A ocupação de Wall Street e a luta simbólica

Bruno Lima Rocha

Se algo é essencial em qualquer estrutura de domínio, além de forjar o consentimento da maioria silenciosa, é afirmar símbolos comuns. Os ícones representam mais que a si mesmos, sendo síntese de uma proposta civilizatória.

Para o capitalismo praticado em escala global e propagado através dos Estados Unidos, o epicentro do poder está no número 11 de Wall Street, sede da Bolsa de Valores.

A ocupação simbólica desse espaço geográfico pode não ter consequências políticas diretas, mas representa um soco no fígado do capital financeiro.

É curioso observar como a ação começa. Tem momentos em que a vida imita a arte, ou ao menos, as versões mais agitadas desta. Numa passagem do filme “Capitalismo: uma história de amor “(2009) de Michael Moore, o diretor enrola a entrada da sede Bolsa de Valores de Nova York com fita de isolamento para cenas de crime, e antes tenta executar uma prisão – como cidadão – da diretoria da empresa de seguros AIG.

Moore é reprimido e chega até a apanhar da segurança privada. De tão relevante, a ideia permaneceu.

Na edição de 13 de julho, o grupo de ativistas culturais Adbusters.org publicou no número 97 de sua revista impressa uma convocatória para que, no dia 17 de setembro, milhares de cidadãos estadunidenses ocupassem a Wall Street, reproduzindo em Nova York um momento como o da Praça Tahrir do Egito.

Para espanto dos proponentes e desespero dos entusiastas da especulação financeira, 5 mil pessoas marchavam neste dia, atendendo a convocatória despretensiosa. De lá para cá, o movimento segue ativo, espalhando-se por outras cidades da superpotência e defrontando-se com a espiral do silêncio da mídia corporativa deles e, como era de se esperar, uma escalada repressiva.

A revolta das pessoas com um nível de informação razoável é saber que as máximas: “grande demais para falir” (too big to fail) e “grande demais para ir preso” (too big to jail), são simplesmente reais.

Isto foi demonstrado em reportagens de fôlego por centros de jornalismo cidadão como Propublica.org e IwatchNews.org.

Neste bojo, documentários como “Trabalho Interno” (Charles Ferguson, 2010) e o predecessor sobre a falência fraudulenta da empresa de energia Enron (Alex Gibney, 2005) sedimentaram um terreno mais que fértil para a revolta cidadã.

Diante dos efeitos nefastos que a “fraude com nome de crise financeira” vem causando, não se pode desconsiderar a acumulação de forças que um ato como a ocupação de Wall Street traz consigo.

Bruno Lima Rocha é cientista político (www.estrategiaeanalise.com.br)

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