A presidncia do PT para o Lula

Carlos Chagas

Vale insistir no assunto: caso venha a assumir a presidncia nacional do PT, j como ex-presidente da Repblica, o Lula ficar instrumentalizado para dedicar-se reforma poltica. Uma reunio do diretrio nacional do partido ou, mesmo, uma miniconveno extraordinria, bastariam para, por aclamao, dar ao primeiro-companheiro, de direito, a funo que h muito lhe cabe e que jamais deixou de exercer, de fato.

Teria, o Lula, um gabinete e respectivas assessorias onde reunir-se com os lderes do partido e as bancadas. Alis, dois gabinetes, um em Braslia e outro em So Paulo.

Nenhum problema existiria na substituio de Jos Eduardo Dutra, pronto para ocupar um ministrio ou, dependendo das circunstncias, uma cadeira no Senado, primeiro suplente que de um titular tambm cotado para integrar a equipe de Dilma Rousseff.

Assim se delineia o futuro do presidente, bem longe da boataria que um dia o aponta como secretrio-geral das Naes Unidas, em Nova York, outro como diretor-geral da FAO, em Roma, e, nos fins de semana, at presidente da Fifa, na Sua. Nenhuma funo no exterior parece sensibiliz-lo, menos por tratar-se de um monoglota, mais por no abrir mo de dedicar-se ao Brasil.

Haver que aguardar a posse de Dilma Roussef e o perodo necessrio ao merecido descanso do presidente, pelas impresses gerais, no superior a um ms. S depois seria anunciada a deciso.

OS CAAS E O SUPREMO

De volta ao Brasil e depois de, na viagem deSeul,haver conversado horas seguidas com Dilma Rousseff, as indicaes so de que o presidente Lula dever indicar ao Senado o nome do dcimo-primeiro ministro do Supremo Tribunal Federal e, em seguida, anunciar a compra dos 36 avies de caa da FAB, provavelmente os Rafale franceses.

So diversas as opes para o Supremo, valendo ficar de olho nas sugestes do ex-ministro Mrcio Tomaz Bastos. O ideal, para o governo, que antes de 31 de dezembro o Senado possa sabatinar e votar a indicao, mas no se afasta a possibilidade dessa liturgia ficar para fevereiro.

Quanto aos avies de combate, a opo fica por conta do ministro da Defesa, Nelson Jobim, alis considerado o mais eficiente titular da pasta, na opinio dos comandantes das foras armadas.

OS GROTES

Registrava o dr. Ulysses Guimares que, sem dar ateno aos grotes, nenhum presidente se elegeria e, em especial, controlaria a Cmara. Referia-se quela massa de deputados que pouca gente conhece, afastados do noticirio da imprensa e sem maior liderana pessoal, mas fundamentais para o funcionamento da casa. Quando nas suas presidncias, o saudoso comandante dedicava-se a conhecer pelo nome cada um dos 513 deputados, de preferncia com detalhes referentes s suas famlias e regies de origem.

Provindo do PT ou do PMDB, o sucessor de Michel Temer precisar descer ao plenrio e frequent-lo com assiduidade. Tarefa mais difcil num incio de Legislatura, dada a renovao de 40% das cadeiras. Gente nova chegar vida de alguma considerao e de muita ateno por parte do candidato a novo presidente, seja ele Cndido Vacareza ou Henrique Eduardo Alves, cuja eleio depender dos grotes.

UMA DATA A RECORDAR

Quinta-feira transcorreu mais um 11 de novembro, que pouca gente recorda hoje, em se tratando do ano de 1955. Juscelino Kubitschek havia sido eleito presidente da Repblica. Em outubro, mas naqueles tempos bicudos do que mais se falava era de um golpe para impedir sua posse, em janeiro do ano seguinte. Alegavam at que no conquistara a maioria absoluta dos votos, ainda que a Constituio no contivesse essa exigncia.

Ogoverno do presidente Caf Filho era golpista, em maioria, mas para evitar a ascenso de Juscelino ao poder era necessrio o apoio das trs foras armadas. Marinha e Aeronutica dispunham-se aventura, pela posio de seus ministros, mas o Exrcito se opunha. O ministro da Guerra, general Henrique Lott, sustentava o cumprimento da Constituio, de posse ao eleito. Bastaria afast-lo para a procisso sair rua, mas Caf Filho hesitava. Se teve ou no um ataque de corao, dividem-se as opinies at hoje, mas a verdade que licenciou-se. Como tinha sido vice-presidente, sucedendo Getlio Vargas, seu substituto imediato era o presidente da Cmara, Carlos Luz, do PSD mineiro, ao qual JK pertencia, mas seu ferrenho adversrio. Golpista, portanto. Sua misso era demitir o general Lott, usando como pretexto a crise entre o ministro e um coronel, Jurandir Mamede, que dias antes discursara em favor do golpe. Como pertencesse aos quadros da Escola Superior de Guerra, s poderia ser punido por autorizao do presidente da Repblica, que Caf Filho vinha negando, antes de afastar-se, e Carlos Luz no admitia. Tudo armado para desmoralizar o ministro da Guerra.

