A onda de greves e a falta de uma política salarial definida

Pedro do Coutto

A onda de greves que explodiu esta semana no país, foco de reportagem de Eliane Oliveira, Geralda Doca e Ramona Ordones, O Globo de quarta-feira, assinala, além de outros fatores, principalmente a falta de uma política trabalhista e social definida. De uma política que funcione na prática, pois no papel ela existe. Está na Constituição, inclusive. Data-base anual e reajustes  que assegurem os valores dos salários, portanto do esforço humano, peça-chave para o desenvolvimento econômico.

A regra deveria valer tanto para os que se encontram em plena atividade quanto para os aposentados. Mas infelizmente, na realidade, o belo princípio retórico não acontece. A foto que acompanha a reportagem é de André Coelho.

Durante anos,especialmente ao longo dos mandatos do presidente Fernando Henrique Cardoso, os salários perderam para a inflação do IBGE. Perderam portanto para os preços. Perderam disparado para os juros do crédito. Com Lula e Dilma, empataram pelo menos com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Mas continuaram sem ver a cor da bola com os juros, sejam os dos bancos, sejam os do comércio. Basta comparar um aspecto: o mercado cobra, por mês, a taxa inflacionária de um ano. Doze vezes mais. Descalabro absoluto. Como pode ocorrer uma redistribuição justa de renda num panorama assim? Impossível.

A realidade se opõe ao estudo da Fundação Getúlio Vargas de autoria do economista Marcelo Neri, que projetou umas considerável expansão da classe média e uma conseqüente redução da pobreza. Se assim fosse, a favelização teria sido contida. E não foi. Pelo contrário. Se assim fosse, a inadimplência teria diminuido e não crescido, como os números das entidades empresariais comprovam. As perdas salariais se acumularam com o tempo. A pressão aumentou, a propaganda de bens e crédito também, e o resultado está aí: insatisfação e angústia.

Some-se a tudo isso um fator político acrescentado pela CUT, como aquele a que me referi em artigo recente. A ideia é provavelmente a de conduzir o maremoto à Praça dos Três Poderes, onde se localiza o Supremo Tribunal Federal. A presidente Dilma Rousseff necessita agir antecipando-se aos fatos. O julgamento do Mensalão começa no próximo dia 2 de agosto.

Mas retirando a prisma da pressão política e analisando-se a questão sob o ângulo econômico-social, verifica-se a falta de reciprocidade de tratamento entre o capital e o trabalho. Diante do sinal de queda da produção econômica, o governo, através do Ministério da Fazenda, reduz impostos. Diminui tributos para elevar o consumo. Então porque não elevar os salários, já que é por intermédio destes que o consumo se realiza? Impulsionar o consumo, como a publicidade faz, sem aumentar efetivamente a remuneração dos trabalhadores e servidores públicos, é incentivar a inadimplência.

Para harmonizar a eterna dualidade entre capital e trabalho, seja ele o capital privado ou estatal, é indispensável que não sejam os salários derrotados pelos índices de inflação. Pois quando o fenômeno ocorre, as perdas tornam-se irrecuperáveis. Basta ver o seguinte: se alguém perde, digamos 5% num ano, nos anos seguintes os aumentos concedidos deixam de incidir sobre 5 pontos. Multipliquem-se as incidências não realizadas através do tempo, e, em torno de 20 anos, constatamos que o salário recebido deveria ser o dobro. Quem paga a diferença? Ninguém. O prejuízo cristaliza-se na mão de obra ativa do país. São 100 milhões de homens e mulheres, a metade da população brasileira.

A insatisfação que hoje se projeta vem de perdas que ficaram na estrada da vida, para citar Fellini. E a pressão cresce à medida em que as classes prejudicadas tomam consciência mais clara do fenômeno injusto. O consumo depende do salário. Não do endividamento e da inadimplência.

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