A maior parte do dinheiro de campanha eleitoral nos EUA vai para a imprensa-empresa

Michael Wolff (Commondreams)

A realidade da arrecadação de fundos para campanhas eleitorais é que os ‘doadores’ sempre recebem menos do que esperavam. A quem interessa, afinal, esse mar de dinheiro? A resposta é simples: às empresas de comunicações e à empresa-imprensa, com seus muitos tentáculos.

O que, afinal, esse mar de dinheiro – 2012 é a mais cara campanha eleitoral de todos os tempos – compra? São 750 milhões de dólares para a presidência, números da campanha de Obama; Mitt Romney disse que sua campanha custará 800 milhões de dólares; e há mais algumas centenas de milhões, em dinheiro dos SuperPacs (comitês independentes para administrar gastos de campanhas eleitorais)

E o que obtêm as pessoas e empresas que apostam essa montanha de dinheiro em troca de influência política? Ou, pergunta mais direta: o que esse pessoal pensa? Por que ainda acreditam nessa ‘ferramenta’?

Sheldon Adelson é um dos maiores doadores da atual campanha (segundo alguns suas doações já alcançam 100 milhões de dólares), primeiro para Newt Gingrich, agora para Romney, e acompanhou o candidato Republicano e sua entourage na visita que fizeram a Israel. Deve ser exatamente o que Adelson procura: algumas viagens divulgadas, ver o próprio nome nos jornais, um pouco de intervenção nas relações EUA-Israel, um pouco de orgulho baseado na fé. Sim, mas… Terá conseguido algum tipo de real influência no mundo político?

Não vejo como os dois teriam qualquer tipo de afinidade: o judeu pobre que faz fortuna no mundo dos cassinos e jogatina, e o mórmon de classe alta, para quem jogar e beber são tabu. Sejamos práticos: com tal investimento político, Adelson se torna, isso sim, uma pulga monstro na camisola do pessoal de Romney.

Esse pessoal consome tanto tempo arrecadando dinheiro quanto, depois, tentando passar a perna nos mesmos dos quais arrancaram dinheiro. Precisamente porque Adelson suporá que lhe devem muito, mais ele será rejeitado, ridicularizado, manobrado pela Casa Branca de Romney (se chegar a existir). Migalhas e desprezo: eis o que tocará a Adelson.

É possível que, naquela idade e com fortuna de 25 bilhões, ainda lhe interesse uma última subida ao palco público (todos os grandes doadores de campanha são homens idosos). Mas acho que isso também virará cinza: passadas as eleições, a imprensa apaga do mundo o nome dos doadores. (O que não significa que os doadores deixem de ser procurados para doar mais dinheiro.)

Os apoiadores da corretora Bain, de Romney, terão melhor senso de equilíbrio? Será que todos só põem dinheiro no cavalo Romney?

A estratégia de todos os caras de fundos privados que conheço – exceto os que, como aquele meu amigo e Mitt Romney, queiram virar políticos – é voar abaixo dos radares. Como agora aposta o presidente Obama, não há possibilidade de muita gente entender o negócio dos fundos privados – e menor ainda é a chance de aprovarem, caso venham a entender alguma coisa. Portanto, mesmo que Romney seja eleito, e os fundos privados consigam uma Casa Branca amigável, a única coisa que terão comprado com seus milhões de dólares investidos em campanhas eleitorais é um vastíssimo problema de desprestígio das respectivas marcas comerciais.

Para os doadores, mesmo assim, há o sentimento de que se engajam nas grandes disputas nacionais. Contribuir com uns poucos dólares, ou com uns poucos milhares de dólares – ou, se você tem bilhões, com a fatia equivalente em milhões de dólares – é uma espécie de interatividade. Você é parte do todo. Você significa. Você conseguiu. Você faz diferença.

Todas as análises dos financiamentos de campanha eleitoral perdem gravemente o rumo, quando apontam, como objetivo oculto dos 2 bilhões, a mera compra de influência escusa e indireta. Melhor fariam todos se observassem mais direta e exatamente quem embolsa a grana e, portanto, quem tem interesse em promover o jogo e mantê-lo exatamente como é.

Em primeiro lugar nessa lista, aparece a mídia-empresa. A política eleitoral presidencial é hoje a diferença entre o lucro e o prejuízo para muitas redes de televisão nos estados ‘oscilantes’ (e em todos eles há sempre uma ou duas grandes empresas de televisão e comunicações que reinam, dominantes). Se se presta atenção a quem tem o maior interesse financeiro em manter as divisões partidárias e a hostilidade entre elas, na política contemporânea, só se vê, com destaque, um agente: o negócio da imprensa-empresa, as gigantes da comunicação. É conflito estranhíssimo: a mídia-empresa vive de por fogo nos desentendimentos entre políticos e seus eleitores, ao mesmo tempo em que lucra diretamente dos incêndios que provoca.

Em segundo lugar, aparecem as agências de publicidade, que compram espaço na mídia. Plantados entre o doador de campanha e o destinatário do dinheiro, está o pessoal que, de fato, gasta a dinheirama arrecada. Em muitos casos, recebem uma fatia do dinheiro: uma percentagem da venda de anúncios (em geral entre 8% e 15%), vai diretamente para eles. É o negócio dos intermediários e operadores políticos: consultores contratados em todas as campanhas (em todos os níveis e planos em que haja eleições), e, atualmente, nos EUA, também os SuperPacs que, todos, se converteram em grandes compradores de tempo na grande mídia em todo o país. (O que é o mesmo que dizer que os SuperPacs são hoje negócio altamente lucrativo.)

Karl Rove não assessora o American Crossroads SuperPac, de graça. Na essência, esse pessoal que define os termos da disputa – quanto mais dinheiro gasto, mais acirrada a disputa –, que determina o tom da campanha, que define o custo das campanhas e que administra o caixa da campanha, é quem mais ganha, diretamente, do dinheiro arrecadado e gasto.

Todos os demais envolvidos ganham sempre muito menos do que esperavam.

 

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