A maquiagem das contas não é o maior erro do governo

Flávio José Bortolotto

Mesmo sem ser especialista em Contabilidade das Contas Nacionais, o que entendo dessa “discrepância” entre os balanços do Tesouro e do Banco Central é o seguinte: o governo Dilma/Temer, num ano de eleições, com baixo crescimento econômico e até recessão (dois ou mais trimestres de encolhimento, Jan-Mar e Abr- Jun 2014), tenta injetar o que pode de Moeda/Crédito na Economia para tentar sustentar o poder de compra da população.

A meu ver, está certa essa estratégia. Só que isso se dá aumentando o endividamento federal que o BC acusa, mas para que isso não atrapalhe a propaganda do governo, o Tesouro, através de uma “pedalada fiscal” acusa que tem mais a receber do que na verdade tem, no momento.

Então, para o BC a divida pública aumentou, para o Tesouro, não. É claro que o governo Dilma/Temer, puxando a sardinha para sua brasa, divulga os dados do Tesouro. De qualquer forma, uma discrepância de R$ 3,1 Bi, num Orçamento Federal de +- R$ 2.200 bilhões, é ainda uma “gota de água”.

O erro econômico do governo Dilma Rousseff não está tanto aí, mas em ser exageradamente “estatista” e “desconfiada” da empresa privada, criando assim um clima de insegurança, que os jornalistas chamam de “antinegócios”.

SEM CREDIBILIDADE

A falta de credibilidade de nossa economia é fruto do duplo déficit com viés de alta. Déficit Fiscal de +- 4% do PIB (governo federal gasta mais do que arrecada)= R$ 200 bilhões/ano, o que gera crescente endividamento; e Déficit do Balanço de Pagamentos, que engloba a Balança Comercial dos Bem Visíveis ( Mercadorias), e dos Invisíveis (Fretes, Seguros, Turismo, Juros, Dividendos, Assistência Técnica etc.) e a Conta de Capital que relaciona a entrada e saída de Capital, Déficit esse de mais de US$ 80 bilhões/ano = RS$ 196 bilhões/ano, que descapitaliza a Economia Nacional.

Quem ganhar a eleição presidencial, de um jeito ou de outro, vai ter que enfrentar esses Déficits, via ajustes estruturais, aqueles que demoram 3 a 5 anos para dar retorno. É lógico que quem ganhar não poderá querer consertar tudo muito rápido, porque jogaria o País em profunda recessão, mas também não pode deixar como está. Terá que ir achando a solução por tentativas e erros, andando sob o fio da navalha.

O economista Armínio Fraga ou o substituto de Guido Mantega, um deles terá um belo trabalho pela frente.

13 thoughts on “A maquiagem das contas não é o maior erro do governo

  1. Caro Flávio.

    Os governadores Colombo (SC) e Beto Richa (PR), reeleitos, já declararam que vão baixar a despesa fixa de seus respectivos estados, sob pena de se tornarem inviáveis.
    Lendo nos jornais em que setor vão diminuir a despesa, é lamentável informar, que vão diminuir no atendimento ao público. É só o que sabem fazer, principalmente em início de mandato. Cortar despesa no item empreguismo, nem pensar.

    Sabemos muito bem quanto custa criar UM emprego na iniciativa privada. O custo de UM emprego no setor público não tem um custo muito menor não.
    Agora, multiplique este custo por milhares e milhares de “empregos”, criados à cada 2 anos (eleições), COM A COLOCAÇÃO DE CABOS ELEITORAIS, PARENTES, AMIGOS E AMANTES nas diversas folhas de pagamento do setor público. Se faltar departamentos (até Ministérios), criam-se mais quantos forem necessários.

    Alugam-se edifícios inteiros de propriedade dos financiadores (à preços aviltados) de campanha para colocar esses inúteis sob sombra e água fresca. E, pior ainda, é que para terem algo com que passar o tempo, nos infernizam com o aumento da burocracia. Cada vez mais e mais papéis para serem preenchidos e pagos.

    Nunca esquecendo que um dos principais itens que inviabilizou o comunismo foi o entrave burocrático.

    Um abraço.

    • Prezado Sr. MARTIM BERTO FUCHS, criador e estudioso de “Capitalismo Social”, Saudações.
      Os dois Estados citados e seguramente também o Rio Grande, com Dívidas Públicas Estaduais altas, exigem redução da Despesa Pública, para se ir reduzindo tal Dívidas, e a sobra ser Investida na Infra-Estrutura. Lamentavelmente como o senhor diz, tal redução se dará no atendimento ao Público, e não no Empreguismo Estatal. Isso se deve a que o nível geral de nosso Eleitorado ainda não percebe que tal comportamento é tremendamente nocivo ao Povo, e este passe a exigir um arrochamento de nossa Lei de Responsabilidade Fiscal. Abrs.

