A prática do amor, na definição poética de Tobias Barreto

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Tobias Barreto (reprodução do Google)

Paulo Peres

Site Poemas & Canções
O jurista, filósofo, crítico e poeta sergipano Tobias Barreto de Meneses (1839-1889) assim demonstrou liricamente sua definição do que seja amar.

AMAR

Tobias Barreto

Amar é fazer o ninho,
Que duas almas contém,
Ter medo de estar sozinho,
Dizer com lágrimas: vem,
Flor, querida, noiva, esposa…
Cabemos na mesma lousa…
Julieta, eu seu Romeu:
Correr, gritar: onde vamos?
Que luz! que cheiro! onde estamos?
E ouvir uma voz: no céu!

Vagar em campos floridos
Que a terra mesma não tem;
Chegamos loucos, perdidos
Onde não chega ninguém…
E, ao pé de correntes calmas,
Que espelham virentes palmas,
Dizer-te: senta-te aqui;
E além, na margem sombria,
Ver uma corça bravia,
Pasmada olhando pra ti!

2 thoughts on “A prática do amor, na definição poética de Tobias Barreto

  1. Os poetas falam de amor. Machado de Assis já dizia que “cada um sabe amar a seu modo”. Para Tobias Barreto Amar é se completar um ao outro. É ser Romeu e Julieta; “é fazer ninho”, aconchegar-se, não querer ficar sozinho. Uma bela concepção de amor, há nestes versos de Tobias Barreto.

  2. Tobias Barreto não é um poeta muito conhecido, por incrivel que pareça, mesmo entre os intelectuais. Gosto e acho lindo este poema:

    O BEIJA-FLOR

    Era uma moça franzina,
    Bela visão matutina
    Daquelas que é raro ver,
    Corpo esbelto, colo erguido,
    Molhando o branco vestido
    No orvalho do amanhecer.

    Vede-a lá: tímida, esquiva…
    Que boca! é a flor mais viva,
    Que agora está no jardim;
    Mordendo a polpa dos lábios
    Como quem suga o ressábio
    Dos beijos de um querubim!

    Nem viu que as auras gemeram,
    E os ramos estremeceram
    Quando um pouco ali se ergueu…
    Nos alvos dentes, viçosa,
    Parte o talo de uma rosa,
    Que docemente colheu.

    E a fresca rosa orvalhada,
    Que contrasta descorada,
    Do seu rosto a nívea tez,
    Beijando as mãozinhas suas,
    Parece que diz: nós duas!…
    E a brisa emenda: nós três! …

    Vai nesse andar descuidoso,
    Quando um beija-flor teimoso
    Brincar entre os galhos vem,
    Sente o aroma da donzela,
    Peneira na face dela,
    E quer-lhe os lábios também
    Treme a virgem de surpresa,

    Leva do braço em defesa,
    Vai com o braço a flor da mão;
    Nas asas d’ave mimosa
    Quebra-se a flor melindrosa,
    Que rola esparsa no chão.
    Não sei o que a virgem fala,
    Que abre o peito e mais trescala
    Do trescalar de uma flor:

    Voa em cima o passarinho…
    Vai já tocando o biquinho
    Nos beiços de rubra cor.
    A moça, que se envergonha
    De correr, meio risonha
    Procura se desviar;
    Neste empenho os seios ambos
    Deixa ver; inconhos jambos
    De algum celeste pomar! …

    Forte luta, luta incrível
    Por um beijo! É impossível
    Dizer tudo o que se deu.
    Tanta coisa, que se esquece
    Na vida! Mas me parece
    Que o passarinho venceu! …

    Conheço a moça franzina
    Que a fronte cândida inclina
    Ao sopro de casto amor:
    Seu rosto fica mais lindo,
    Quando ela conta sorrindo
    A história do beija-flor.

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