A noite de Vargas

Sebastião Nery

SALVADOR – A madrugada de 23 a 24 de agosto de 1954 foi uma das mais longas da historia do pais. As rádios (Nacional, Tupy,  Globo) ficaram de plantão permanente. A Nacional era do governo. A Tupy de Chateaubriand e a Globo de Roberto Marinho tinham sido entregues a Lacerda, que não saia do microfone. Meia noite Vargas reuniu o ministério.

De madrugada, Getulio recebeu o manifesto dos generais, levado por seu ministro da Guerra, Zenobio da Costa. Desistiu de resistir, concordou em assinar uma licença, deu a caneta a Tancredo Neves, foi deitar-se já ao amanhecer. Lacerda e  Eduardo Gomes gritavam nas rádios:

-“Licença coisa nenhuma. Ele não voltará”.

Não voltou mesmo. Ficou para sempre.

***
GETULIO

Depois de passar a madrugada jantando com colegas, ouvindo as rádios e um pianista cego, no “Columbia”, bar-restaurante de jornalistas depois de prontos os jornais, na avenida Paraná, em Belo Horizonte, fui para o hotel dormir. Às 9 da manhã, batem na porta. Era Roberto Costa, dono da livraria “Oliveira e Costa”, dirigente do Partido Comunista :

– Acorda, companheiro! O velho Getulio acaba de se matar, às 8,30. Vamos buscar os trabalhadores na Cidade Industrial para protestar.

– Mas não éramos contra ele, o Partido Comunista não era contra?

– Agora não é mais. Ele deixou uma Carta Testamento que está sendo lida nas rádios e é um documento revolucionário, violento manifesto aos trabalhadores denunciando o imperialismo americano. Vamos buscar o povo para um comício na praça Afonso Pena, diante da Faculdade de Direito. Já mandamos companheiros para lá, para improvisar um palanque.

***
BELO HORIZONTE         

Entrei no carro dele, fomos para a Cidade Industrial. A radio Nacional dava a Carta seguidamente. Era de arrepiar. O velho era um genio. Com duas laudas de papel matou os adversários todos juntos. Deixou algumas frases arrasadoras que ficaram na Historia

Subíamos nos portões das fabricas (Mannesman, Magnesita, etc) e conclamávamos os trabalhadores a se solidarizarem com Vargas. Alguns nem acreditavam. Quando ouviram o radio de um botequim em frente dando as noticias, jogavam as ferramentas no chão e gritavam furiosos :

– UDN assassina! Udenistas filhos da puta!

Pronto. Já tinhamos o cadáver, agora tínhamos também o inimigo, a UDN. E começou a grande marcha, mais de 10 quilometros, para a praça de Sé, no centro de Belo Horizonte. E de lá para a praça Afonso Pena, onde seria o comício.  A cada instante o cortejo ia aumentando, engrossando. Nem Roberto nem eu conseguiriamos fazer tudo a pé. Voltamos de carro.   

***
JUSCELINO

Ao lado da praça da Sé, o povo já invadira a sede da UDN, quebrara tudo e pusera fogo. Corri para o palácio da Liberdade, já cheio de jornalistas, radialistas, políticos. No gabinete, Juscelino estava literalmente arrasado. Ali senti quanto gostava de Getulio. Nas mãos, uma copia da Carta Testamento, recebida pelo radio. Pedi uma copia para mim.

Desci do palácio com a Carta, às pressas. A cidade já toda na rua. Tinham armado um palanque com um caminhão bem ao lado da escadaria do edifício da Faculdade e arranjado um serviço de som. O deputado do PTB, Ernani Maia, falava. A praça já cheia e, dependendo dos oradores, o povo passando de instantes de profundo silencio aos gritos mais irados.

Roberto Costa e Dimas Perrin, dirigentes do PCB, rondavam e davam ordens. Mostrei-lhes a Carta que o governador me dera :

– Vou esperar o discurso do Helio (do Diretório) e depois ler a Carta.

– Ótimo. Mas, na hora em que terminar, aponte para o Consulado Americano e diga: – Quem matou Getulio foi o imperialismo! É a senha.

***
A CARTA

O Consulado era ao lado da Faculdade. Quando o Pontes terminou,  vi muita gente chorando. Peguei o microfone, pedi silencio, disse apenas:

– Mataram o presidente Vargas, mas ele continua vivo, falando ao povo!

E li, pausadamente, a Carta Testamento. A multidão chorava e eu também. Quando terminei, olhei para o Consulado Americano e gritei :

– Quem matou Getulio está ali! Foram os americanos!

Antes de eu descer, o fogo já subia. A multidão avançou sobre o Consulado, pôs fogo nas revistas e jornais, nos livros e fotos. Queimava tudo. Na escada da Faculdade, o Montanha, investigador enorme, negro, me agarrou pelo pescoço com a mão esquerda, a palma da mão bem vermelha, me sacudiu no ar e atirou no chão, como um embrulho inútil.  Na outra mão, girava um revolver grande, preto. Pensei que ia atirar.

Bendito Montanha. Não atirou. Bateu com o revolver no meu nariz, o sangue esguichou, desmaiei e saiu me arrastando para um carro da policia, que me levou para a enfermaria da Delegacia de Ordem Política (DOPS).

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