Episdio grotesco aconteceu na vspera, dia 10. Lott pedira audincia a Carlos Luz para receber o coronel de volta ao Exrcito, e puni-lo, ou demitir-se, conforme publicavam os jornais. Marcada para as quatro horas da tarde, cinco minutos antes o ministro estava na ante-sala do gabinete presidencial, no palcio do Catete. O presidente interino resolveu humilh-lo, fazendo entrar outros ministros, auxiliares e gente de funes variadas. O papel do rdio foi fundamental, pois as principais emissoras entravam com edies especiais, de dez em dez minutos, anunciando que o general Lott ainda permanecia sem ser recebido. Nos quartis de todo o pas a oficialidade ouvia e indignava-se com aquela humilhao ao seu chefe. Afinal recebido, o ministro ouviu que no receberia o coronel de volta e, na mesma hora, demitiu-se. Seu sucessor j estava escolhido em surdina, o general tambm golpista, Fiuzza de Castro. Outro erro de Carlos Luz verificou-se quando Lott indagou se deveria, ainda naquela tarde, passar o ministrio da Guerra ao colega: Deixe para amanh.

Voltando residncia oficial, no bairro do Maracan, o enquadrado general fez como todo dia: s sete da noite j tinha jantado, vestira o pijama e preparava-se para dormir, disposto a entregar sua funo na manh seguinte. Morava na casa ao lado o comandante do I Exrcito, general Odlio Dennis, poca legalista empedernido, que comeou a receber generais e coronis em profuso. Todos irritados com a utilizao do Exrcito num golpe contra as instituies democrticas. Dennis ligava-se a Lott atravs de um telefone de campanha, que acionou, acordando o superior e pedindo que atravessasse o jardim porque uma crise estava se desenvolvendo. O ministro foi e concordou em que deveriam reagir. Foram todos para o prdio do ministrio, defronte Central do Brasil. L, o comandante do I Exrcito surpreendeu, revelando a existncia de ordens secretas para os principais quartis do pas, que botassem a tropa na rua, cercassem os estabelecimentos da Marinha e da Aeronutica e defendessem a legalidade, quer dizer, a futura posse de Juscelino.

J na madrugada do dia 11 as capitais e principais cidades do pas estavam tomadas por soldados do Exrcito, tanques, canhes e toda a parafernlia militar. Lott assumira a liderana do movimento que logo, em nota oficial, foi chamado de Movimento de Retorno aos Quadros Constitucionais Vigentes, um atentado semntica, pois se eram vigentes no precisava haver retorno, mas, de toda forma, um ato em defesa da democracia e do respeito s leis.

No palcio do Catete, Carlos Luz comeou a ser informado da movimentao e telefonou para o general Lott, no ministrio da Guerra. Deu-se a revanche: Lott mandou dizer, pelo telefonista, que estava muito ocupado e no poderia atender.

Os golpistas, com o presidente interino frente, conseguiram refugiar-se nas instalaes da Marinha e embarcaram no cruzador Tamandar, dispostos a fugir para So Paulo, onde imaginavam que o governador fosse golpista. No fim da manh a belonave forou a sada na baa da Guanabara, cercada de fortalezas do Exrcito. Avisado, Lott no teve dvidas: Afundem o Tamandar!

Felizmente estvamos no Brasil, onde os golpes e contragolpes costumam acontecer sem sangue. As fortalezas atiraram, mas propositalmente errando o alvo. O ministro mandou prender os comandantes das baterias mas ter ficado satisfeito porque mortes foram evitadas. O navio tentou chegar ao porto de Santos, desistindo ao ser informado de que o Exrcito dominava o pas inteiro e o general Lott j dera conselhos ao Congresso para votar o impedimento de Carlos Luz, empossando Nereu Ramos, presidente do Senado, na presidncia da Repblica. Os golpistas voltaram ao Rio, desiludidos.

Por tudo isso, ressalte-se que o dia 11 de novembro deve ser sempre lembrado.

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