A Itália de Berlusconi

Sebastião Nery

Cidadão romano (viveu de 340 a 397), nascido na Alemanha, educado em Roma onde estudou Direito, filho do prefeito da Gália, também ele prefeito da Ligúria e da Emilia, Ambrosio nem batizado era.

Morreu o bispo de Milão, houve confusão para a escolha do sucessor. Ambrosio foi à igreja acalmar a briga, o povo gritou : “Ambrosio Bispo”!

Ele topou. Era rico, distribuiu os bens aos pobres, estudou teologia e se tornou um dos Doutores de Igreja. Converteu Santo Agostinho e os dois fizeram a letra e a música do “Te Deum”. Virou o defensor dos pobres.

Em 7 de setembro de 1996, dia de Santo Ambrosio, estava eu em Milão, fui à belíssima catedral gótica assistir à tradicional missa da festa de Santo Ambrosio. Nos primeiros bancos, a Itália política : a esquerda com o primeiro-ministro Massimo D`Alema, secretario-geral do PDS (Partido Democrático “de Sinistra”, de Esquerda), que havia acabado de ganhar as eleições com uma coligação de centro-esquerda, e a direita com o ex-premier Silvio Berlusconi, líder da oposição então derrotado.

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FUROR DOS POBRES

No sermão, o alto, elegante e ainda vigoroso cardeal Martini, naquela época considerado o sucessor natural de João Paulo II, olhando bem para os dois, mas também para os outros políticos, denunciou :

– “Nossa sociedade não parece sentir-se constrangida com o furor dos pobres, que tentam fazer ouvir a sua voz e encontrar uma representação política. Direita e esquerda defendem os privilégios sob uma lógica individualista dos direitos privados e da conservação dos privilégios dos que já os têm, esquecendo os direitos sociais daqueles que não os têm”.

E continuou seu duro sermão, inesquecível. Sem ouvir sequer a voz profética do cardeal Martini, a centro-esquerda italiana manteve a hedionda política econômica dos banqueiros. Depois de incontidas ambições, a esquerda acabou perdendo o governo, quando era primeiro-ministro o integro e respeitado professor de Bolonha, Romano Prodi, devolvendo o poder a Berlusconi, uma mistura de Roberto Marinho com Antonio Palocci: o fascinio pelo poder e pelas televisões de Roberto Marinho com a calculada frieza e cascuda insensibilidade pessoal e social de Palocci.

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ROMANO PRODI

 Nove anos depois, fui à “Piazza Del Popolo”, ao lado da turística “Piazza di Spagna”, onde a centro-esquerda reuniu, em magnífico domingo de sol, 100 mil pessoas que lutavam para derrubar Berlusconi nas eleições de abril de 2006, sob o comando do mesmo Romano Prodi, “Il Professore”, pequeno, de oculos, até há pouco presidente da União Européia. Prodi dizia:

1. – “A Italia não merece Berlusconi. Com Berlusconi, a Italia está humilhada. Não merecemos ser governados tão mal. Os italianos merecem coisa melhor. Não merecemos a arrogância de um poder que quer salvar da justiça Berlusconi e seus amigos. Um governo irresponsavel, que apresenta um Orçamento típico de quem está fugindo e que sabe que não será ele quem irá enfrentar os problemas no próximo ano”.

2. – “O governo que prometeu milagres só fez desastres. É este o pais em que queremos viver? Não! Digamos não a esse governo que fez uma politica “de classes”, que deu muito aos ricos e nada aos pobres. E ainda jogou sobre o país o preço de suas divisões. Os jovens olham com inveja os proprios pais, temendo que suas vidas sejam piores”.

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13% NA INDIGENCIA

Com as diferenças históricas, culturais, sociais, acumuladas em seculos, a Italia, como o Brasil, sentia-se algemada pela corrupção endêmica e uma brutal divida publica provocada pela especulação financeira internacional, que comandava imprensa, partidos e governos.

O pais rondava o mesmo abismo que ameaça o Brasil. Corrupção no governo e o pais trabalhando sobretudo para os banqueiros, tendo que fazer dolorosos “superavits” para pagar juros e sem sobrar dinheiro para a saúde, a educação, a segurança e grandes obras dos investimentos publicos.

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ESQUERDA

O ISTAT, o IBGE de lá, divulgava os números da crise e Romano Prodi dizia que era “muito pior do que o previsto”:

1. – “A realidade dos numeros fala de uma grande parte do pais entre a vergonha e a miséria. Com uma população de 58 milhões, 13,2% vivem em condições de indigencia” (“Vivono in condizioni di indigenza”).

2.- “2 milhões e 674 mil famílias, o que significa 7 milhões e 588 mil pessoas vivendo em condições de indigência. São 13,2% do pais contra 10,8% do ano anterior. Em um ano, foram 270 mil a mais”.

3. – “No Norte (Milão, Turim, etc), eram 4,7% das famílias. No Centro (Roma, Napoles, etc) 7,3%. No Sul (Sicília, Calábria, Catania etc), 25%. Uma família indigente sobre quatro” (“La Republica”).

Berlusconi perdeu em 2006, mas, por culpa da esquerda, a politica ecnomica para os banqueiros continuou a mesma e em 2008 ele voltou.

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