A poesia bem brasileira de Gilberto Freyre

O socilogo, antroplogo, historiador, pintor, escritor e poeta pernambucano Gilberto de Mello Freyre (1900-1987), alm de se consagrar como um estudioso da histria e da cultura brasileiras, tambm dedicou-se poesia. bem verdade que aquele que se dedica a ler com ateno seus livros pode perceber o dom literrio do socilogo, cuja habilidade na escrita torna atraentes os temas que aborda em seus estudos.

O outro Brasil que vem a um poema que traz a defesa das singularidades nacionais que esto presentes em seus textos sobre a formao da sociedade brasileira e uma amostra do dom literrio que o socilogo possua. Iniciando-se com os versos “Eu ouo as vozes / eu vejo as cores / eu sinto os passos / de outro Brasil que vem a”, Freyre projeta para sua nao o desejo de ver seu pleno desenvolvimento social, de estar numa terra onde pessoas de todas as origens sociais possam ser donas de seus prprios destinos. O poema, alm de ser uma aula sobre a brasilidade, um fragmento de esperana lanado pela pena de Gilberto Freyre.

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O OUTRO BRASIL QUE VEM A

Gilberto Freyre

Eu ouo as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
de outro Brasil que vem a
mais tropical
mais fraternal
mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados
ter as cores das produes e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das trs raas
tero as cores das profisses e regies.
As mulheres do Brasil em vez das cores boreais
tero as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poder dizer: assim que eu quero o Brasil,
todo brasileiro e no apenas o bacharel ou o doutor
o preto, o pardo, o roxo e no apenas o branco e o semibranco.
Qualquer brasileiro poder governar esse Brasil
lenhador
lavrador
pescador
vaqueiro
marinheiro
funileiro
carpinteiro
contanto que seja digno do governo do Brasil
que tenha olhos para ver pelo Brasil,
ouvidos para ouvir pelo Brasil
coragem de morrer pelo Brasil
nimo de viver pelo Brasil
mos para agir pelo Brasil
mos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis
mos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores europeus e norte-americanos a servio do Brasil
mos sem anis (que os anis no deixam o homem criar nem trabalhar).
mos livres
mos criadoras
mos fraternais de todas as cores
mos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos,
sem Irineus
sem Maurcios de Lacerda.
Sem mos de jogadores
nem de especuladores nem de mistificadores.
Mos todas de trabalhadores,
pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,
de artistas
de escritores
de operrios
de lavradores
de pastores
de mes criando filhos
de pais ensinando meninos
de padres benzendo afilhados
de mestres guiando aprendizes
de irmos ajudando irmos mais moos
de lavadeiras lavando
de pedreiros edificando
de doutores curando
de cozinheiras cozinhando
de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.
Mos brasileiras
brancas, morenas, pretas, pardas, roxas
tropicais
sindicais
fraternais.
Eu ouo as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
desse Brasil que vem a.

(Colaborao enviada pelo poeta Paulo Peres site Poemas & Canes)

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