A primazia da burrice

Percival Puggina

Assumo o ônus da afirmação. Vivemos sob a primazia da burrice. Considero-me diante de inegável sinal de burrice, tão perceptível, tão audível quanto um zurro, quando a mais simples sugestão da racionalidade sobre contas públicas ou definição de funções do Estado é recusada assim: “Essa é a lógica neoliberal!”. Não importa se o autor da expressão se julga tão sábio quanto Nicolas Maduro ou tão cartesiano quanto Lula ou Dilma. A expressão é tola. Ideias se enfrentam com ideias e não com adjetivos. As coisas se complicam ainda mais para todos quando quem se vale de adjetivos para afastar a racionalidade do debate político ocupa relevante função de Estado.

O resultado disso é uma conta devedora, com efeitos tão devastadores sobre a nação quanto o provocado por um rombo de caixa na vida familiar de qualquer cidadão. Habitualmente, governos gastam mal e gastam mais do que arrecadam. Eis por que todo ano – quase ninguém sabe disso – 42 % do nosso dinheiro em mãos do governo vai para o pagamento de compromissos da dívida pública, formada pelo excessivo gasto ao longo dos anos!

Como parte dessa tragédia, quando as pessoas dela tomam conhecimento, em vez de mudarem de atitude em relação ao Estado seus usos e costumes, seus abusos e maus costumes, imediatamente começam a falar em calote, em não pagar a conta, em não nos sujeitarmos aos sanguessugas do sistema financeiro, à lógica neoliberal, aos interesses do grande capital e por aí afora (até parece que estou lendo algum documento da CNBB não é mesmo?).

DESPERDÍCIO DE IMPOSTOS

Primeiro, assistimos o desperdício dos impostos que pagamos em cada caderno escolar que compramos para nossos filhos. Depois, aceitamos, inertes, as regalias, os abusos, os privilégios autoconcedidos, ou arrancados sob pressão das galerias nos parlamentos. Em seguida, convivemos com a ideia de que há, em tudo que é “estatal”, um poço sem fundo, aberto à generosidade e ao interesse público. Logo, colocamos o “privado” sob suspeita do mais perverso egoísmo, avesso à conveniência social. Por fim, assumimos como elevada exigência moral que o sistema financeiro banque eternamente a gastança do governo. E o faça a fundo perdido.

Perdidos ficamos, mesmo, quando a burrice começa a influenciar as opiniões desde as salas de aula do ensino fundamental, com explicações ideologizadas sobre os acontecimentos de cada dia. Ao fim e ao cabo, a burrice acaba sendo a forma de pensar e de governar a nação. Ou, então, o burro sou eu e o Brasil vai muito bem, obrigado.

9 thoughts on “A primazia da burrice

  1. DO TOTAL DE IMPOSTOS EXTORQUIDOS DA POPULAÇÃO:

    50 % é desviado
    50 % é mal aplicado e mal gerenciado

    CONCLUSÃO:

    1 – Centenas enriquecem no judiciário, legislativo e executivo.

    2 – Entra ano e sai ano e tudo continua como antes no quartel de Abrantes
    com o povo sofrendo com a falta de estrutura na saúde, na segurança,
    na educação e no saneamento básico.

    3 – A população continua ABANDONADA.

  2. Tocou no ponto chave: imposto.

    “Primeiro, assistimos o desperdício dos impostos que pagamos em cada caderno escolar que compramos para nossos filhos. Depois, aceitamos, inertes, as regalias, os abusos, os privilégios autoconcedidos, ou arrancados sob pressão das galerias nos parlamentos. Em seguida, convivemos com a ideia de que há, em tudo que é “estatal”, um poço sem fundo, aberto à generosidade e ao interesse público. Logo, colocamos o “privado” sob suspeita do mais perverso egoísmo, avesso à conveniência social. Por fim, assumimos como elevada exigência moral que o sistema financeiro banque eternamente a gastança do governo. E o faça a fundo perdido.”

    Certeiro!
    Sem falar que estas agências reguladoras nada mais são que uma continuidade do velho cabide de empregos.
    Ainda faltou mencionar o “brazilian dream”: concurso público.

