À procura de uma saída


Vittorio Medioli

Quem tenta demonizar as manifestações e os manifestantes, definindo-os como “despolitizados”, evidentemente não entendeu o sentido dos acontecimentos ou prefere confundi-los, imaginando que ainda existe margem para a enganação. Outra bobagem: “mídia de direita”. Pois é emparedada e acuada e torce sem desdém para tudo acabar rápido. Não é certamente ela cúmplice do levante popular, mas alvo da contestação, de carros incendiados e restrições ao exercício de ficar presente.

Não serão, certamente, um plebiscito ou um referendo fórmulas suficientes para escapar do deserto de alternativas e se chegar a calar o levante, mas fundamentalmente eleições, que refrescarão o país assolado. Novos compromissos, rediscussão do papel de Estado e das prioridades, tremendamente confusos, mesmo com o risco que representa a inexperiência de um contingente de calouros que ocupará parte relevante das cadeiras do Congresso e os mandatos eletivos em jogo.

Precisam os manifestantes ficar em alerta, ainda, pela tentativa de aprovar “listas fechadas” e “financiamento público”, proposta do PT, já na fila de votação, que representarão um golpe continuísta, reservando candidaturas e recursos públicos para esses mesmos parlamentares que ocupam, com severa insuficiência política e moral, os cargos. Pois o que pode se esperar, num momento que aponta para grandes mudanças, é a tentativa de inviabilizá-las. Defesa do status quo, mais precisamente “aqui cheguei e daqui não vou sair nunca”.

Surge nesse momento a incapacidade de respostas dos governantes, destaque especial para Dilma Rousseff. Difícil e esquiva a conversas e audiências, agora recebe pessoas catadas às pressas nas ruas para “ouvir” o que na antessala se acertou. Essas e outras atitudes mostram o desnorteamento e quanto grande era e continua sendo a incompreensão das falhas “geológicas” do sistema político tupiniquim. Os tremores eram previstos e anunciados, ainda cutucados pelo distanciamento dos problemas sociais.

OPÇÕES ERRADAS

Estádios no lugar de creches e hospitais, trem-bala no lugar do metrô e melhoria de viabilidade, transposição do São Francisco no lugar de saneamento, açudes e cisternas; pré-sal e abandono do álcool; usinas elétricas na Amazônia e nada de energias alternativas. Interessante ver que todos esses equívocos têm em comum grandes licitações, grandes grupos econômicos e financiadores de campanha. Negócios de dezenas de bilhões de reais capazes de inviabilizar qualquer controle mais sério do TCU.

Muita autoconfiança, certeza de que a compra de votos, proibida pela lei e permitida apenas ao governante, poderá repetir o velho sistema coronelista de dar um sapato antes das eleições e outro depois. Cerca de 12 milhões de bolsas para famílias garantem 25 milhões de votos. Daí em diante, qualquer adversário é ficha pequena.
A compra é certificada debaixo do nariz do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em pleno programa eleitoral, desencadeando ondas de terror, espalhando que o adversário cortará o programa e ainda cometerá horrores em relação à miséria.

Essa certeza da “compra do voto pelo estômago” foi explicada pelo ex-presidente Lula no programa eleitoral de 2000, num dos momentos de maior clareza e descortino. Afirmou que isso muda o destino de eleições. Assim, a antiga bolsa-escola, que seu predecessor instituiu como prêmio de assiduidade à família que mantinha o filho frequentando as aulas, passou a ser distribuída com critério de pobreza, facilmente falsificável.

REFORMAS MORAIS

As reformas deveriam considerar isso, e os governantes deveriam enviar propostas de lei para moralizar eleições, restringi-las ao debate e a filmagens realizadas com smartphone. Isso se fossem honestos e decidissem poupar recursos inúteis. Quem disse que o Estado tem que bancar campanhas? Bastaria limitá-las em seus gastos, e não garantir apenas recursos a quem está no cargo.

A infalibilidade da compra pela esmola deve ser questionada e tirada do debate político eleitoral, para não ser um fator que agride a livre escolha. Quem está nas ruas é gente farta de demagogia e ladroagem oficializada. Isso precisa ser discutido no horário nobre da televisão, abrindo espaço ao debate, à voz que é calada por propagandas oficiais, descaradas nestes dias de incerteza. Nunca se anunciou tanto e para mostrar irrealidade, maquiar fracassos da Petrobras, uma ex-potência enfraquecida pelo saque de políticas perdulárias, eleitoreiras, impatrióticas.

Os manifestantes, que são torados com audiência e mimos, propostas de medidas, não se iludam. Exijam medidas reais e contra a corrupção em todos os níveis, em todas as vertentes. A crise é devida à imoralidade, e ela tem suas chagas expostas. São elas que precisam de reparo.

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3 thoughts on “À procura de uma saída

  1. Prezados finalmente alguém para ilustrar um pouco os leitores.

    Os problemas do Brasil são tão grandes e evidentes que mesmo sendo cego é possível enxergar, não percebem os desgovernos, em todos os níveis, que é preciso cuidar da casa toda e não apenas na sala. Educação é a base de tudo, não é dando bolsas de estudos em escolas privadas, ou estabelecendo cotas, de qualquer natureza, que se resolve o problema da educação.

