A queixa das massas: ‘Você abusou, tirou partido de mim, abusou’

Acílio Lara Resende (O Tempo)

Desde as primeiras manifestações de rua, e mesmo ciente de que há nelas uma minoria de radicais (na direita e na esquerda), de aproveitadores, de bandidos ou trombadinhas, não me sai da cabeça a letra de uma das canções preferidas do grande Toquinho. De autoria de Antônio Carlos e Jocafi, a composição, de 1971, alcançou enorme sucesso. Foi gravada em vários países e, na França, ganhou o nome de “Fais comme l’Oiseau” e se tornou o hino do Partido Socialista. O compositor Michel Fogain foi o responsável pela sua versão (fala-se que, depois, de má-fé, a registrou em seu nome…): “Você abusou, tirou partido de mim, abusou”. E não é isso o que vêm fazendo, ao longo de anos, com o sofrido povo brasileiro, os nossos “adoráveis” políticos?

A presidente Dilma e o copresidente Lula, em primeiro lugar; o Congresso Nacional, em segundo; os governadores e as assembleias legislativas, em terceiro; e, por fim, os prefeitos e as Câmaras municipais, em quarto, são, em sua maioria, os responsáveis pelos maus-tratos de que tem sido vítima o povo brasileiro. Deixaram de lado a ideia de governo pelo povo e para o povo. Querem nos tutelar. São nossos representantes, eleitos por nós, mas pretendem ser, na verdade, nossos tutores e, como tal, tirar proveito dessa humilhante condição.

Seríamos injustos se não incluíssemos, no rol acima, o Poder Judiciário, em todas as suas esferas, como culpado também por essa insatisfação geral. E nem se precisa descer a detalhes, pois sua morosidade, além de injustificáveis privilégios, já explicaria sua inclusão.

PERDIDA NO TIROTEIO

E quem, leitor, terá sido o conselheiro da presidente quando ela, perdida em meio ao tiroteio de manifestações procedentes e justas, compareceu à televisão para nos dizer que as ruas precisavam de resposta urgente. Anunciou-nos, então, em reunião com governadores e prefeitos, cinco pactos: responsabilidade fiscal, reforma política, saúde, educação, transporte público e mobilidade urbana. E “propôs” ao Congresso Nacional, simplesmente, uma “constituinte exclusiva”. Uma excrescência jurídica! E governadores e prefeitos voltaram às suas bases infelizes, decepcionados e certos de que serviram, apenas, de bois de presépio: o que anunciava a presidente dependia só deles. Um desastre!

Com os burros n’água, a presidente, provavelmente aconselhada pelo seu marqueteiro, guru e vidente João Santana, “propôs” ao Congresso um plebiscito (medida de competência privativa do Poder Legislativo) sobre a tão propalada reforma política: fim da suplência de senador e do voto secreto, manutenção das coligações partidárias, forma de financiamento de campanha e sistema político. Outro desastre!

Não foi a reforma política, porém, que levou (e levará) o povo às ruas. Um plebiscito, agora, para quê? Para demonizar mais ainda o Congresso Nacional? Ou para, enfim, botar em prática algumas das inconfessáveis pretensões autoritárias do PT? Como confiar, leitor, num plebiscito sugerido por um governo que, até outro dia, tudo fez para aprovar, na Câmara, um projeto de lei casuístico, cuja única finalidade é impedir, por não lhe interessar, a criação da Rede Sustentabilidade?

“O preço da liberdade é a eterna vigilância!”

Valha-nos, Deus!

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2 thoughts on “A queixa das massas: ‘Você abusou, tirou partido de mim, abusou’

  1. Sem partido! Sem partido!

    David Coimbra

    Todos concordamos, não é? O brasileiro é um povo ordeiro e bom, representado por políticos desonestos e maus. Ontem mesmo vi um sujeito atirar uma bola de papel pela janela do carro, sujando a rua, e pensei: lá vai um maldito deputado! Aqueles seis bandidos que invadiram a casa de uma família boliviana, em São Paulo, e mataram um menino de cinco anos de idade porque ele chorou. Só podem ser deputados. Pela natureza do crime, talvez sejam senadores. Os sujeitos que andam queimando viaturas da polícia. Não duvido que sejam vereadores, sabe como são esses vereadores.
    As pessoas que se aproveitam das manifestações para quebrar, saquear e assaltar, essas pessoas, evidentemente, são presidentes de partidos. No Rio, vi uma senhora de joelhos na calçada em frente a sua loja. Implorava, de mãos postas, para que os manifestantes mascarados não roubassem seu estabelecimento. Eles riram dela e a roubaram. Também deviam ser presidentes de partido. Ou, quem sabe, alguns desses suplentes escorregadios.
    Os furadores de fila, os sequestradores que atacam sob os semáforos, os golpistas que ligam para o seu celular, os inoculadores de vírus na internet, os adulteradores do leite das criancinhas, os homens que batem nas mulheres, as mães que deixam os filhos abandonados pelas ruas, os flanelinhas que riscam os carros, os leitores grosseiros, os jornalistas venais, todos os que, todos os dias, iludem, burlam e enganam, todos são, nós sabemos, malditos parlamentares.
    Se não fossem esses políticos, que país maravilhoso seria o Brasil. Temos mesmo que implodir a democracia representativa e gritar, como ouvi a massa gritando nas manifestações:
    – Sem partido! Sem partido!
    A massa é um monstro sem cabeça, já dizia Charles Chaplin, adaptando Marx. Curiosamente, era disso que as massas se orgulhavam nas manifestações: de não haver cabeça; havia só corpo.
    – Sem partido! Sem partido! — gritavam, e queriam dizer: vocês, que nós mesmos escolhemos para nos representar, não nos representam.
    Por que não representariam? Porque, afinal, somos um povo ordeiro e bom representado por políticos desonestos e maus. Agora, se não for nada disso, se a democracia representativa funcionar, como funciona em todo o mundo, e o Congresso for apenas um espelho do que é o povo, meu Deus, não quero pensar nisso. Porque não vai adiantar quebrar o espelho.

    Texto publicado em Zero Hora (RS) em 5/7/2013

  2. Quem sou eu para contestar um artigo do Davi Coimbra, mas ele ficou muito em cima do muro, e está se desequilibrando.
    Em suma, não prestamos. Nossos parlamentares, que são o espelho da sociedade, são inocentes das falcatruas que cometem, da corrupção que institucionalizaram, de suas desonestidades, pois são os nossos representantes e estão fazendo exatamente o que faríamos em seus lugares!
    Bah, a isso chamo de sofisma, e pobre na argumentação em querer que se transforme em verdade a suposta idéia do cronista.
    Ledo engano.
    Os políticos atualmente representam a si próprios, e não ao povo;
    Estão a serviço das alianças, de seus interesses e conveniências;
    Se hoje atuam com tamanha deslealdade, imoralidade e desfaçatez, eles imitam a ELITE BRASILEIRA, que nos explora, assalta, rouba, que nos deixa na miséria e dependentes;
    E, somos, sim, um povo ordeiro e bom, caso contrário este País já teria enfrentado várias guerras civís por conta dos desmandos de seus governantes e, principalmente, pelo escárnio das elites, repito, que, entra e sai governo, e elas continuam a se beneficiar deste povo ordeiro e bom.
    Eu adicionaria apenas um adjetivo, que o articulista da ZH NÃO TEVE A CORAGEM DE ESCREVER:
    Somos BABACAS, mas ordeiros e bons, sim.
    Os parlamentares que se transformaram em castas, e que são malditos e maus!
    Então, eu teria aplaudido o artigo em questão.

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