A política original, preconizada por Platão, não era assim…

Roberto Nascimento

Dizem que a política é assim… Mas não é a política preconizada por Platão, o filósofo que pensou a cidade utopicamente perfeita. Nessa cidade platônica, os políticos trabalhariam para o engrandecimento da vida na cidade, mas nossos políticos trabalham para seus financiadores de campanha, tanto que não abrem mão desse financiamento. O Senado vetou e a Câmara restabeleceu o financiamento. Aliás, Senado e Câmara não estão falando a mesma linguagem. O confronto existe entre as duas Casas Legislativas.

Joaquim Levy não precisa ser desestabilizado, sua política econômica neoliberal, conforme preceituam os “gênios” da Escola de Chicago, cria automaticamente a desestabilização da economia, quando reduz o consumo das famílias e aumenta os juros, elevando a dívida interna, e em consequência gera o desemprego. Para quê? Para nada. Esse é o ajuste fiscal, que onera os trabalhadores, que vivem da renda do seu esforço, enquanto preserva os lucros dos bancos. Não pode dar certo.

Por que então, o ministro continua no cargo? Porque o sistema de poder assim o exige. Política é assim, manda quem pode e obedece quem tem juízo.

CONSERTAR OS ERROS

O ministro Levy foi chamado para executar uma missão, a de consertar os erros cometidos pelo ex-ministro Guido Mantega, que incentivou o consumo e abriu os cofres do governo para financiar os campeões nacionais, mas o maior desses grupos “campeões” faliu e agora se encontra na segunda divisão.

Com bons ventos externos,, a política intervencionista do Estado na Economia deu certo nos oito anos do governo LULA, tanto é que conseguimos suportar nesse período a tsunami global que afetou EUA e Europa a partir de 2008, chamado de “bolha imobiliária”. O Tesouro Nacional alavancou as empresas através dos empréstimos com juros baixíssimos e la nave va. Tudo ia muito bem, até que o cenário mudou. A China desacelerou brutalmente e deixou de comprar como antes, as commodities brasileiras. A balança comercial desabou a partir de 2010 e hoje está no alambrado, nas cordas.

O capitalismo não convive bem com retração, com ajustes que impedem a livre circulação de mercadorias, o toma lá dá cá das compras e vendas. Se há desemprego, alguém deixará de comprar pão, o padeiro fecha a padaria e desemprega os seus empregados e quem produz a farinha vai vender para quem? E o transportador da farinha, o caminhoneiro, o vendedor de diesel etc…, como ficam?

A política é assim e o capitalismo também.

LULA SE DESFEZ

Como o tempo é capaz de desmistificar uma figura pública, um líder popular. O ex-metalúrgico Lula é hoje um retrato amassado e desfigurado na parede. Sua expressão é de angústia e perplexidade com os fatos que afetam sua popularidade e seu carisma.

A imagem do boneco pixuleco nas manifestações deve estar arranhando seu ego antes inflado a última potência. O pior para o ex-presidente, talvez seja a certeza de que o tempo, o nosso maior inimigo, impossibilite sua volta para recuperar o tempo perdido. Os tempos são outros e o cenário está completamente devastado pela crise política e econômica. Lembram-se da volta de Getúlio Vargas. Sem o arcabouço militar e da estrutura ditatorial iniciada em 1930 e terminada em 1945, não conseguiu governar sob os ditames da democracia representativa. Foi levado para a trágica renúncia pelos opositores civis e militares.

Lula capitulou em nome da permanência de seu partido no PODER. Foi mais importante o projeto de poder do que o projeto da nação. Parou sua promessa de inclusão social no Bolsa Família e na alavancagem do consumo. Fora dessas ações, orientou sua política de governo nas teses do neoliberalismo imitando seu maior inimigo, o governo FHC. FHC e LULA, difícil encontrar divergências lancinantes entre os dois ex-amigos de palanque.