      • No meu ver, é a questão do sapo sendo cozido lentamente. Antes da Paz de Westfalia não havia um reconhecimento da soberania nos Estados, a terra pertencia aos condes e duques guerreiros, que deviam hierarquicamente a submissão a uma casa real (que poderia fazer uma fusão como as corporações de hoje através dos casamentos entre as famílias reais) e controlando tudo a Igreja, seja a Católica, seja a dissidência Protestante, Ortodoxos, seja também, com suas especificidades os sultões e líderes do Islamismo. Esse tratado Paz de Westfália selou o compromisso de respeito aos marcos territoriais e a uma inclinação da política contra o intervencionismo externo.
        No século XX no entanto, com o aperfeiçoamento de táticas e das ideologias coletivistas totalitárias, iniciadas já no século XIX, volta-se a visão de um poder acima dos poderes instituídos. A Liga das Nações e a ONU, enquanto professam a missão de manutenção da paz, também atuam no micromanagement interno, interferindo na política cotidiana de diversos países, muitos deles os do chamado mundo subdesenvolvido, dos quais o Brasil não se inclui, posto que é um líder regional e tem uma economia de porte, apesar de também ter a pobreza excessiva característica do subdesenvolvimento. Nossa percepção do fenômeno é inversamente proporcional a nossa liberdade, do nosso desenvolvimento interno. Nesse sentido é que afirmo o sapo vai cozinhando lentamente durante o século XX inteiro e então passamos a ver a questão da liberdade sendo ameaçada (econômica, política, de opinião…) por essas diversas linhas de atuação que têm um objetivo em específico que é controlar os rumos da civilização a despeito da existência de instituições, tal qual a situação da alta idade média.

        • meu comentário seria mais sobre a questão secundária do Schoslland, acabei clicando no “responder” errado. Quanto ao artigo concordo com o articulista mas o governo Dilma não terá interesse em responder aos anseios do mercado, enquanto um governo Aécio será certamente mais eficiente para combater esse quadro tenebros. Dizem que Aécio é instintivo (o que pode ser temerário) e resiliente, o que é necessário nessas épocas em que o mundo parece virado de cabeça pra baixo. Quanto a Dilma, é o que coloca o articulista, não faz a comunicação devida, não tem cabeça de político (como o próprio Lula tem) e todas essas mudanças não virão sem uma grande catástrofe antes.

        • Prezado Sr. FERNANDO, Saudações.
          Muito Obrigado pelos dois excelentes Comentários. Enriqueceram sobremaneira o Debate. Quanto a Presidenta DILMA, da qual temos a mesma percepção, acho que ela aprendeu muito nesses 4 anos, e tem condições de fazer melhor num segundo Mandato.
          Por exemplo, ela aprendeu a diferença da Teoria Econômica, da Prática Econômica. Ela com mão de ferro abaixou a SELIC até 7,25%aa, deixou a Taxa de juro Real Negativa, baixou Energia Elétrica Industrial em +- 35%, reduziu alguns Encargos das Empresas, etc, com isso forçando os Empresários a Investir, e teve a grande surpresa de ver que os Empresários preferiram “perder Dinheiro a Juro Negativo, do que Investir”. É que mais importante que toda a Teoria Econômica, é a LUCRATIVIDADE das Empresas. Abrs.

  2. Prezado Flávio J. Bortolotto

    Ouso discordar dos termos descritos na sentença abaixo:

    O erro econômico do governo Dilma Rousseff não está tanto aí, mas em ser exageradamente “estatista” e “desconfiada” da empresa privada, criando assim um clima de insegurança, que os jornalistas chamam de “antinegócios”.

    Por qual razão? Porque o governo atual concluiu as concessões de ferrovias, rodovias, portos e alguns aeroportos superavitários, portanto, essas decisões em nada se parecem com estatismo, pelo contrário, seguem o modelo neoliberal adotado pelo governo FHC, obviamente em menor escala.

    Quanto ao termo “desconfiada da empresa privada”, também não tem paralelo com a realidade fática, pois o fato é que nunca se emprestou tanto dinheiro para empresas privadas via BNDES, COM JUROS DE 5%, enquanto o governo captava no mercado a juros de 12%, a diferença é bancada pelo Tesouro. O erro crasso foi investir em campeões nacionais, cujo maior deles está em sérias dificuldades e a beira da falência. O correto seria investir nas pequenas e médias empresas, as maiores empregadoras do Brasil.

    De concreto, o horizonte aponta um céu escuro e sem luz no fim do túnel, seja um governo do PT ou do PSDB. Teremos que lutar contra crises nos setores elétrico e petrolífero e contra uma inflação que gera desemprego, além do provável déficit da balança comercial.

