A perseguição de Assange é um assalto à liberdade e um insulto ao jornalismo

John Pilger

A ameaça do governo britânico de invadir a embaixada equatoriana em Londres e ali capturar Julian Assange tem significado histórico. David Cameron, o antigo homem de Relações Públicas de um bufarinheiro da indústria da televisão e vendedor de armas para xeques, está bem colocado para desonrar convenções internacionais que têm protegido cidadãos britânicos em lugares sublevados.

Protestos na embaixada

Ao ameaçar abusar de uma lei concebida para expulsar assassinos de embaixadas estrangeiros, enquanto difama um homem inocente como “alegado criminoso”, o secretário do Exterior William Hague fez pouco caso dos britânicos em todo o mundo, embora esta visão seja quase sempre ocultada na Grã-Bretanha. Os mesmos bravos jornalistas e radialistas que defenderam a atuação britânica em crimes sangrentos brutais, desde o genocídio na Indonésia até as invasões do Iraque e Afeganistão, agora atacam o “registro de direitos humanos” do Equador, cujo crime real é enfrentar os tiranos em Londres e Washington.

Afronta semelhante é vivida nas páginas do Guardian, o qual aconselhou Hague a ser “paciente” e disse que assaltar a embaixada traria “mais perturbação do que isso vale”. Assange, segundo declarou o Guardian, não era um refugiado político porque “nem a Suécia nem o Reino Unido em caso algum deportariam alguém que pode enfrentar tortura ou pena de morte”.

A irresponsabilidade desta declaração vai a par com o pérfido papel do Guardian em todo o caso Assange. O jornal sabe muito bem que documentos divulgados pelo WikiLeaks indicam que a Suécia tem-se submetido sistematicamente à pressão dos Estados Unidos em matéria de direitos civis. Em dezembro de 2001, o governo sueco revogou abruptamente o estatuto de refugiados políticos de dois egípcios, Ahmed Agiza e Mohammedel-Zari, que foram entregues a um esquadrão de sequestro da CIA no aeroporto de Estocolmo e levados (“rendered”) para o Egito, onde foram torturados.

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CAMPANHA

Tem havido uma campanha pessoal injuriosa contra Assange. Grande parte dela emanou do Guardian, o qual, como um amante rejeitado, voltou-se contra a sua antiga fonte, depois de ter aproveitado enormemente das revelações do WikiLeaks. Sem dar nem um centavo a Assange ou à WikiLeaks, um livro do Guardian levou a um lucrativo acordo cinematográfico com Hollywood.

Assange não é acusado de qualquer crime, ele não é um fugitivo da justiça. Documentos do processo sueco, incluindo as mensagens textuais das mulheres envolvidas, demonstram para qualquer pessoa de mente razoável o absurdo das alegações sexuais – alegações quase inteiramente afastadas de imediato pelo promotor sênior em Estocolmo, Eva Finne, antes da intervenção de um político, Claes Borgstr?

No pré-julgamento de Bradley Manning, que forneceu informações a Assange, um investigador do Exército dos EUA confirmou que o FBI estava secretamente a mirar os “fundadores, proprietários ou administradores da WikiLeaks” por espionagem.

Quatro anos atrás, um pouco noticiado documento do Pentágono, revelado pela WikiLeaks, descrevia como a WikiLeaks e Assange seriam destruídos com um campanha de difamação (smear campaign) que levaria a “processo criminal”. Em 18 de Agosto, o Sydney Morning Herald revelou, numa divulgação de ficheiros oficiais no âmbito da lei de liberdade de informação, que o governo australiano havia reiteradamente recebido confirmação de que os EUA estavam a conduzir uma perseguição “sem precedentes” de Assange e não havia levantado objeções.

Dentre as razões do Equador para conceder asilo está o abandono de Assange “pelo país do qual ele é cidadão”. Em 2010, uma investigação da Polícia Federal australiana descobriu que Assange e a WikiLeaks não haviam cometido crime. A sua perseguição é um assalto a todos nós e à liberdade.

(O original está em resistir.com)

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