  3. Sr. Percival, excelente textura explicitando os nossos principais problemas, ou seja, a má-gestão dos recursos públicos por pessoas incapacitadas/mal-intencionadas e a corrupção sistêmica. Eu penso que a sabedoria está nas coisas simples da vida e, portanto, assim devemos proceder. O que realmente de fato, como cidadãos de bem, podemos fazer para colocar a casa em ordem. Que medidas práticas a sociedade poderia realizar para retornarmos ao desenvolvimento num país tão grande e diverso? Quais instrumentos poderiam ser usados para mudar o rumo da nação?
    Uma das coisas que eu sempre pensei é de quem assume postos de comando (presidente, ministro, diretor de alguma empresa, gestor de fundos de pensão, etc) deveriam responder na medida exata dos seu atos. Errou! não tem problema! Você sofrerá uma investigação, julgamento e, se condenado, cumprirá a pena. Presidente da petrobrás, ótimo! Que prestígio! Comprou refinaria de Pasadena sem ler as clásulas do contrato, gerando prejuízo bilionário ao estado. Não tem problema. você será julgado, condenado, seus imóveis confiscados e talvez privação de liberdade. Juiz do supremo tribunal federal. Julgou a causa em favor de corruptos e corruptores, em detrimento do seu empregador (estado), gerando prejuízos. Tudo bem! O seu salário talvez não seja depositado todo 5º dia útil do mês e talvez comprometa a sua aposentadoria e de sua viúva no futuro. A partir do princípio de botar “o seu na reta” e ser cobrado por isso, a sociedade começa a fazer mudanças de comportamento. Eu vejo o Brasil como um “Boeing” governado por uma cidadã que não tem curso de piloto, auxiliado por co-pilotos fazendo as mais diversas aberrações. Você entraria num aviâo destes? O problema é que estamos em pleno vôo, o avião está caindo e ninguém sabe como proceder. o impacto é iminente.

  4. Com imposto de país socialista e infraestrutura precária, a industria brasileira não consegue competir com ninguém, a não ser em ferro e agronegócio.
    Resultado: tudo que se compra no Brasil custa o dobro do que se compra no resto do mundo.

  5. CONCORDO INTEIRAMENTE COM O ARTIGO:
    54 MILHÕES DE JUMENTOS VOTARAM A FAVOR DO ESTADO PAÍZÃO QUE NA VERDADE TIRA MUITO MAIS DO QUE DISTRIBUI, MAS NA VERDADE PELO MENOS 40 MILHÕES DE JUMENTOS ELEITORES SE CONFORMAM COM UMA BOLSA ESMOLA QUALQUER E FICA REELEGENDO OS MARGINAIS QUE ~CONTINUAM USANDO E ABUSANDO DO PODER.
    NOTE QUE OS ESTADOS MAIS AVANÇADOS E EVOLUÍDOS VOTARAM MACIÇAMENTE CONTRA OS MARGINAIS PETRALHAS MAS OS ESTADOS MAIS ATRASADOS E PARASITAS LHE DERAM A VITÓRIA, TALVEZ ATÉ ILEGITIMAMENTE, POIS HÁ MUITO SUSPEITA DE FRAUDES TANTO NA VOTAÇÃO COMO PRINCIPALMENTE NA APURAÇÃO QUE FOI CONTROLADA COM MÃO DE FERRO PELO PETRALHA TOFFOLI!
    O FATO É QUE TODOS TEREMOS QUE PAGAR PESADAMENTE A CONTA DE TANTOS DESATINOS! MAS DEUS É GRANDE, ESSES MARGINAIS QUE ESTÃO USUFRUINDO DO PODER AINDA PAGARÃO PELOS SEUS MALFEITOS!

  6. Um governo incapaz e desonesto, que tem como principal meta se manter no poder para enriquecimento dos amigos e defesa dos corruptos. Um legislativo que legisla em causa própria, não há sinal de dias melhores.

  7. É um erro afirmar que a dívida existe na forma indicada:
    “Eis por que todo ano – quase ninguém sabe disso – 42 % do nosso dinheiro em mãos do governo vai para o pagamento de compromissos da dívida pública, formada pelo excessivo gasto ao longo dos anos!”.

    Não é verdade. As palavras podem ser as mesmas (42% o governo paga só para o “serviço-da-dívida), o fato pode ser real (gastos excessivos), mas devemos saber e destacar que esta dívida foi gerada falsamente, com muitos juros sobre juros (o que é proibido, diga-se), com muitos títulos emitidos a juros mais altos só para pagar títulos vencendo (o que é proibido, diga-se), com muitas dívidas prescritas reincorporadas a uma nova dívida (o que é proibido, diga-se) etc.
    Enfim o governo gasta muito e muito errado, mas só com o Sistema Financeiro.
    Vejam mais na página da Auditoria Cidadã, http://www.auditoriacidada.org.br.

    De quebra, e disto não se fala, a Constituição (nossa Lei Maior, sabiam?), ela exigiu em 1988 (há 27 anos atrás) uma Auditoria na Dívida Pública de então.
    Pensam que esta Auditoria foi realizada? Não foi, não!
    Com os juros e a própria Dívida se auto-gerando, e se auto-reproduzindo, a Auditoria constitucional está hibernando, quietinha, com muito poucos empurrando para fazê-la acontecer.
    A OAB Federal, tem uma ação no STF a respeito a ADPF 50/2004 (de 12 anos atrás!), buscando a realização desta Auditoria. E nada de autorização do governo. Porquê?…
    Seria cômico, não fosse trágico.

