A outra Noruega

Sebastião Nery

RIO – Passei de barco em frente a uma fortaleza, bem perto de Oslo,  capital da Noruega, e vi enormes canhões com suas bocas abertas para o mar. Já velhos, cansados, amarelados, foram gloriosas manchetes na Segunda Guerra Mundial, quando afundaram o mais poderoso cruzador até então visto, que Hitler jamais imaginou tivesse a Noruega a audácia de bombardear. Lá no norte, os lapões, parentes de Papai Noel, que ali tem seu escritório, davam fuga a antinazistas, no gelo.

É um pequeno país, de história valente, o  mais setentrional habitado entre os graus 58 e 81 de latitude norte, na boca do Pólo Norte. A ponta sul da Groelândia fica na mesma direção de Oslo. Com 386 mil metros quadrados, quase 5 milhões de habitantes (Oslo tem menos de 500 mil), é comprida como o Chile: 2.400 quilômetros de baixo até a fronteira por cima da Suécia e da Finlândia.

O sol gostoso de 20 graus, no verão de julho, quase desaparece durante nove meses por ano e o inverno chega a ter apenas três horas de luz pálida por dia, entre 11 da manhã e duas da tarde. Em cima de tantos obstáculos, construíram uma nação alegre, simpática, bonita, rica.

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VIKINGS

Em 872 já tinham um rei. Como toda a Escandinávia, aqueles pescadores e caçadores que viviam nas cavernas, ao longo da costa, começaram a entrar terra a dentro, cultivar e construir elegantes navios de bico fino, atravessando oceanos, chegando à Inglaterra e até a Sicília, cujas catedrais têm marcas de civilização normanda. Eram eles, os vikings, audaciosos aventureiros, nos seus barcos inigualáveis.

Até hoje surpreendem. Vi alguns, em museus, tirados do fundo do mar, como um de 22 metros, encontrado em 1904, com mais de mil anos afundado. Até 1937 a Noruega foi independente. Depois a Dinamarca e a Suécia ocuparam. Só em 1814 teve a primeira Constituição. Mas só em 1905 voltou a ter seu próprio rei e suas cores nacionais.

Em 1030, um rei que virou santo (Olavo) impôs o cristianismo romano, mas hoje a Noruega tem uma religião oficial, uma Igreja do Estado, evangélica, luterana. E tem um rei, Harald V, a rainha Sônia e o atual primeiro-ministro Jens Stoltenberg, do partido Trabalhista, que há quase meio século ganha as eleições e exerce o governo.

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NEVE

Deus caprichou no mundo. Há muita coisa linda por aí a fora. Mas é muito difícil ver coisa mais bonita do que os “fiords” da Noruega. Montanhas cobertas de neve (até 2.469 metros de altura), uma neve eterna que passa o verão, a primavera, o outono, chorando cachoeiras brancas, muito brancas, que no inverno endurecem, empedram, viram estalactites. O que era cascata vira gelo só. Esperando o verão para chorar de novo.

Você pega um trem, viaja algumas horas subindo montanhas. Passa para outro trem menor, pequeno, como se fosse de brinquedo, chega à beira de um estranho rio, que não é rio, mas também não é lago. É o “fiord”, quilômetros e quilômetros de água azul, muito azul. Entre montanhas escarpadas, água profunda, muito profunda, até 1.500 metros.

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FIORDS

E você viajando ali dentro, em um barco todo branco, vendo as montanhas bem perto de você e um verde muito verde a toda hora cortado, de cima até embaixo, por largas e brancas fitas de água que se desprende das geleiras, lá em cima, e descem montanha abaixo como cantantes cascatas.

De quando em quando, as escarpas se encolhem e uma encosta toda verde desce até à beira da água, como se viesse beber na beira do riacho imenso.

Cidadezinhas encantadas surgindo de repente das curvas, como desenhos de jardim de infância. E de novo as pedras, as escarpas, as montanhas, e a água azul, eterna, lágrimas rolando da montanha como cabelos de neve. Indescritível. Inesquecível.

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DIREITA

Turismo é uma corrida atrás do sol. Países como o Brasil, com sol o ano inteiro, levam uma vantagem fantástica. Quem não tem, como a Noruega, aproveita três, quatro meses de sol ao ano, para mostrar que, mesmo sendo a terra do frio e da neve, também tem sol iluminando belezas.

E armam tudo, preparam tudo, para fazer de sua viagem uma alegria segura, tranquila, mansa. Nos outros lugares, “Ritz” é sinônimo de hotel grande, cinco estrelas, caro. Ali é um pequeno e doce hotel normando, três estrelas (diária de US$ 150), comandado por encantadoras jovens, tão mais simpáticas quanto mais profissionais. E mais louras.

Turismo é sol. Mas é gente também. E imaginar que dentro de um pais e um povo como aquele nasce um monstro louro que fuzila uma centena de jovens reunidos em um piquenique político de domingo, numa ilhota toda verde. Ou a Europa segura a Direita louca ou vai para o suicídio.

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