Completa-se uma sina de ex-presidentes operários, iniciada pelo polonês operário do Porto de Gdansk, amigo do Papa Paulo II. As elites não perdoam aqueles que interferem em seus planos. Cooptou LULA e agora se vingam pela sua impertinência de ter empalmado a presidência do país, por longos oito anos. O sistema de poder não dará trégua ao ex-presidente, enquanto não vê-lo sangrar completamente, até que seja inviabilizada sua volta ao Palácio do Planalto, o que a essas alturas parece improvável de que venha a ocorrer.

Mas, de tudo fica uma lição: Um dia, tudo é esclarecido, até os segredos mais bem guardados. A ferida está exposta e o sistema foi aberto com todas as suas nuances fétidas. A carceragem de Curitiba é o retrato do que os poderosos fizeram com o país. Lapidar, lapidar e lapidar nossas esperanças e os recursos da nação para levá-los além mar. Agora, teremos que pagar mais impostos para colocar as contas em ordem. É justo isso?

5 thoughts on “A política original, preconizada por Platão, não era assim…

  1. Não foi a desaceleração das compras da China que provocou a crise. Ela apenas colaborou para que ela piorasse mais cedo e com mais ímpeto. O que provocou a crise foi uma política de expansão de gastos sem cuidar de criar as condições para o aumento e a manutenção da arrecadação. O governo confiou demais no mercado de commodities e desprezou a construção de uma base industrial sólida. Achou que aumentando a renda dos mais pobres através de bolsa família e de um aumento do salário mínimo desvinculado de um aumento de produtividade, incentivando para que essa renda fosse gasta em compras e aumentando o crédito magicamente criaria uma situação auto-alimentadora.
    Esqueceu-se de que governo não gera renda, apenas gasta, bem ou mal, a renda gerada pelos outros e de que, como os economistas de verdade sabem, realmente não existe almoço grátis. Alguém sempre tem que pagar.

  2. Prezado Sr. WILSON BAPTISTA JUNIOR,

    Seu Comentário acima, é uma síntese perfeita da nossa atual situação. Parabéns.
    Com certeza podemos fazer o Ajuste Fiscal e um Orçamento com Superavit Primário para 2016, sem CPMF, mas como o senhor bem diz, ALGUÉM VAI TER QUE PAGAR. Abrs.

  3. Se estes governantes fossem sérios, tomariam medidas sérias, como por exemplo, acabar com os penduricalhos de juízes, do presidente e seus ministros, servidores de alto escalão, presidentes de empresas estatais, congresso nacional, seria como Robin Hood, tiraria dos ricos para dar aos pobres, mas isto eles não querem, preferem ferrar quem não tem para dar aos ricos, ou seja, é o Robin Hood inverso, este ajuste fiscal é uma piada, não é atoa que no passado o presidente da França disse que este país não é um país sério, imaginem quanto economizariam com estas medidas.

  4. Realmente, não existe o moto contínuo econômico, que se auto sustenta com a mesma energia financeira que gera. Sempre haverá perdas, que devem ser repostas por novas resultantes do Trabalho aplicado ao Capital, e de molde a haver sobras da riqueza (superávit). Todavia, o pensamento equivocado (moto perpétuo), por mais comprovadamente irrealizável na prova histórica, foi, levianamente, posto em prática por sonháticos: às primeiras voltas inerciais da roda, tudo parecia ir bem demais. Mas, quando a inércia começou a ceder à resistência, a falta da energia não suplementada fez-se sentir, e de modo crescente faz-se presente na realidade. A roda está parando!
    É nesse infausto estágio que estamos. Sua superação somente será viável pela retenção -em condensador econômico- das energias dispersadas por inúmeros ralos, concomitantemente à produção de novas. Isso exigirá saneamento no RH geral envolvido e esforço hercúleo, detalhadamente orquestrado. O modus operandi é a grande questão, e as soluções postas à mesa nem de longe suprem a situação em desencanto.
    Abraços fraternos

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