A pantomima do PSD

Carlos Chagas

Pior não poderia ter sido a entrada no palco, quarta-feira, do  mais  novo  ator da pantomima partidária encenada no país desde o advento da  Nova República. Porque a proposta do PSD não é nem socialista nem democrática, mas fisiológica. Serve de abrigo para oposicionistas do DEM e do PSDB sequiosos de aderir ao governo Dilma Rousseff. Tanto assim que o prefeito Gilberto Kassab, fundador, já lançou a proposta da reeleição da atual presidente, em 2014. Mas fez mais: no manifesto  de formalização do partido, embarcou na canoa furada  da convocação de uma Assembléia Constituinte exclusiva, a ser eleita naquele ano,  juntamente com um novo Congresso. Até o Lula, assim como Dilma, já abandonaram essa aberração, apesar de a terem  defendido um  ano atrás. Dispondo deputados e senadores do Poder Constituinte derivado,  quer dizer, podendo reformar a Constituição  em tudo o que não seja cláusula pétrea, como ficariam se aprovassem uma emenda durante o tempo em que os exclusivos estivessem trabalhando? Caso batessem de frente, como ficaria?

O PSD, pelo jeito, centralizará sua ação parlamentar no apoio ao governo federal e na  tentativa de suprimir direitos sociais estabelecidos na lei fundamental em 1988. Não  propriamente uma contradição, mas quase.  Surge mais um típico representante do setor neoliberal.  Apresentando-se como partido de centro, será na realidade outra  peça conservadora e reacionária. Os egressos do DEM sentir-se-ão em casa. Um ou outro tucano, também. Querelas e sequelas regionais de diversos  partidos fornecerão mais uns tantos integrantes,  também  protegidos pelo guarda-chuva da mudança de legenda sem o risco de perder o mandato.

Tendo recebido autorização do Tribunal Superior Eleitoral para funcionar, o PSD fará jus a alguns milhões do fundo partidário e, mais triste ainda, terá direito aos abomináveis horários de propaganda partidária gratuita no rádio e na televisão.   Ninguém confundirá  a sigla com a anterior, que de 1945 a 1966 foi majoritária no Congresso, nos estados e nos municípios, dando lições de competência política. A maioria não se lembra, muitos já esqueceram o velho PSD de Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves, Gustavo Capanema, Benedito Valadares, Nereu Ramos, Amaral Peixoto e muitos mais. Azar de Gilberto Kassab.

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UM PATRONO PERIGOSO

Busca-se no PT um  patrono histórico, claro que não para ofuscar o Lula, mas para dar ao partido raízes capazes de apresentá-lo como  idéia-força vinda do passado. Pensaram em Getúlio Vargas, mas,  mesmo esfrangalhado, o PTB surge como empecilho. Pensar outra vez em Karl Marx é piada, já que o barbudo não emplacou sequer na fundação do partido,  quando os companheiros eram puros. Lembrar João XXIII despertaria fortes  reações na CNBB, sendo que a intelectualidade se dividiria entre Leon Trotski e Joseph Stalin, não chegando a lugar algum. Mao Tse-tung não seria o caso, apesar da dúvida sobre quem mudou mais nos últimos anos,  se a China ou o PT.

Sendo assim, e em função da performanece atual do PT, vai uma sugestão: por que não escolherem Friedrich Nietzsche? É dele a teoria do super-homem e da super-raça, que deve dominar o mundo pela força. Nada das decadentes idéias de democracia, parlamento e convivência pacífica na Humanidade. Ético, para o filósofo alemão, era quem vencia. Quem impunha sua vontade, subordinando os demais com seus exércitos,  pelo controle financeiro e pelo domínio dos recursos naturais do resto do mundo. A luta era a lei da vida e o vencedor deveria tornar-se implacavel no exercício de sua superioridade.

Só que tem um problema:  o último a inspirar-se em Nietzsche  foi Adolf Hitler… 

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PREVALECEU O BOM SENSO

Foi sábia a decisão da maioria dos  ministros do Supremo Tribunal Federal, já no meio da tarde de quarta-feira, pelo adiamento da proposta de limitação do Conselho Nacional de Justiça. Mesmo irritados pelas palavras candentes pronunciadas na véspera pela ministra Eliana Calmon, corregedora do  CNJ, os meretíssimos indagaram se não estariam remando contra a maré. Afinal, restringir poderes de uma instituição empenhada em combater a corrupção despertaria críticas  volumosas. Ficou para a próxima semana o julgamento, mas há quem acredite na elasticidade maior do prazo. Pega mal impedir que o órgão encarregado de zelar pela probidade na Justiça fique de mãos amarradas, subordinado ao corporativismo dos tribunais estaduais. 

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VOANDO NAS VASSOURAS

Corre na Esplanada dos Ministérios não terem sido apenas camelôs, desocupados e alguns maus funcionários,  os responsáveis pelo roubo de pelo  menos 50 vassouras, das 594 plantadas no gramado fronteiriço ao Congresso.  Outros personagens teriam também surripiado os instrumentos de limpeza desaparecidos durante a demonstração popular  pela necessidade de ampla faxina contra a corrupção.  Importa ficar de olho no céu,  à noite, para ver se certas senadoras e deputadas estão deixando de ir  para casa de automóvel, preferindo,  conforme suas características, voar de vassoura. Mesmo não crendo em bruxas, sabemos que elas existem.

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