A maldade me revolta, mas já não me surpreende porque não me iludo quanto à Humanidade

Morte da única tigresa do zoológico de Teresina deixa tratador de 'luto' | Piauí | G1

Jaula vazia é habitada pela memória da maioria silenciosa

José Eduardo Agualusa
O Globo

Muitas vezes, cruzando-me com um vizinho, sou assaltado por este tipo de pensamento: ‘será que este me entregaria aos leões?’ Não é o tipo de pensamento que me ajude a estabelecer boas relações com a vizinhança

Nunca gostei de ver animais enjaulados. Fiquei a gostar ainda menos depois que, em fevereiro de 2013, visitei Brazzaville, a pequena capital da República do Congo, para participar num festival literário. Num intervalo entre as palestras fui com o meu tradutor, um simpático artista plástico, fluente em 13 idiomas, visitar o jardim zoológico.

O meu tradutor queria mostrar-me um painel que pintara à entrada do complexo, mostrando todos os animais que os visitantes poderiam encontrar. Percebi que aquilo era importante para ele, e aceitei.

FANTASMAS TRISTES – Os animais vagueavam por entre as ruínas como fantasmas tristes. Fotografei os macacos, estendendo os dedos aflitos por entre a ferrugem das grades. Um boi-cavalo arquejante, só pele e ossos, escavava o duro chão com as unhas gastas, à procura de algum talo de capim verde. Tinha um dos chifres rachados, preso com fita adesiva.

Guardei a câmara, agoniado. O meu tradutor deteve-se diante da jaula do leão. Lá dentro não parecia haver nada, exceto uma noite escura e um cheiro antigo e pesado, que nunca mais esqueci.

— O que aconteceu ao leão? — perguntei.

O meu tradutor falou-me da guerra civil. A maioria dos animais morreu de inanição nesses meses cruéis, ou devorados pelas pessoas. O leão, contudo, não morrera de fome. Fora o contrário: morrera de indigestão.

DENTRO DA JAULA – Um oficial das forças governamentais lembrou-se de colocar soldados inimigos dentro da jaula para os humilhar e assustar e, assim, lhes extrair informações. Um dia, o leão, esfomeado, matou um deles. A partir dessa altura passaram a alimentar o animal com carne humana.

Volta e meia lembro-me daquela jaula, e de que não há verdadeiramente espaços vazios. Não alimento ilusões quanto à humanidade da Humanidade. A maldade continua a revoltar-me, mas já não me surpreende.

Vivemos cercados de pessoas comuns que, em situações de colapso moral, como uma guerra, seriam capazes de entregar uma criança para ser devorada por um leão. Muitas vezes, cruzando-me com um vizinho, sou assaltado por este tipo de pensamento: “será que este me entregaria aos leões?” Não é o tipo de pensamento que me ajude a estabelecer boas relações com a vizinhança.

EXISTEM HERÓIS – Há também aqueles que dão a própria vida para salvar o garoto que foi atirado para a jaula dos leões. São poucos. Muito poucos. No final da história, os poucos que nos resgatam.

A maioria das pessoas não seria capaz de lançar ninguém aos leões. Ficaria calada. Esse é o tipo de silêncio que enche aquela jaula, lá, no decrépito jardim zoológico de Brazzaville.

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P.S.. –
Ouço Donald Trump proclamando aos gritos que ganhou umas eleições nas quais foi amplamente derrotado e ocorre-me que talvez toda a minha realidade seja, afinal, uma intrincada ficção. Um sonho alheio. Depois leio algures apenas 3% dos norte-americanos acreditam verdadeiramente que Trump triunfou (embora milhões finjam acreditar) e fico um pouco mais sossegado. É mais fácil conviver com uma multidão de trapaceiros, flibusteiros e aldrabões, do que com a própria loucura. (J.E.A.)

(José Eduardo Agualusa é angolano, considerado um dos mais escritores da atualidade)

11 thoughts on “A maldade me revolta, mas já não me surpreende porque não me iludo quanto à Humanidade

  1. Carlos Newton,o teu problema emocional com Trump é psicopatológico.

    PS-Toda a grande imprensa e mídia,está corrompida totalmente,pró Nova Ordem Mundial (o que você nega por absoluta falta de conhecimento e interesse de buscar a verdade).

    PS2-Pergunto novamente o que você não respondeu em outro comentário:

    “Onde está na Constituição Federal dos EUA,que um candidato à presidência da República,possa ser DECLARADO vencedor,unicamente pela imprensa? E as interpelações judiciais de Trump
    dos Estados questionados até a Suprema Corte,
    o Colégio Eleitoral que vai,ainda,se reunir no dia 14/12/20,apurações ainda em andamento,…,
    tudo isso é descartado pela imprensa canalha americana,brasileira e mundial.

    PS3-Outro dia você respondeu que não tem ódio de Trump,mas desprezo.
    E,também,não respondeu quais os argumentos
    para justificar tamanho desprezo.

    PS4-O que tem a ver o artigo com narrativa de uma tragédia humana com Donald Trump?

    • Germani, o cabelo de Trump fez CN pensar em Trump. Ficou imaginando Trump em uma jaula e ele como cicerone do escritor angolano: “Este leão aqui , Sr Angolano, é americano e, por falta de votos favoráveis, vai sair daqui, o que vai ser bom para mim pois eu o desprezo”.

      Nunca devemos esquecer que ódio e paixão estão muito próximos. Trump não precisa nem da presidência dos EUA nem de desprezadores brasileiros. Bolsonaro ganhou indulto, mas só hoje, hein ?

  2. Adendo: pare de ter como fontes de informação a usina de esquerdismo e de inverdades dos veículos canalhas de Sucupira (O Globo,Globo News,G1,
    Estadão,Folha,O Tempo,Rede Globo,…,e por aí vai)

    PS-Ser esquerdista é ter como meio de vida MENTIR.

  3. Eu, a exemplo de você, não me surpreendo não, José Eduardo: meu pai. que vestia a farda da mesma corporação do Bolsonaro, era também extremamente truculento e até exibia semelhanças físicas do presidente.
    Frequentemente, meu genitor lançava uma advertência para os filhos: “Jamais esqueçam hein, o ser humano foi a pior desgraça que o diabo cagou na face da terra! Mas não se traiam, mantenham o gatilho puxado e ajam com naturalidade; não deixem o outro perceber que vocês o estão vendo assim”. E depois, ele ia passando o escrito de mão em mão a fim de reforçar o alerta!

  4. Carlos Newton, meus aplausos pela sua sensibilidade e censo de oportunidade ao publicar esse artigo e minha solidariedade ao seu “via crucis” diário. Deus há de recompensar tanto idealismo e sacrifício.

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