    • Prezado Sr. ROBERTO NASCIMENTO, Saudações.
      Não sou dono da Verdade, mas me permita dizer porque penso assim. Depois de um segundo Mandato sofrível do Governo FHC/,MARCO MACIEL, quando a média de crescimento Econômico foi de +- 2%aa, com Recessão e Alto Desemprego, o Governo LULA/JOSÉ ALENCAR teve um Octavonato de média 4,6%aa. Mais do que o dobro, e isso ao longo do tempo faz diferença. O Governo DILMA/TEMER terá uma média também de 2%aa e o que é mais incrível, no estratégico ano da eleição 2014, 2 semestres de Recessão e no ano +- 0,5%aa. Porque o Investimento caiu tanto?
      Porque a LUCRATIVIDADE das Empresas caiu muito e nossa Presidenta nunca fala disso. Nunca vai “tomar umas pingas” com o Pessoal da FIESP em São Paulo, ou lhes convida para irem a Brasília. Muito pouca Comunicação.
      Quanto as Concessões, de Infra-Estrutura, o Governo DILMA/TEMER é muito rígido, fixando a qualidade do Serviço e mais ainda a Taxa de Retorno do Investimento. Não que não deva fazer isso, mas é que ela fixa uma Taxa de Retorno muito baixa, achando que +- 5%aa está Ótimo. A impressão que ela passa é que TODOS os Empresários são Aves de Rapina e com eles todo o cuidado é pouco. Não que não se deva ter cuidado, mas no caso dela é um exagero. Ela é muito ESTATISTA porque TABELA PREÇOS ( Combustíveis, Energia Elétrica, Tarifas Públicas, SELIC, etc,), de forma exagerada, em desfavor das Forças de Mercado.
      Mas ela teve a sabedoria de manter o DESEMPREGO baixo , +- 5% ( de qualquer forma menor que antes), e a Inflação dentro do teto da Meta de 6,5%aa, e isso talvez até a leve a Vitória. Abrs.

      • Prezado Flávio J. Bortolotto. Saudações para você também.

        Continuo a afirmar o equívoco da tese do estatismo do atual governo. Aliás, vou mais além, acreditando que os dois governos PSDB/PT se parecem, principalmente no tocante as privatizações, que o PT envergonhadamente chama de concessões.

        No que concerne ao tabelamento de preços, Sarney também utilizou muito mais no Plano Cruzado e jamais poderíamos afirmar que o maranhense seja estatista. Ora, qualquer governo precisa conter o espírito animal dos empresários ávidos por lucros estratosféricos. Deixar tudo por conta das leis do mercado significa que o Estado não serve para nada, configurando-se como um ente apenas decorativo. No dia em que as forças conservadoras conseguirem o tão falado Estado Mínimo estaremos diante da volta da lei da selva entre os humanos. Os pobres seriam exterminados do mapa ou transformados em escravos dos mais fortes.

        Alea jacta est

  3. Os comentários até agora, pertinentes e muito parecidos, na tese, com o texto do articulista.
    Em síntese, todos nos levam a uma mesma conclusão: o que vier, será VINAGRE !

    • Prezado Sr. ANDRADE, Saudações.
      Sim, a partir de 2015 quem ganhar vai ter um bom desafio pela frente, mas já enfrentamos coisas bem piores.
      Vão ter que reduzir relativamente a Despesa Pública de Pessoal e aumentar o Investimento em Infra-Estrutura, aumentar a LUCRATIVIDADE das Empresas, mexer um pouco na Política Cambial desvalorizando o Real frente ao US$ Dollar em +- 10%, tudo levando a deixar os Mercados BEM REGULADOS funcionarem livremente, reduzindo gradualmente nosso Duplo Deficit, (Fiscal e Balanço de Pagamentos Internacional). É possível, o Brasil é um País jovem com +- 220 Milhões de Habitantes e quase 9 Milhões de Km2, um grande Mercado com grande Poder de Recuperação. Abrs.

  4. Concordo com o Sr. Bortolotto. Digo mais, os desafios para a próxima equipe econômica de governo se equivalem aos desafios enfrentados por FHC. O Brasil retrocedeu seu quadro de problemas econômicos ao mesmo patamar de 1994.

    Corretíssimas, também, as ponderações do Sr. Nascimento.

    Grande abraço!

  5. Prezado Sr. WAGNER PIRES, Saudações.
    Sou um pouco mais otimista que o senhor com relação a RECUPERAÇÃO ECONÔMICA. A situação vem se deteriorando mas não é Catastrófica. Mas já está na hora de seguir o sábio conselho do grande “NENÉM PRANCHA”: Arrecuar os Arfe junto com os Backs, para evitar Catastre. Abrs.

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