    E, por último, como já citei muitas vezes nesta Tribuna, na Constituição (nossa Lei Maior, sabiam?) há o artigo 166, parágrafo 3º, inciso II, alínea b), que privilegia o “serviço-da-dívida” e impede a sua discussão no Congresso, especificamente (sabiam?).

    Pois saibam quantos lerem este comentário, que este artigo específico, o artigo 166 da Constituição de 1988, na sua sua redação atual, vigente há 27 anos, não foi votado regularmente na Constituinte. Isto mesmo! Este artigo, que privilegia o serviço-da-dívida financeira da Nação, NÃO FOI VOTADO CORRETAMENTE NA CONSTITUINTE !

    Este artigo foi fraudado, vale dizer, sua redação foi inserida (sem discussão e sem votação no 1º turno) no texto constitucional submetido à votação do 2º turno, por meio de requerimento eivado de mentiras, de inverdades, de ilegitimidades.

    Mas ninguém viu ou quis ver, e mesmo agora, quando se viu, ninguém bateu de frente para recolocar o artigo 166 na sua redação original ou, pelo menos, eliminar a redação fraudada. A partir da sua votação no 2º turno, e de sua validação constitucional, muita coisa foi feita no aspecto legal, mas apenas para cumprir a Constituição neste item fraudado: a Lei de Responsabilidade Fiscal, os delírios do superávit primário, as DRUs, os cortes orçamentais, o Banco Central independente, as privatizações delirantes etc., tudo para se pagar os juros garantidos pela fraude constitucional que até hoje, apesar de algumas tentativas, ainda não teve ataque eficaz.

    Esta fraude não sou eu quem afirma, foi o Nelson Jobim que confessou sua autoria em 2003, numa entrevista ao Correio Brasiliense. Deu para ver, depois do que fez, como Jobim progrediu na vida e na política, “ministrando” para o FHC, para o Lula e para a própria Dilma, até se encher e se retirar.

    Já citei este fato aqui na Tribuna por diversas vezes, sem muita repercussão.
    Porque é difícil perceber a extensão do dano que esta fraude constitucional provoca.
    Sentimos no bolso e nas contas, agora, mas os caminhos não são muito visíveis.
    Isto também está colocado no site da Auditoria, bem como os resultados da CPI da Dívida em 2010, até hoje, também, 5 anos após, sem um passo à frente para regularizar o que ali se apurou.

    Por isto refuto a acusação simplória de que esta dívida existe porque o governo gasta muito. Gasta sim, graças a uma fraude que ninguém elimina, dirigida especificamente a favor do Sistema Financeiro. Gasta sim, graças a uma Auditoria prevista na Constituição e até hoje não realizada, o que beneficia especificamente o Sistema Financeiro. Gasta sim, graças a uma omissão na correção de diversas ilegitimidades apuradas na CPI da Dívida de 2010, o que beneficia especificamente o Sistema Financeiro.

    Por derradeiro, enquanto aqui no Brasil a Dívida e os juros dela aumentam, a fraude constitucional permanece e a Auditoria Constitucional nos é negada, a Grécia acaba de convidar uma brasileira, Maria Lucia Fattorelli, para integrar a Comissão que fará uma Auditoria na Dívida Grega para eliminar a parte ilegítima dela, que existe e todos lá sabem muito bem a origem.

    Esta brasileira, auditora-fiscal, já participou da Auditoria do Equador, quando o governo Rafael Correa eliminou, com provas, 70% da dívida equatoriana de então, 2007/2008. Foi tão verdadeira a comprovação da Auditoria realizada que 95% dos credores aceitaram entregar seus títulos pelos 30% oferecidos e não falaram mais nada.
    E os 5% que não o fizeram não reclamaram.
    Agora a Grécia fará a mesma coisa, quem viver verá.

    E aqui no Brasil? Sabemos o que precisamos fazer, mas não nos deixam fazer.
    Gasta-se muito com juros e gasta-se errado, conforme citado acima, por conta da fraude e omissão constitucionais.
    E fala-se muito, também, e fala-se errado do motivo destes gastos financeiros e quem os promoveu e promove.
    Sem falar que cala-se vergonhosamente quanto ao resto, de corrigirmos a fraude do art. 166 e efetivarmos a exigência constitucional da Auditoria do art. 26 das DT.

    Enfim, mais uma vez exponho, não tão rapidamente, este tormentoso assunto.
    Quem sabe um dia a casa cai, vale dizer, cai a casa financeira que nos atormenta.

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