A reao de temer: incidente ou acidente?

Carlos Chagas

Sem nenhuma referncia famlia Sarney, o Maranho parece no fazer bem ao presidente Lula. Foi l, semana passada, que ele soltou a lngua e utilizou mais de uma vez aquele substantivo de cinco letras significando matria orgnica. Pegou mal, apesar de sabujos e socilogos sustentarem ter sido o chefe do governo autntico como um torneiro-mecnico. Afinal, estava num palanque, no na frente de um torno.

De qualquer forma, foi tambm no Maranho que o Lula atropelou no apenas o vernculo, mas o PMDB. De caso pensado, anunciou a inteno de decidir quem ser o vice de Dilma Rousseff a partir de uma lista trplice de peemedebistas, no aceitando a indicao de um s.

Ora, o um s tem nome e endereo na lista telefnica de So Paulo: chama-se Michel Temer, presidente da Cmara e presidente licenciado do PMDB. Mesmo sem muita certeza de querer partir para a aventura petista, o deputado sentiu-se ofendido e agora reagiu.

Na conveno paulista do partido, domingo, deu fora a Orestes Qurcia, que oscila entre apoiar Jos Serra ou a candidatura prpria do governador Roberto Requio. Tambm referiu-se explicitamente lista trplice, acentuando no ter sido uma fala feliz do presidente da Repblica. Acrescentou que o PMDB jamais diria ao PT o que fazer, em nome da soberania interna. E jogou sobre os ombros do Lula a responsabilidade sobre o suposto lanamento de seu nome, ao dizer que ele, Temer, poderia ser o vice. Sua resposta, na poca, foi mais mineira do que paulista: Vamos primeiro fechar a aliana e depois verificar qual o nome que soma melhor para a candidata.

O presidente da Cmara anda irritado, a partir de denncias de que estaria entre os beneficiados pelo mensalo do governador Jos Roberto Arruda, de Braslia. Por isso reagiu lista trplice do presidente Lula e at acrescentou pimenta no prato j condimentado de sua irritao. Prometeu levar conveno do PMDB, em junho, a proposta da candidatura prpria do governador Roberto Requio, da mesma forma como no descartou uma aliana com os tucanos de Jos Serra. Em suma, haver que aguardar para saber se estamos diante de um pequeno incidente de percurso no processo sucessrio ou de um acidente de razoveis propores.

Malandros de l e de c

Instalou-se na noite de segunda-feira, em Braslia, a Conferncia Nacional de Comunicao, patrocinada pelo governo. Setores mais esquerda da mdia oficial esto propondo o que chamam de controle social dos meios de comunicao, alguma coisa um tanto confusa que se exerceria atravs de conselhos compostos pelo prprio governo, em condies de cheirar a censura prvia.

No reverso da medalha, os bares da grande imprensa, a comear pela eletrnica, tomados de arrogncia e de medo, decidiram boicotar a Conferncia. Com a Abert e a ANJ frente, no comparecero, deixando espao vazio para aventuras retricas mais capazes de fazer fumaa do que fogo.

De parte a parte, prevalece o radicalismo. Bem como a prtica de enxugar gelo. Entre os temas que certamente no sero debatidos esta semana est o da desmedida propaganda do governo nos meios de comunicao. Sadas dos cofres das empresas estatais e da administrao direta, fortunas so dirigidas, todos os meses, para televises, rdios, jornais, revistas e sucedneos. Seria apenas para os leitores, ouvintes e telespectadores abastecerem seus carros nos postos da Petrobrs? Para abrirem contas no Banco do Brasil e na Caixa Econmica? Ou para obterem a boa vontade dos noticirios e comentrios da mdia que nada tem a ver com consumo de gasolina ou investimentos financeiros?

O curioso nessas operaes que as empresas agora pretendendo sabotar a Conferncia Nacional de Comunicao no reclamam do dinheiro que abastece seus caixas. Pelo contrrio, at exigem mais. Muito menos o governo desperta para o desperdcio. Numa palavra: malandros h, l e c.

Chamuscado mas no queimado

Salvo milagre ou inusitado, o governador Jos Roberto Arruda, do Distrito Federal, encontra-se garantido em seu mandato. No ter seu impeachment decretado pela Cmara Legislativa ou, muito menos, ser posto para fora atravs de ao penal a tramitar na Justia. Neste caso, porque bons advogados e prolongados recursos fariam qualquer processo estender-se at muito depois de 31 de dezembro de 2010. No primeiro, porque pelo menos dezesseis dos vinte e quatro deputados distritais pertencem copa e cozinha do governador.

Como a indignao pblica da populao local tende a esvaziar-se, melhor ser a populao conformar-se em que, no mximo, poder votar melhor no prximo outubro, ao contrrio de como votou naquele ms, em 2006.

Murro em ponta de faca

Prepara-se o presidente Lula para daqui a poucas horas, em Copenhague, dar mais alguns murros em ponta de faca. Se tiver sido alertado, leva em sua bagagem algumas luvas de ferro. Porque no conseguir mudar a tendncia dos pases ricos de eximirem-se das causas do aquecimento global e, muito mais, de contriburem para melhorar o meio ambiente atravs de recursos de seus tesouros.

No deixa de ser chocante verificar que Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, China, Japo e outros utilizaram, h pouco mais de um ano, trilhes de dlares para salvar seus bancos falidos. Salvaram o sistema financeiro mundial, o mesmo que j volta s prticas anteriores de explorao e especulao contra suas populaes e, em especial, contra os pases pobres e em desenvolvimento.

Mas reservar recursos para salvar o planeta, de jeito nenhum. Cada um que cuide de si, deixando de seguir-lhes o exemplo centenrio e ainda praticado, de devastar o meio ambiente. No h Obama que d jeito, at porque, alm de no poder, no quer. Melhor atuar para que a Amaznia seja transformada num imenso jardim botnico. E s nossas custas, at que um dia, no futuro, antes de o planeta explodir, eles tenham internacionalizado a regio…

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