A Palestina da Europa

Sebastião Nery

Chamava-se Libusa. Uma princesa da tribo dos Premylidas. Princesa e sábia. Em 722, ela estava em seu castelo de Vysehrad, olhou para as colinas da outra margem do rio Vltava (pronuncia-se Vêltava) e suspirou, como costumam fazer as princesas:

– Vejo uma cidade cuja glória sobe até as estrelas.

E construiu lá em cima o majestoso castelo de Hradcany, o Castelo de Praga. Lenda ou não, acertou. A arqueologia fixa a primeira construção do castelo de Praga na segunda metade do século IX, além de 850, pela tribo dos tchecos. Um castelo de arquitetura e tamanho ainda hoje fantásticos.

O primeiro morador, o príncipe Borivoj, mandou logo fazer uma capela dedicada à Virgem Maria, sobre antigo templo pagão, para não ter problemas com Roma. O castelo resistiu a todas as invasões, mesmo às dos celtas e dos germanos. Em torno dele se construiu Praga. E a República Tcheca. E foi durante séculos a Palestina da Europa.

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NOVA JERUSALÉM

Salvador é a cidade das 365 igrejas, uma para cada dia. Praga é a cidade das 100 torres. Em 973, já era bispado. Em 1232, Ottakar II criou uma pequena cidade na outra margem do rio, de população germânica. Em 1348, Carlos IV fez de Praga a capital do império e fundou a Universidade. Em 1848 já tinha 89 torres altas e 100 baixas.

Como nos impérios, tudo começou com um crime. Boleslav I, príncipe (de 935 a 967), mandou matar o irmão Venceslav, que virou São Venceslau, mártir, herói e lenda, padroeiro e símbolo da nação, e está em cima de seu cavalo, bandeira na mão, vestido de armaduras, na praça central de Praga, que Hitler e os russos profanaram em 39 e 68.

Talvez do crime tenha vindo a maldição. Durante séculos, Praga foi a Jerusalém da Europa, numa Europa Central disputada por reis e impérios e dividida entre Áustria, Hungria, Boêmia, Alemanha, Rússia, em guerras políticas ou religiosas, germanos contra eslavos, católicos contra protestantes.

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OS DOIS HERÓIS

Em 1419, os partidários do teólogo protestante Jan Hus, o Lutero daqui, que começou aqui sua Reforma, foram presos e escorraçados pelos católicos. Reagiram, libertaram os hussistas, apoderaram-se da Universidade de Praga e expulsaram para Leipzig os professores e estudantes alemães.

A mesma Praga que tem a estátua do padroeiro católico lá em cima na praça nova tem a estátua de seu herói protestante lá embaixo na praça velha. A briga nunca parou. Em 1541, grande incêndio e Fernando I levou a capital do império para Viena. Os tchecos se rebelaram, foram esmagados. De 1583 a 1610, o alemão Rodolfo II ficou aqui com seu reinado, mas foram embora.

Em 1618, nova sublevação dos tchecos pela independência, começando a Guerra dos 30 Anos. De novo derrotados, na batalha da Montanha Branca.

Toda vez que tentavam a independência, Áustria ou Hungria impediam. No século 17, Praga definhou. Só começou a se recuperar no barroco século 18.

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A INDEPENDÊNCIA

Em março de 1848, os tchecos se levantaram tentando unir as nações eslavas para conquistarem independência e direitos. As “fuziladas de Praga”, em junho, liquidaram sonhos e sonhadores, como o bravo jornalista Karel Havilicek Borovski. O rei Francisco José impôs seus exércitos, sua Constituição e tirou até a língua tcheca da administração e do ensino.

Em 1860, com nova Constituição, Praga tornou-se o “centro das aspirações nacionalistas tchecas”. Em 1893, novo massacre contra as manifestações populares pelo direito ao voto. Só em 1907 foram eleitos os primeiros deputados social-democratas.

A derrota da Alemanha, Áustria e Hungria na primeira guerra mundial não pôde mais impedir a independência. A longa luta de Masaryk no exílio estava vitoriosa, com a criação da República da Tchecoslováquia em 1918. Depois de quatro séculos de lutas, os tchecos tinham sua Pátria e Praga voltava a ser sede do governo, com o presidente da República no castelo.

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HITLER E MOSCOU

Durou pouco. Veio 1939 e Hitler invadiu e ocupou. Praga foi a última cidade abandonada pelos nazistas. Os tchecos se sublevaram em 5 de maio, a guerra acabou no dia 8, mas no dia 9 os alemães ainda lutavam nas ruas de Praga, até a chegada das “libertadoras” tropas soviéticas.

A primavera de Praga, em 68

Sonho de uma noite de verão. O preço da “libertação” foram os soviéticos 40 anos no poder, senhores absolutos. Em agosto de 1968, Dubcec, líder do Partido Comunista, tentou a “Primavera de Praga”, e os tanques de Moscou repetiram os tanques de Hitler: entraram e esmagaram. O estudante Jan Palack imolou-se com fogo diante da estátua de Venceslav.

Em 1989, o império soviético começou a desabar como o Muro de Berlim. E em 29 de dezembro de 1989 o escritor Vaclav Havel, líder da resistência aos soviéticos, saiu da cadeia direto para a presidência do país, a Tchecoeslovaquia, hoje República Tcheca, depois de separada da Eslováquia. E assim caminha a humanidade. Os povos existem para serem livres.

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