A Polícia do Exército e o DOI-CODI, ambos na Barão de Mesquita, dividiram o mesmo território, mas não a mesma ideologia da tortura. O DOI-CODI foi criado para torturar, cumpriu sua missão cruel.

Helio Fernandes

Jornalistas que escrevem sobre o assunto, e até a chamada “Comissão da Verdade”, se enganam e cometem equívocos. Como fui “hóspede” dos dois, tenho a obrigação da retificação, no tempo e na história.

Em 1963, antes do golpe, fui preso em Belo Horizonte. Por que na capital de Minas? Ia fazer um programa de televisão (entrevista sobre a confusa situação política e militar do país) na TV Alterosa, a mais importante dos Associados.

Não queriam, fora antes e não falei. Mas agora me disseram: “Helio, não tem problema, está aprovado e autorizado pelo doutor Assis”. Fui, peguei o avião, cheguei lá por volta das 4 da tarde, o programa seria às 9.

Surpresa: dezenas de jornalistas, todos com a mesma explicação: “Helio, você vai ser preso”. Dois assessores do governador Magalhães Pinto me puxaram de lado: “Helio, o governador mandou dizer que tem informação oficial que você será preso. Ele está à sua disposição, você pode voltar ao Rio de carro, ou sumir completamente”. Agradeci e disse que não fugiria, não era o meu estilo.

A CONSPIRAÇÃO DE 6 GOVERNADORES
E 1 PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Por volta das 7 horas, fomos andando para a TV Alterosa. Os jornalistas, solidários e profissionais, não me abandonaram. Nem cheguei a entrar na televisão, fui preso, empurrado para um camburão e levado para a ID 4ª (Quarta Infantaria Divisionária). O Exército já completamente dividido, no café da manhã, oficiais me cumprimentavam, outros me olhavam com ódio visível.

O que não queriam que eu contasse na televisão, e que iria mostrar com detalhes: 6 governadores supostos candidatos a presidente em 1965, não acreditavam que Jango fizesse eleição. Exatamente como os governadores, o presidente conspirava abertamente.

Os governadores-conspiradores-candidatos, pela importância dos Estados: 1 – Ademar de Barros, São Paulo. 2 – Magalhães Pinto, Minas. 3 – Carlos Lacerda, Guanabara. 4 – Mauro Borges, Goiás, coronel. 5 – Ney Braga, Paraná, major. 6 – Leonel Brizola, já não governador, mais discreto e não ligado a ninguém. Tinha o problema do presidente seu cunhado, que só tomara posse por causa dele.

Pela manhã um avião foi me buscar, me trouxe para o Rio, me deixaram no Batalhão da Polícia do Exército, ainda não havia DOI-CODI. Fiquei incomunicável numa cela mínima. Meus advogados Sobral Pinto, Adauto Cardoso, Prado Kelly e Prudente de Moraes Neto (todos acabaram no Supremo, dois recusaram a indicação) entraram com habeas corpus no STF.
O presidente do Supremo, o notável Ribeiro da Costa, oficiou ao ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro, para saber “quem dera a ordem” para me prender.

PREPOTÊNCIA DO GENERAL MINISTRO

Bastaria que Jair Dantas Ribeiro alegasse que eu estava respondendo a um IPM (Inquérito Policial Militar) comandado por um coronel, e o Supremo não poderia julgar. Mas o general, arrogante, pretensioso e se julgando poderoso, respondeu ao presidente do Supremo: “O jornalista está preso à minha ordem e disposição”.

Diante disso, Ribeiro da Costa levantou a incomunicabilidade para os advogados, e determinou que eu fosse transferido para Brasília, onde seria o julgamento.

Foi inacreditável, está completando 50 anos agora, mas não me esqueço de nenhum detalhe. Por que estava sendo julgado? 72 horas antes, o ministro-general enviara uma circular SIGILOSA-CONFIDENCIAL para os 12 generais de Divisão. Eram 36, 24 de Brigada. (Só depois do golpe foram criados os Generais de Exército, Almirantes de Esquadra, Tenentes-Brigadeiros).

No mesmo dia, publiquei a circular SIGILOSA, que me foi dada por um general de Divisão. Estivera na FEB como general (Castelo Branco era apenas tenente-coronel), interventor no Rio Grande do Sul, mais tarde governador eleito de Pernambuco. Quando soube que eu estava preso, procurou meus advogados, disse simplesmente: “Fui eu quem dei a circular ao Helio, não sabia que ia ter essa repercussão”.

Livre da incomunicabilidade, meus advogados contaram a conversa com Cordeiro de Farias, não aceitei divulgar. Sobral Pinto falou: “Helio, ele disse que não acontecerá nada com ele”. Não aceitei, ele deu entrevista coletiva, assumindo a responsabilidade que não tinha.

O JULGAMENTO DO SUPREMO

De acordo com o regimento interno do Supremo (e pela Constituição), precisavam estar presentes 8 ministros, para haver o julgamento. Estavam exatamente 8, Ribeiro da Costa ficou como presidente-relator, direito que lhe dava o regimento interno. Ele percebeu que “havia alguma coisa estranha”, ficou como relator. Marcado o julgamento, votou a meu favor. Depois, fiquei perdendo por 2 a 1, ganhando de 3 a 2 e 4 a 3. O último votou contra mim, 4 a 4.

Ribeiro da Costa, como presidente, era obrigado a desempatar, só que poderia desempatar contra ou a meu favor. Votou a meu favor, fui solto na mesma noite. (Não dou nomes, todos estão mortos, alguns desonraram a própria formação).

Fui o único jornalista JULGADO pelo Supremo, em toda a História da República. PROCESSADOS, vários: Rui Barbosa, Prudente de Moraes Neto, João Dantas, dono do Diário de Notícias, primo de general-ministro. Contratavam advogado, o processo era arquivado.

AS IDAS AO DOI-CODI

O DOI-CODI foi criado com um pedaço do território da Policia do Exército. Esta era enorme. Orlando Geisel, que inventou e comandou (de cima, com áulicos em posições-chave) esse antro de tortura, mandava e desmandava. Quando Costa e Silva ficou incapacitado, precisou haver nova escolha. Orlando se lançou para “presidente”. Perdeu para Afonso Albuquerque Lima, que não foi empossado, “tinha só três estrelas”.

Como poucos queriam Orlando Geisel, houve demorada procura. Fixados em Garrastazu Medici, Chefe do SNI, diga-se, esbarraram na negativa dele. Mas diante da insistência, teve que aceitar. Cumpriu o prazo, passou o cargo a outro Geisel, o Ernesto.

COM ORLANDO, OBAN VIRAM DOI-CODI

Fui muitas vezes para lá. Ia num carro da Polícia Federal, os agentes diziam: “Dá até medo entrar naquele lugar”. Na parede da entrada, um cartaz enorme, um homem apontando o dedo, e a palavra em letras grandes: PIC (Pelotão de Investigação Criminal). Me viam, diziam logo: “O senhor escreve contra nós mas acaba sempre aqui”.

PS – Não dá mais por hoje. Ainda escuto os gritos dos meninos de 19, 20, 21 anos, da classe média alta, presos e torturados sem explicação, como tudo naquele mundo.

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