A memória dolorida do poeta Ribeiro Couto

O magistrado, diplomata, jornalista, romancista, contista e poeta paulista Rui Ribeiro de Almeida Couto (1898-1963) relembra como era o seu cotidiano na “Infância” e a morte do irmão.

INFÂNCIA
Ribeiro Couto

Dias de sol suave, de coloridos mansos,
Quando o verde dos matos é mais fresco e cheiroso
E pássaros piam nos esconderijos das árvores!

Vem à minha memória o tempo de menino,
A casa em que eu morava e o mato que havia em frente.
Meu irmão ia comigo buscar o coquinho selvagem
Que em cachos fartos pendia das palmeiras espinhosas.
Havia brejos, pontiagudos de caniços,
Espelhando o sol vertical nas águas lodosas.
Armávamos arapucas para as saracuras.

O saci-pererê morava nesse mato.

À noite
Vinham conversas monótonas de sapos
E pios impressionantes de inexplicáveis animais.

Dormíamos sonhando com aparições.

Mas na manhã seguinte, ao sol quente,
Íamos de novo apanhar saracuras,
Sem pensar mais nos terrores noturnos da véspera,
Esquecidos do saci-pererê.

Ó tempo de menino! Ó meu irmão que morreu menino!

             (Colaboração enviada por Paulo Peres – Site Poemas & Canções)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *