A manha do Barão

Sebastião Nery

Mario Rodrigues, pai do Nelson Rodrigues, era jornalista do “Correio da Manhã”, no Rio. Acusou a mulher do presidente Epitácio Pessoa (1919-1922) de ter se vendido aos usineiros de Pernambuco em troca de um colar de pérolas. Foi preso e, quando saiu, demitido.

Fundou “A Manhã”. Não queria os militares no poder:

– Os tenentes (de 1922, 24) querem tomar o governo porque dizem respeitar os dinheiros públicos. Seria o caso de se fazer uma experiência com os capuchinhos e as irmãs de caridade.

Defendia o governo de Artur Bernardes (1922- 26) e o estado de sítio. Fazia sucesso a coluna “Amanhã Tem Mais”, de um jovem humorista gaúcho, saído de “O Globo”, Aparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o Apporelly, depois o incomparavel Barão de Itararé, que um dia lhe disse:

– Mario, fora do governo sua reputação é a pior possível.

– Sossegue, meu filho. No jornalismo, é melhor ter má reputação do que não ter reputação nenhuma.

***
MARIO RODRIGUES

Uma tarde, muito calor na redação, Apporelly disse a Mario:

– Vamos tomar alguma coisa?

– De quem?

Um ano depois de inaugurado o jornal, as oficinas entraram em greve, por falta de pagamento. Mario foi a Belo Horizonte e pediu 80 contos a Mello Viana, presidente (governador) do estado. Mello Viana deu. Mario pensou que aquele era seu dia de sorte, entrou em um cassino, jogou tudo, perdeu tudo. Desesperado, voltou para o Rio, disse a Apporelly:

– Sou um canalha, tirei o pão da boca de meus filhos. Vou me matar.

– Doutor Mario, conhece a “teoria do dá”? Vai lá e pede de novo.

– Você acha?

– Quem dá uma vez, dá duas.

Mario Rodrigues voltou ao Palácio da Liberdade e pediu mais 80 contos a Mello Viana que, sabendo que ele queria se matar, deu mais 80 contos.

Pensando recuperar o primeiro dinheiro, Mario voltou ao Cassino do Bomfim e perdeu tudo de novo. Foi uma tragédia. Agora, ia se matar.

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MELLO VIANA

No Rio, tentou pular da janela do quarto andar do hotel onde Apporelly morava. Apporelly impediu. E voltou à “teoria do dá”:

– Doutor Mario, escute. Quem dá uma e dá duas, dá três. Se ele não tivesse dado uma, não dava duas nem três. Deu, dá. Vai lá e pede de novo.

Mario foi e, sob ameaça de ser posto na cadeia se voltasse ao cassino, conseguiu voltar com o dinheiro. Abraçava Appporelly:

– Meu filho, você é um gênio. Um gênio!

– Doutor Mario, agora bem que o senhor podia me pagar. Faz um ano que eu trabalho e não recebo nada.

– Meu filho, quem dá um ano de trabalho de graça, dá dois e dá três. Se você não tivesse dado um, não dava dois nem três. Mas deu, dá.

Apporelly saiu e fundou “A Manha”, “um jornal de ataques… de riso”.

O primeiro número saiu atrasado para que os leitores pagassem em dobro. Não tinha expediente: “Jornal sério não vive de expediente”.

No segundo número, fez o primeiro aniversário, “para ganhar a credibilidade do leitor”.

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IPOJUCA PONTES

Ótimas histórias, não são? Você, leitor, ainda não viu nada. O jornalista e cineasta Ipojuca Pontes conta muito mais em “A Manha do Barão – Confissões de bom e mau humor”, um livro que virou peça de teatro que é um longo, magnífico, irresistível monólogo do gênio do humor brasileiro, o Barão de Itararé.

Ipojuca teve a sorte de ser vizinho do Barão, na Praça São Salvador, no Flamengo, Rio, e conversar muito com ele, antes de ele morrer, em 27 de novembro de 71 (nasceu em São Leopoldo, RG, em 1895). Depois, procurou o irmão Edecio, os filhos. Em novembro de 72, em um sebo de São Paulo, encontrou a coleção completa de “A Manha”. Comprou na hora.

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ALMANHAQUES

E também conseguiu uma coleção dos “Almanhaques”, a revista do Barão, que acabou eleito vereador do Rio pelo Partido Comunista em 1947 e logo depois cassado e preso, com a cassação do PCB pelo governo Dutra.

Não vou, não posso, contar o livro todo. Mas não há brasileiro que não conheça “uma do Barão”, suas frases perfeitas, definitivas, inesquecíveis:

Na Faculdade de Medicina (fez só três anos, no Rio Grande), o examinador, irritado com suas respostas zombeteiras, lhe perguntou:

– Quantos rins nós temos?

– Quatro. Dois meus e dois seus. A menos que o senhor seja anormal.

Foi reprovado e abandonou.

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PRESTES

Na ditadura de Vargas, só o chamava de “G. Tulio Dor Nelles Vargas”. Dizia: “O Estado Novo é o estado a que chegamos”. Ou: “O Barão está sob o regime do Estado Novo: não pode falar”. Várias vezes preso.

Há males que vêm para bem. Mas seria melhor que não viessem.

O dinheiro é a causa de todas as desgraças. Quando não se tem.

João Neves (da Fontoura) é um disco voador. Pequeno e ninguém acredita.

Um juiz lhe questionou: “O senhor foi visto conversando com Luiz Carlos Prestes”.

“Impossível. Com Prestes ninguém conversa. Ele fala sozinho”.

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