A pomba no caixão do cardeal Eugenio Salles também é uma história mal contada

Carlos Newton

Em nome da verdade, os jornalistas Sebastião Nery e Hildegard Angel demoliram a “nova versão” da biografia de Dom Eugenio Salles, mostrando que ele apoiou o regime militar, jamais se insurgiu contra seus excessos e, se ajudou a salvar perseguidos pela ditadura, estes foram poucos, não os cinco mil apregoados pelo O Globo, onde o religioso escrevia artigos semanais.

A história da pomba sobre o caixão dele fez muito sucesso, mas ainda está muito mal contada. Hoje, em sua coluna no jornal O Tempo, de Belo Horizonte, o respéitado teólogo e parapsicólogo José Reis Chaves, chegou a dar uma explicação espiritualística ao curioso fenômeno:

Realmente, no citado episódio não é Deus que desceu em forma de pomba, mas um espírito de Deus, falando em nome de Deus. É, pois, um fenômeno de efeito físico natural, como foi natural também e nada de sobrenatural o que aconteceu com a pomba que queria ficar no caixão do cardeal Eugênio Salles. Trata-se da manifestação de um espírito que gosta dele e de suas ideias, e que, por isso, se manifestou daquela forma“, afirmou.

Eu também pensava assim. Ao ver estampada no jornal a fotografia da pomba branca sobre o caixão do cardeal, na minha infinita ingenuidade julguei que poderia se tratar de uma manifestação divina. Fiquei entusiasmado, ia até escrever sobre o instigante tema.

Mas antes, tive um acesso de lucidez e resolvi pesquisar na internet e encontrei o video da pomba, que asssitiu com a máxima atenção. Surpreendentemente, a filmagem mostra que a pomba não apareceu por lá, pois foi levada por um funcionário da Cruz Vermelha. O video mostra também que esse piedoso fiel procurou o cinegrafista e até combinou com ele o voo da pomba, pois a imagem começa com foco na ave presa nas mãos dele, acompanhando quando a lança sobre o caixão, a apenas um metro de distância. E a pomba pousou lá em cima e ficou.

Quando eu era garoto, cai num golpe muito comum à época – a venda de aves e passarinhos “domesticados”, que ficavam pousados no dedo do vendedor. O vendedor pegava o pássaro e o colocava pousado no dedo do comprador, que o levava para casa e lá o pássaro fugia, por já ter se recuperado do “porre” que o vendedor lhe dera.

Ao ver o video, frustrei-me ao perceber que é esta a explicação lógica e factual para o caso da pomba. Quando começou a se recuperar do porre, ela voou para o teto da catedral e ficou lá, parada.

É muito triste tudo isso, fazendo com que pessoas de boa vontade sejam enganadas assim. Mas vamos em frente. Esse tipo de “armação” não deve diminuir a fé em Deus, pois quem a possui, seja de que forma for, deve mantê-la acima de tudo. Com certeza, porém, faz diminuir a fé nos homens, ao ver que são capazes de cometer esse tipo de baixeza religiosa. Que Deus os perdoe.

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