A margem de um rio

Sebastião Nery

PETROPOLIS – “Pouco antes da abertura do Congresso Internacional de Escritores em Defesa da Cultura, em junho de 1935, em Paris, André Breton encontrou Ilya Ehrenbourg atravessando o boulevard Montparnasse à procura de fumo de cachimbo. Breton entrou na tabacaria e começou a esbofetear Ehrenbourg que, sem esboçar defesa, perguntou o que estava acontecendo. Claro, Ehrenbourg sabia muito bem”.

2. – “Breton era o líder dos politizados surrealistas, que haviam abraçado o comunismo e a Revolução de Outubro até serem desencorajados pelo crescente policiamento estatal do sistema soviético, que parecia excluir toda experimentação literária e artística”.

3. – “Ehrenbourg havia atacado Breton e seus amigos em um livro do ano anterior, cujo titulo era : “Duhamel, Gide, Malraux, Mauriac, Morand, Romains, Unamuno, Vistos por um Escritor da URSS”. Ehrenbourg dizia que os surrealistas, em vez de trabalhar, estavam envolvidos apenas em pederastia e sonhos, vivendo de heranças de suas mulheres, pois preferiam o onanismo, a pederastia, o fetichismo, o exibicionismo e até a sodomia”.

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EHRENBOURG

4. -“Bon Vivant e figura conhecida no bar La Coupole, Ehrenbourg havia escrito romances satíricos, como “As Aventuras de Julio Jurenito e Seus Discipulos”, que nos dias mais sombrios do stalinismo não existia nas livrarias soviéticas, e escrevia artigos de linha-dura para o jornal “Izvestia”, do qual era correspondente em Paris. Ele contava com Malraux, Gide”.

5. – “Hábil articulador, escritor de renome, foi dos poucos escritores judeus a sobreviver aos anos de expurgos. Enquanto seus pares estavam em campos de detenção, ele recebia Prêmios Stalin e sobreviveu para narrar aquela época inacreditável.”

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“RIVE GAUCHE”

Um livro que começa assim tem tudo para ser bom. E é ótimo: “A Rive Gauche – Escritores, Artistas e Politicos em Paris, 1934-1953” (José Olympio Editora, tradução de Isaac Piltcher, 530 paginas), do jornalista americano Herbert Lottman, correspondente em Paris do “The New York Times”, da “Hasper’s” e autor das biografias de Camus, Flaubert, Pétain.

Dois qualificados, cultos e compulsivos leitores, o paulista Roque Citadini e o mineiro-carioca Wilson Figueiredo é que me chamaram a atenção para ele. Mas, às voltas com o lançamento, pelo pais a fora, de meu livro “A Nuvem – O Que Ficou do Que Passou – 50 Anos de Historia do Brasil”. só depois  pude ler.

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SAINT GERMAIN

É um retrato real, duro, mas fascinante, da Paris intelectual, sobretudo de esquerda, dos ultimos 5 anos antes do começo da guerra até os 10 anos depois da guerra. Aqueles sagrados quarteirões da “Rive Gauche”, ao longo do boulevard Saint Germain des Près, entre o Sena e o boulevard Montparnasse, a Assembléia Nacional e a Sorbonne, foram, dos anos 20 aos 80, “a capital intelectual do mundo (ainda são), onde se exercia o pensamento, a liberdade das idéias” e onde reinaram André Bretton, André Malraux, André Gide, Sartre e Simone de Beauvoir, Albert Camus (vindo da Argélia), Raymond Aron, Koestler, Mauriac, tantos outros.

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HITLER E STALIN

Ali ficavam jornais, revistas, editoras, universidade, que publicavam, discutiam,contestavam tudo. Cafés e restaurantes eram escritórios públicos: Deux Magots, Flore, La Couppole, Le Procope, etc.Os comunistas eram poderosos e briguentos. Em 23 de agosto de 1939, Stalin assinou com Hitler o “pacto de não agressão”. Em setembro, Hitler invadiu a Polonia. Stalin não disse nada. A esquerda toda, comunistas, socialistas, católicos, implodiu.

“Ehrenbourg adoeceu, passou oito meses sem alimentar-se direito, pensou em suicidio. Perdeu 23 quilos. Mas não disse palavra. Foram 21 meses, entre o pacto de 1939 e o ataque-surpresa de Hitler à URSS,em 41.
No dia 14 de setembro de 1940, as tropas alemãs entraram em Paris. O marechal Petain rendeu-se e criou o “Governo de Vichy”. Mas um jovem e bravo general rebelou-se, foi para Londres, convocou a Resistencia e foi condenado à morte. Só parou de lutar quando entrou de volta em Paris, em agosto de 1944. Era De Gaulle. Sem ele, a França teria morrido de vergonha.

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A RESISTENCIA

Metade dos intelectuais ficou em Paris, outra metade foi para o Sul, Estados Unidos, África, a maioria resistindo como podia. Muitos suicidaram-se: uns com medo de serem fuzilados pelos alemães outros por traição e colaboracionismo quando os alemães saíssem. E alguns foram.

Malraux foi brigar com De Gaulle na África, até o fim. Gide foi para a Tunísia, até o fim da guerra. Camus ficou em Paris clandestino, fazendo “Le Combat”, ilegal. Koestler foi preso, fugiu para Londres via Argélia, Marrocos e Portugal. Antes de embarcar em Marselha para a África, encontrou o critico Walter Benjamin, judeu-alemão, que tentou a fuga para a Espanha, pelos Perineus, mas suicidou-se na fronteira espanhola.

Sartre e Simone ficaram em Paris, conspirando, escrevendo. Paul Eluard esqueceu uma pasta no restaurante com o poema “Liberté”. Voltou, achou, nosso valente Cicero Dias levou para Londres. De Gaulle leu na radio.
Uns viveram sua covardia, sua tragédia. Outros, a maioria, sua epopéia.

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