio mnimo, aviltado, na prtica desapareceu, assim como a jornada de oito horas. Seguindo o processo nesse rumo, breve se reinstituir o emprego sem salrio, o Trabalho em troca de alimentao e vesturio. Numa palavra, de volta a escravido, mesmo maquiada. O fim do que sobrou da dignidade do trabalhador.

A gente se pergunta se para a Humanidade esse um caminho sem volta, independentemente de regimes polticos e de ideologias. Ainda mais porque as minorias detentoras do Capital beneficiam-se cada vez mais e enganam as maiorias com a mentira de que todos podero chegar onde s uns poucos chegam, bastando apelar para a livre competio.

A vida, porm, bem mais fascinante e surpreendente do que qualquer concluso elitista dita definitiva. A humilhao do Trabalho tem seu preo, que acabar sendo pago por todos, a comear pelo Capital.

A multiplicao do nmero dos humilhados movimentar as correias do passado e os chips do presente no rumo de mudanas profundas no futuro. Porque se o Trabalho e o trabalhador no tiverem mais nada a perder, um barbudo j escreveu quase dois sculos atrs, acabaro tendo um mundo a ganhar. Mesmo que para isso precisem destruir o atual. Depende deles, trabalhador e Trabalho, por maiores que sejam os instrumentos disposio do Capital. A questo se torna aritmtica, bastando somar.

Tempo ainda existe, em termos planetrios e at nacionais, para evitar a ruptura e a exploso. Mudar a correlao de foras entre Capital e Trabalho seria soluo, como demonstraram as eleies de 2002, entre ns. Se quem prometeu mudar curvou-se s imposies ou aderiu s benesses e privilgios daqueles que insistem em manter humilhado o Trabalho e submisso o trabalhador, outra histria, ainda capaz de ser corrigida pelas urnas. Ou, no reverso da medalha, pela fora incoercvel dos trabalhadores e do Trabalho.

Exemplos comeam a pipocar em todos os quadrantes, uns confiando nos instrumentos democrticos do voto, outros lanando mo da prpria fora. esse o fantasma, alis, o mesmo de outros tempos, que volta a pairar sobre a Humanidade.

O vaticnio de Vargas

Ao empossar-se pela segunda vez no governo, em janeiro de 1951, Getlio Vargas abandonou as vetustas instalaes do palcio Tiradentes e dirigiu-se massa postada do lado de fora, num dos mais profundos pronunciamentos da poca. Em dado momento, falou aos trabalhadores: “Hoje, estais no governo. Amanh, sereis o governo.”

Sessenta anos depois, ser que a experincia deu certo?

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