A morte de Chávez, anunciada ontem, planejada, projetada e preparada há 3 meses. A Venezuela resistirá ou sobreviverá. Acontecerá a mesma coisa com o chavismo?

Helio Fernandes

Apesar de tudo o que se sabia ou imaginava, o anúncio da morte de Chávez foi um choque, digamos, terrível. O início da noite de ontem não pegou ninguém despreparado, mas movimentou o mundo. Principalmente da comunicação. Gostando ou não gostando de Chávez, há 13 anos ele era a Venezuela, a Venezuela era ele.

Será lembrado? Até quando?

Nem adianta imaginar o que acontecerá com o país e seu povo. Pelo menos a partir de agora, e até não se sabe quando, a Venezuela viverá sob o impacto do seu desaparecimento. E do mistério armado pela cúpula chavista, e que não poderá ser desvendado de uma hora para outra.

Bem que o vice, que será o herdeiro nos primeiros momentos, dias ou meses, tentou mistificar de todas as maneiras. As fotos com as filhas, a transferência de Cuba para a Venezuela, eram mais do que indícios, representavam uma realidade sobre a qual ninguém ousava especular.

A morte de Chávez não poderia ser anunciada com ele, vivo ou morto, fora de seu país. A chegada misteriosa de Chávez à Venezuela, numa madrugada escura e impenetrável, não era bom sinal. O fato de ter ficado vários dias num hospital, “sem ter sido visto sequer por uma enfermeira” (afirmação do vice Maduro), era mais do que um fato, que como ele disse, não podia ser esmiuçado.

A declaração daquele diplomata, nem de Cuba nem da Venezuela, de que ele estava sem vida (ele não falou que estava morto), era mais do que aceitável, embora discutível do ponto de vista humano.

O povo da Venezuela, por ele mesmo e induzido pela cúpula (rachada) do chavismo, era de emoção contida mas não desiludida. Esperavam que ele voltasse ao Poder, recuperasse, voltasse a governar. Nos últimos 13 anos só conheceram Chávez, não saíram da pobreza e da existência miserável de sempre, mas tinham a impressão de que estava acontecendo. E creditavam essa ilusão à movimentação de Chávez.

CHÁVEZ E O PETRÓLEO,
A MESMA VIDA DE SEMPRE

O ditador que agora foi embora, colocou a Venezuela nas manchetes do mundo, mas quase sempre de maneira negativa. O segundo produtor de petróleo do mundo, abaixo apenas da Arábia Saudita, não conseguiu fazer progredir seu povo e seu país. Tentou mesmo, junto com a ambição pelo Poder? No momento não é a hora dessa pergunta, que na verdade não tem resposta.

Em matéria de comoção, a morte de Chávez, interna e externamente, é maior do que qualquer coisa. E não existe espaço para análise, interpretação, exame do que pode ou do que vai acontecer. Além de todas as consequências ou inconsequências, os ditadores como Chávez ainda deixam a ausência lancinante, que no primeiro momento é confundida com saudade.

É evidente que a Venezuela, que não dormiu de ontem para hoje, não é a mesma, digamos, da noite de ontem, antes do anúncio da morte de Chávez. E assim mesmo, o tempo pós-Chávez não começa imediatamente, sua morte tem que se assimilada.

É preciso saber o que acontecerá, oposição e situação estão igualmente perplexas, desesperadas e despreparadas. A oposição, que já não se opunha, não sabe o que fazer. A situação, que era apenas coadjuvante de quinta categoria, não aprendeu nada com Chávez. Não tinham competência e Chávez não confiava neles.

Deixei bem claro, várias vezes, aqui mesmo, que o grande equívoco médico de Chávez foi ter ido se operar em Cuba. Revelei também o telefonema de Chávez para Lula, logo no início da doença. Combinou com o ex-presidente que no dia seguinte viria para o Brasil, se internaria no Hospital Sírio Libanês, um dos melhores do mundo.

No dia seguinte, telefonou para Lula, desfez toda a combinação. Foi se internar em Cuba, que não tem médicos nem hospitais em condições. Os melhores, mais de 15 mil, estão na própria Venezuela. E os hospitais de Cuba estão caindo aos pedaços. Foi lá que Chávez se operou quatro vezes. Inacreditável.

Não quero afirmar, ou mesmo insinuar, que internado e operado no Brasil, Chávez não teria morrido. Mas todos sabem que médicos (cirurgiões principalmente) e advogados, quem puder tem que escolher os melhores. E Chávez podia.

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PS – Com a exceção de Chávez, tudo é incógnita e mistério no caminho da Venezuela. Não o mistério forjado até agora, mas sim o mistério impenetrável, irrevogável e sem volta, da morte de Chávez.

PS2 – Não quero avançar mais, fica a pergunta que está no título: a Venezuela viverá sem chavismo? O chavismo poderá durar algum tempo, não mais do que isso. Nenhum ditador, fosse qual fosse, juntou seu nome à eternidade.

PS3 – De esquerda, de centro ou de direita, desapareceram. Sem deixar saudades ou serem lembrados.

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