    Precisamos de escolas de nível básico, técnicas e universitárias, públicas de ótima qualidade.

    Foi ótimo aprovarem os royalties do petróleo para a educação, mas pouco vai adiantar se continuarem a insistir burramente em dar bolsas de estudo para alunos pobres estudarem em escolas privadas onde se persegue o lucro, onde o compromisso não é com a qualidade de ensino e a formação de seres humanos o que essas escolas perseguem é o lucro fácil.

    Políticos e governos querem é ganhar dinheiro, manter os pobres na miséria e garantir seus lucros cada vez maiores. Não percebem esses senhores, que cada vez mais a diferença social enterra o desenvolvimento e o progresso de cada brasileiro e cada estado e do País inteiro.

    As elites, de esquerda e de direita, estão cegas, uma pelo poder que falsamente exerce e a outra porque acha que se manterá assim para sempre. A voz das ruas finalmente se faz ouvir e é muito clara, um basta aos privilégios e corrupção, a conivência com o roubo e o desvio de dinheiro público, a aplicação equivocada e dirigida de recursos públicos para os bolsos dos amigos e da iniciativa privada, a criação de dificuldades para vender facilidades, a politicagem ao invés da política e o velho e surrado modelo político que privilegia quem já tem privilégios e cria uma legião de acima da Lei e do bem e do mal.

    É preciso acabar já com todos os guetos de privilégios e privilegiados, de aposentar políticos, por serem políticos, de pagar a esses mesmos políticos salários exorbitantes, aposentadorias privilegiadas para juízes e desembargadores, porque tantas formas de aposentadorias? Porque tantos privilégios, para manterem as castas e classes dominantes e continuarmos sendo escravos, é claro, mudando de tempo em temo os senhores que nos mandam.

    Está na hora desse contrato ser cumprido por ambas as partes e não apenas por quem paga a conta de tudo e de todos, estamos entre os três países no mundo onde o povo paga mais impostos, os outros dois países estão entre os primeiros em qualidade de vida e desenvolvimento social, enquanto isso estamos na lanterninha de tudo, comparáveis somente com alguns países da África, alguns países desse continente estão em melhor situação que o Brasil.

    Então é chegada a hora de realmente exigir um Brasil rico para os brasileiros e não apenas para uma parte já rica desse nosso País, ou as elites entendem de uma vez por todas que o mundo mudou, ou o mundo os muda, em nosso caso, o movimento popular vai mudar a cara do Brasil.

    É preciso apenas ter muito cuidado com o canto das sereias, de esquerda e de direita, político é muito bom em se aproveitar dessas situações e posar de salvador da pátria, senão vejamos o que está sendo aprovadas a toque de caixa em Brasília, algumas coisas boas e outras nem tanto, tudo visa dar a impressão que estão atendendo a voz das ruas, na verdade estão tentando ficar onde estão e manterem as aparências para as próximas eleições, é preciso não se deixar enganar e continuar protestando, pois estamos longe de termos obtido coisas concretas.

    Transporte público, escolas públicas, saúde, habitação, emprego, meio ambiente, etc…não podem ser pautas de um governo e/ou eleitoreiras, precisam ser pautas permanentes de uma política que visa mudar o Brasil para melhor e não apenas para alguns milhares de amigos do poder e dos políticos de plantão, dos amigos do governo e dos poderosos que entre a sai governos e estão sempre ali, financiando as campanhas políticas e depois se beneficiando de todas as formas de corrupção possíveis para tirar proveito e dividir os lucros com os eleitos.

    Até quando continuarão intocáveis os bens e o patrimônio formado em um ou dois mandatos políticos, até quando a corrupção vai beneficiar e garantir aos corruptos e corruptores a continuarem gozando das benesses dessa sujeira toda?

    Vamos torcer, apoiar tudo o que está sendo motivo de passeata e manifestação até o final ou perderemos mais uma vez o rumo da história, do progresso e de um futuro melhor, de mudanças significativas que passam pela modificação do nosso sistema político, social e econômico, os brasileiros e o Brasil merecem.

    Olho vivo, nada de achar que está tudo resolvido ou que as principais demandas estão sendo atendidas, precisamos continuar lutando para que se faça luz, a luz necessária ao nosso desenvolvimento social, político e econômico, para termos um Brasil verdadeiramente mais próximo da justiça social.

  2. Pingback: À procura de uma saída | Debates Culturais – Liberdade de Idéias e Opiniões

  3. As manifestações que estão acontecendo são muito legítimas em face das grandes carências do bem estar social do Povo brasileiro, mas têm algo que necessita ser melhor esclarecido porque a revolta não partiu dos pobres trabalhadores muito mal remunerados que lutam para sobreviver. A idéia partiu de algum espertalhão interessado em ficar mais próximo do O.G.U. e tem que começar derrubando o prestígio de D.Dilma. Vamos esperar um pouco mais para conhecer o vilão

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