A moda burra da trilha sonora “baticum” nas academias de ginástica

Ilustração reproduzida da Prozis, Arquivo Google

Marcelo Câmara

Quase sempre, as opiniões expostas nas matérias sobre atividade física, academias de ginástica, acerca da música invariavelmente presente e a todo volume, nesses espaços, são uma reunião de frivolidades, ditas por gente que nada sabe, se nega a estudar o assunto ou se encontra, patológica e comercialmente, engajada numa moda generalizada. Moda essa, burra, tola e nociva. O barulho de um motor de moer cana para se obter o caldo ou de um bate-estaca urbano, ensurdecedor, denominado “música”, nas academias, é uma prática insana, maciça, predominante em todo País. Uma droga perturbadora, adotada sem prescrição médica, sem nenhum fundamento técnico ou base científica.

Cada indivíduo tem o seu próprio ritmo orgânico e mental. Cada exercício tem, também, o seu próprio ritmo. E determinado exercício praticado por determinada pessoa tem um terceiro ritmo. Não existe uma música ritmada que marque todos os exercícios aeróbicos e de musculação de todas as pessoas, dentro ou fora piscina. Não existe uma música comum, que sirva a todos.

Ginástica exige atenção, disposição, concentração e realização responsável, sintonia, ritmo, harmonia entre mente e corpo, orientação, obediência às regras da sua execução. Esse som que transforma academia em boate de meretrício e botequim de última categoria, com cerveja quente e música alta, apenas aliena o indivíduo de si mesmo, afasta o praticante da ginástica do seu exercício, dispersa os sentidos, o desconcentra, “distrai” como admitem os aficionados do barulho, quando a sua mente, o seu corpo, postura, respiração, todos os sentidos deveriam estar dirigidos e empenhados no próprio exercício. O barulho na academia, que os seus adeptos chamam de “música”, e geralmente da pior qualidade, só faz entorpecer e imbecilizar ainda mais os alunos de academia.

INADEQUAÇÃO – Música é uma arte para ser ouvida, tocada ou dançada em lugar e momento apropriado. E música-ambiente ritmada não se adéqua a um lugar multidisciplinar, onde diversas pessoas devem estar concentradas, executando as lições de diversos exercícios de vários tipos, com diversas durações e de diversos ritmos, com distintas finalidades. Alguns alongam músculos e tendões, outros se dedicam a práticas aeróbicas (esteira, bicicleta etc.), e terceiros fazem musculação. A rigor, a princípio, em tese, nenhuma música – de excelência, mediana ou ruim, popular, folclórica ou erudita – deveria estar em espaço multidisciplinar, plural, de academia alguma.

A música era, outrora, seletiva e específica, marcando os pontos dos exercícios da milenar calistenia, da ginástica de solo clássica, com ou sem halteres, barras e bastões, e hoje, também seletivamente, pode fazer parte dessa ginástica marcada. E, ainda, da ginástica artística e de certos exercícios da ginástica olímpica. Os compêndios e manuais clássicos da matéria, os livros de Educação Física e de Ginástica de autores de prestígio internacional, editados nos EUA, na Europa e Oriente, recomendam a prática da ginástica sem música. Entre nós, o consagrado Nuno Cobra orienta no mesmo sentido.

A música ouvida por um atleta individualmente no seu treinamento, e na ginástica, também individualizada, por uma pessoa, é válida, estimulante, até útil, necessária. Da mesma forma, um grupo praticando exercício único, coletivo, ritmado, com um guia, professor ou orientador, dentro ou fora da piscina, tem na música um auxiliar didático-pedagógico válido, importante.

E SE JUSTIFICAM… – “Eliminar o baticum irracional e torpe das academias parece impossível, a reação contrária é quase absoluta” – justificam-se os professores. Quando, milagrosamente, a aparelhagem de som pifa e os sons e ruídos são apenas do ambiente, das pessoas, professores e alunos, já ouvi algumas pessoas, uma minoria, é claro, exclamarem: “Que bom sem música, parece que tudo sai melhor, com mais acerto e rendimento…” Mas estamos numa democracia, o regime das maiorias que crucificaram Cristo, glorificaram Hitler e elegeram, duas vezes, Bush. E, infelizmente, enquanto não houver direção técnica competente, enquanto não prevalece a razão, reinam os clientes, os alunos, “o melhor critério”: o das maiorias, mesmo que insanas.

O escapismo irracional do falso bordão “gosto não se discute”, e se discute sim, em todos os campos do pensamento, de atividades, da arte e do comportamento humano; e a resposta vazia e irresponsável dos donos de academia e seus professores “Não se pode agradar a todos, cada um tem um gosto…” – apenas confirma a asneira, segundo a qual o aluno de academia é quem determina o que deve ser feito e como deve ser feito. Seria como um paciente dizer ao médico que quer tomar tal remédio, fazer tal terapia, durante o período “x” e na forma “y”.

ALIENAÇÃO – O barulho nas academias é um instrumento a transtornar e a transformar alunos de educação física em consumidores tontos, alienados e dóceis, que cumprem séries de exercícios sob intenso e desconcertante barulho, suam, falam alto para serem ouvidos, suam mais um pouco e vão para casa exaustos, meio surdos, certos de que fizeram bem ao corpo, à mente, melhoraram a saúde.

Realmente, apenas e literalmente, “malharam”, agrediram bastante o corpo, a mente, o espírito, se esgotaram, como estivessem num trânsito engarrafado, sob um buzinaço. Mas não praticaram ginástica de forma inteligente, segura, responsável e saudável.

5 thoughts on “A moda burra da trilha sonora “baticum” nas academias de ginástica

  1. É possível resolver isso com protetores auriculares, daqueles utilizados por operadores de máquinas, mas protetor nenhum resolve contra idiotice de colocarem uma TV a todo volume em frente às esteiras.

  2. “Mas estamos numa democracia, o regime das maiorias que crucificaram Cristo, glorificaram Hitler e elegeram, duas vezes, Bush.”
    Na verdade, em janeiro de 1933, o partido nazista havia obtido apenas um terço do voto popular, e Hitler só se tornou chanceler porque teve o apoio do partido nacionalista de Alfred Hugenberg, e o consentimento dos conservadores alemães como Franz von Papen, que pensavam que podiam manipulá-lo.
    Quanto a George W. Bush, ele é de de fato uma figura desprezível, e fez o governo mais desastroso da história americana, mas sua eleição nada tem de enigmática, em que pese a confusão eleitoral na Flórida em 2000. O otimismo ingênuo (na verdade, francamente estúpido) de Bush 2 era visivelmente mais palatável ao americano típico que tipos como Al Gore ou John Kerry, distantes e frios demais para obter empatia. Nenhum dos dois tinha o carisma de Obama, e foram prejudicados pelos Clinton, que só se pensavam na campanha de Hillary em 2008.

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