A paz de Paes

Sebastião Nery

Em abril de 64, logo depois do golpe, a 7ª Região Militar exigiu da Assembléia Legislativa do Ceará a cassação de vários deputados. Apavorada, aliás como tantas outras, como a da Bahia, a Assembléia reuniu-se e ao cair da noite tocaiou e assassinou os mandatos de alguns parlamentares, seus colegas, eleitos pelo povo e não acusados de coisa alguma, só de não serem a favor do golpe ou serem contra o golpe.

Semanas depois, planejou-se uma homenagem à “Revolução Redentora”, na Assembléia. A maioria dos deputados, moída pelo remorso de haver cassado os companheiros, não compareceu. O plenário vazio e os militares chegando para a solenidade, inclusive o general comandante.

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MAURO

Mauro Benevides, presidente da Assembléia (deputado pelo PSD, senador e deputado federal pelo MDB e PMDB), com seu ar de bispo e séculos de manha, ficou em pânico. Os militares chegando e Mauro se apavorando. Chamou os funcionários e jornalistas, com sua voz anasalada:

– Meus amigos, preciso de um favor. Os que estão de paletó e gravata sentem-se nas cadeiras dos deputados e façam pose de deputados, para os militares pensarem que também são deputados e não ficarem zangados. Quando eles forem embora, não tem mais importância.

E os funcionários, alguns raros jornalistas e só um punhadinho de deputados, cumprimentados pelos militares como se todos deputados fossem, fizeram a “homenagem da Assembléia à Revolução Redentora”.

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ITINERÁRIOS

Em 2008, na Assembléia Legislativa do Ceará, não foi preciso convocar ninguém para fingir de alguém. Autoridades, deputados, políticos, escritores, jornalistas, diplomatas, homenagearam o ex-deputado e embaixador Paes de Andrade no lançamento de mais um livro: “O itinerário da paz” (os direitos autorais foram doados ao Instituto Peterpan, de combate ao câncer infantil).

Editado pela Universidade Federal do Ceará, é uma síntese da vida, dos mandatos políticos e das lutas de Paes de Andrade, em 80 anos e 58 de vida pública. Em 1950, elegia-se deputado estadual e em 1962 federal: 11 mandatos legislativos seguidos, 3 estaduais e 8 federais, recorde nacional antes só alcançado pelo saudoso deputado Manoel Novais, da Bahia. Depois, dedicado e prestigiado embaixador do Brasil em Portugal.

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ULYSSES

Em 1976, da tribuna da Câmara, em reuniões internacionais e nos palanques públicos do Brasi1, denunciando e protestando contra os crimes da ditadura, Paes publicou “O itinerário da violência” (Editora Paz e Terra). Agora, o itinerário é da democracia, da paz.

Quando foi eleito para a presidência da Câmara e depois a do PMDB, dele disse a veterana experiência de Ulysses Guimarães:

1 – “Aperto-lhe as mãos, presidente Paes de Andrade. Elas podem ser apertadas: são mãos limpas, fortes e hábeis no difícil manejo político”.

2 – “Paes de Andrade é nome nacionalmente respeitado e consagrado. Talento político a serviço da democracia, comportou-se dignamente como resistente intimorato na luta contra a ditadura”.

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CHICO PINTO

Além de vários outros livros (uma dúzia de monografias, como “O poder absoluto”), este “O itinerário da paz” está ao lado do clássico “História constitucional do Brasil” (Editora da OAB), já em 5ª edição, em parceria com o brilhante constitucionalista brasileiro Paulo Bonavides e adotado em dezenas de universidades no Brasil, Portugal e Espanha.

No lançamento do livro, saudado por tantos, Paes de Andrade fez uma saudosa, calorosa, comovente e justa homenagem à memória do bravo deputado Francisco Pinto, da Bahia, seu companheiro de criação e liderança do histórico grupo dos “Autênticos” do MDB, em 1970 e demais anos de chumbo, para o partido não ser apenas uma oposição consentida.

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BAHIA

Foi o primo Tomé de Souza (todos os Souza somos primos dele), primeiro governador-geral do Brasil, quem fundou Salvador, em 1549, com Caramuru, o da Moema e Paraguaçu. Mas foram os espanhóis da Galícia que, sobretudo no século passado, mais ajudaram a modernizar a Bahia.

Tudo era deles: o melhor hospital (está lá, majestoso, até hoje, na Barra), o maior clube, as maiores construtoras (Suarez Leone e outras), a principal funerária (Fernandez), hotéis, restaurantes e botequins, dos donos aos garçons. Até cemitérios tinham.

E eram loucos por carnaval e mulatas. O mago Paulo Coelho ainda não tinha nascido e a magia baiana já levava os baianos a Santiago de Compostela, à Galícia espanhola.

Em 2008,  os jornais mostraram um jovem mulato baiano, Ramon, 16 anos, já jogador de futebol, fazendo conexão no aeroporto de Madri, a caminho de Milão, e com ele outros e outras, baianos e não baianos, presos durante 26 horas, mais de dois dias, trancafiados, humilhados, com fome e sede, e deportados de volta, sem nem as malas, que só vieram depois:

– Fui tratado como cachorro – conta o Ramon, que Deus ajudará para um dia, jogando pela Inter de Milão, derrotar o Real Madrid em Madri.

A Europa enlouqueceu contra os imigrantes. A Espanha era o mais simpático país europeu para turismo e os espanhóis sempre foram os mais simpáticos gringos da Bahia. Depois, criaram essa guerra burra, colonialista. Agora, que estão em crise, precisando do dinheiro dos turistas, pode ser que aprendam a respeitá-los.

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