A lição de Osasco

Sebastião Nery

Quando Jânio Quadros voltou da Europa depois da primeira viagem após a renúncia, o único prefeito do País que foi ao porto de Santos recebê-lo a bordo do cargueiro inglês foi Guaçu Piteri, de Osasco.

Um político exemplar. Engenheiro agrônomo, fundador da Associação Brasileira de Reforma Agrária, professor de sociologia, deputado estadual e federal, foi prefeito de Osasco de 1967 a 1970, e de 1977 a 1981, sempre pelo MDB,PMDB e meu colega na Câmara pelo PDT.

No golpe militar de 31 de março de 1964, Guaçu quase foi cassado por causa da solidariedade a Jânio. Jornais disseram em manchete que ele estava querendo fazer de Osasco a “Nanterre paulista”. Acabou sendo salvo pela amizade do coronel Lepiani, então comandante do 4º RI, de Quitaúna.

Em 1976, depois de dois mandatos de deputado, Guaçu novamente se candidatou pelo MDB a prefeito de Osasco contra Carlos Zuppo, da Arena, apoiado pelo deputado Francisco Rossi. Um dia, as paredes da cidade amanheceram cobertas por um cartaz enorme com a fotografia dos três: Jânio, Zuppo e Rossi. E Jânio apoiando Zuppo.

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GUAÇU PITERI

Guaçu não disse nada. Foi à Câmara Municipal de São Paulo assistir à solenidade em que Magalhães Pinto recebia o título de cidadão paulistano. Jânio chamou Guaçu ao telefone da Câmara Municipal:

– Guaçu, como vai, meu bem? E a campanha? Estive na semana passada em Osasco e soube de algumas coisas que preciso te relatar.

– Eu sei, presidente. Vi hoje as paredes e postes cobertos com as fotografias dos três: o senhor, o Rossi e o Zuppo. A trinca da Arena.

– Cometeram tamanha indignidade comigo?

Guaçu desligou sem dizer o palavrão que segurou.

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P DE PONTO

Quando o Tribunal Superior Eleitoral doou a legenda do PTB à deputada Ivete Vargas, o prefeito Guaçu Piteri, de Osasco, presidente da Comissão Executiva do PTB de São Paulo, começou a tonar providências urgentes para manter o trabalho de organização partidária e esperar a nova sigla (PDT), que seria escolhida no encontro nacional no Rio de Janeiro.

Para não perder tempo, telegrafou a todos os diretórios do interior:

“- Companheiros trabalhistas, roubaram-nos a sigla, mas continuem organizando comissões. PT.”
E teve que fazer todo o trabalho de novo para avisar que esse PT era de “ponto” e não do PT de Lula.

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A CARTA

Osasco fazia 20 anos. Guaçu Piteri, o prefeito, comemorava o aniversário da cidade com uma série de inaugurações de obras públicas.

Um garoto muito magrinho, franzino, moreninho, pobrinho, furou a fila, chegou perto de Guaçu:

– Prefeito, quero uma coisa. Uma carta. Quero que você escreva uma carta para mim. Lá em casa, meu pai recebe carta dos políticos, minha mãe recebe carta dos políticos, eu também queria receber uma carta de um político. Você promete escrever?

– Prometo, Vou escrever.

E foi saindo. O menino correu atrás, puxou Guaçu pelo braço:

– Prefeito, como é que você vai escrever, se não tem meu endereço?
E ditou, palavra por palavra:

– “José Newton Calves Penha, rua Gonçalves, 1.448. Novo Osasco”.

A carta de José Newton chegou.

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JOÃO PAULO

Contam os jornais que o ex-líder de Lula, ex-presidente da Câmara dos Deputados e candidato a prefeito de Osasco, João Paulo Cunha, já tríplice condenado por corrupção pelo Supremo Tribunal Federal, está “há quatro dias chorando sem parar”.

Culpa dele. Em vez de seguir as lições de competência e ética do seu exemplar conterrâneo de Osasco, foi atrás da paranoia moral de Lula, para quem em política vale tudo, sobretudo a corrupção. E se ferrou.

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