A monarquia do futebol, sob ditadura da Fifa

João Gualberto Jr.

Não, não era um excerto de “O Príncipe”. Nem era trecho de um discurso de Mussolini, de Gengis Khan ou de um líder de alguma monocracia estacionada no tempo num rincão do mundo subdesenvolvido. Era Joseph Blatter, dirigente de uma entidade com fins lucrativos – uma companhia capitalista, portanto, – que se orgulha de contribuir para a transformação do planeta catequizando-o por meio do produto que comercializa: o futebol.
O presidente da Fifa teme que o Brasil tenha sido uma destino malfadado para aportar seu circo no ano que vem. O motivo do receio são os protestos, que mancharam a Copa das Confederações – evento-teste – e jogaram-na no segundo plano do noticiário. Blatter avisou que, se os atos se repetirem em 2014, a cartolada da federação vai se questionar se não fez “a escolha errada”.

Ele não confirmou, como publicado, que teve país europeu sondado para ser estepe caso a coisa se mostre inviável até lá. Se a Fifa quiser mandar a Copa do Mundo na Alemanha, por exemplo, na semana que vem, seria possível. Por lá, está tudo pronto, como estádios suntuosos, metrô onipresente e povo bem-estabelecido: quem gosta de futebol compra ingresso, quem não gosta não dá a mínima, e a vida segue normalmente.

Por aqui, ao contrário, temos uma obra em andamento. O estádio de abertura, o tal Itaquerão, é pouco mais do que um belo projeto, mas isso é só um detalhe. Além disso, o povo, ah, esse contingente sem nome e sem rosto, incomodou-se com o que parece uma inversão de prioridades em termos de investimentos públicos. Foi para a rua e acabou transferindo seu incômodo para os donos da festa.

VERNIZ AUTORITÁRIO

Não é a possibilidade de reavaliação que deu à entrevista do missionário da bola um verniz autoritário. Foram, sim, as falas dele a respeito das garantias e do interesse em descolar da empresa que preside as consequências de suas deliberações. Blatter teria avisado a Dilma, a chefe do Estado e do governo do país que sediará a próxima Copa, que a competição não pode sofrer ameaças. Além disso, avaliou que a entidade “não pode ser responsabilizada pelas discrepâncias sociais” do Brasil e que as manifestações não tiveram o império do futebol como alvo, mas os governantes brasileiros.

Essa alma de teflon, esse empoleiramento no pedestal político e esse tratamento vertical reforçam a pretensão da Fifa em posar como uma espécie de principado suprageográfico. Não foi ela quem subverteu a legislação brasileira para beneficiar patrocinadores? Não era ela quem queria instaurar tribunais de exceção transitórios? Não é ela que exige o fechamento do tráfego e até de universidades em dias de jogos?

E não é tudo isso uma subversão de critérios de importância e soberania? Não, o Brasil não quer uma democracia no padrão Fifa. Que venham o Catar, os Emirados Árabes e a Coreia do Norte. Blatter dialoga melhor com monarcas e ditadores. (transcrito de O Tempo)

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3 thoughts on “A monarquia do futebol, sob ditadura da Fifa

  1. Caro Jornalista,

    Fica a impressão que a FIFA se tornou a OTAN do futebol, onde toda a soberania é relativa…

    No caso da OTAN, o que determina a soberania de um povo é o seu arsenal atômico ou armas de destruição em massa.
    No caso da FIFA, o que determina a soberania de um povo é a possibilidade de lucro imediato!

    PRINCÍPIOS MORAIS?
    PRINCÍPIOS ÉTICOS?

    Tanto para a uma quanto para a outra não passam de PIEGUICES…

    Abraços.

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