A rainha dos votos e herdeira do peronismo

Pedro do Coutto

Com a vitória espetacular de Cristina Kirchner nas urnas, tornou-se a rainha dos votos na Argentina e herdeira do peronismo que resiste ao tempo e atravessa mais de seis décadas. Vai de vitória em vitória. Venceu disparada no primeiro, não houve segundo turno, tradição popular do legado de Juan Domingo Perón. O movimento justicialista (Partido Justicialista) começou com a vitória do próprio em 1948. Reelegeu-se em 52, mas foi derrubado do poder por uma insurreição militar desfechada a 3 de outubro de 55, exatamente quando Juscelino Kubitschek elegia-se presidente do Brasil. Deixou o país numa canhoeira, conseguiu chegar a Assunção e depois foi para o exílio na Espanha, no bairro de Puerta Del Ferro.

Eva Perón, que atuou intensamente na campanha de 52, morreu em 53. Ele tentou fazê-la sua vice na reeleição vitoriosa, mas houve veto militar do qual não conseguiu desvencilhar-se.

Do exílio em Madri, após interrupção ditatorial, comandou a campanha de Arturo Frondizi. Novo êxito. É uma coincidência: era o ano de 58 e Frondizi alcançou 58% da votação. Deposto Frondizi em 60, a primeira eleição seria em 63. Perón, da Espanha mandou votar em Arturo Ilia. Mais uma coincidência: era 1963 e Ilia obteve 63% dos votos. Os militares intervêm novamente. Cai Arturo em 66. Retorna a ditadura. No governo depois de uma sequência de generais e almirantes, deixando crimes em sua trilha sinistra. Lanusse decide anistiar Perón, promover seu retorno triunfal a Buenos Aires. E também convocar eleições.Surge a candidatura de Hector Campora.

Começa a campanha em 72. Elena e eu estávamos na Argentina. O povo gritava nas ruas: Campora no governo, Perón no poder. Juan Perón retorna à sua terra no ano seguinte. Do aeroporto de Ezeiza, uma multidão na estrada até Buenos Aires. Morrem de emoção quinze pessoas. Chega o momento das urnas: Campora vence com 55%.Mas Campora tem compromisso com Perón, e, fiel ao peronismo, renuncia. Antes porém, é claro, convoca o pleito.Perón arrebata nova vitória: 65% do eleitorado que vai às urnas em delírio. Desta vez consegue tornar Maria Estela (Isabelita) sua mulher, vice presidente. Mas Perón morre pouco depois da consagração. Maria Estela assume, mas acaba deposta por mais um golpe militar. Generais de novo no poder.

Porém em 82, realizam-se eleições. Neste pleito, a única derrota do peronismo em 63 anos: Italo Luder perde para Raul Alfonsin. Mas o PJ ressurge com Carlos Menen, eleito e reeleito. A política de Domingo Cavallo, ministro da Economia, derruba a popularidade de Menen. O peronismo se fraciona e Cacho Alvarez, peronista, assume uma dissidência e torna-se o vice de Guilhermo Ruas. Mantém Cavallo na pasta e tal decisão causa seu desabamento. Alvarez renuncia, o peronismo se reunifica, vence disparado Kirchner e agora, mais disparado ainda com Cristina. O peronismo é o único movimento político a atravessar o tempo.

Há na história mais dois grandes detentores de votos: Roosevelt e Getúlio Vargas. Mas o new deal terminou com a morte do primeiro, o varguismo com a morte do presidente de nosso país.Qual a razão de o peronismo sobreviver? Desafia a sequência do tempo. Só pode ser uma: consegue dar resposta ao anseio e à esperança popular. Seja como for, sua essência continua impulsionando aqueles que Perón chamava em 48 de descamisados, mas que agora são operários que lutam para preservar seus salários, o contrário do que aconteceu no ciclo militar. Lutam e estão conseguindo êxito.

Caso contrário Cristina Kirchner não poderia ter vencido da forma com que venceu. O capital de um lado, o trabalho do outro, o equilíbrio no meio. Ferreira Gullar escreveu domingo na Folha de São Paulo sobre as revoltas que explodiram – e estão explodindo – no Oriente Médio. Não só lá. Mas na Grécia, Itália, Espanha, Portugal, França. Falta a esses governos, digo eu, o sentido social de resposta. Não importa o caráter ideológico. Quando desmorona a esperança evaporam-se os votos. Não foi este o caso da Argentina.

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