A Rede Globo e as Olimpíadas, o meio e a mensagem

Pedro do Coutto

A titular da coluna da Folha de São Paulo, Keila Jimenez, na edição de 16 de abril, afirmou que a direção da Globo desistiu da ideia de reforçar a equipe da Sport TV para enfrentar a Record na luta pela audiência em torno das Olimpíadas deste ano em Londres. Vai à luta, acentuou a repórter, com o próprio time da emissora que opera a cabo: Milton Leite, Luís Carlos Júnior, Roby Porto, Marcelo Barreto, Paulo Cesar Vasconcelos, entre outros. Galvão Bueno está fora, da mesma maneira Cléber Machado, Luis Roberto e Tiago Leifert.

A Globo, uma das maiores e melhores emissoras do mundo, posição conquistada principalmente pela qualidade de sua imagem, fruto de uma conjugação impecável de cor e forma, não sei porque perdeu os direitos de transmissão para a Record na TV aberta.

Erro muito grande, repetição da falha cometida pelo Bonifácio Sobrinho, em 84, quando ignorou o desfile das escolas de samba e entregou a liderança da audiência à Manchete. Era a inauguração do Sambódromo de Oscar Niemeyer. Paulo Montenegro, meu amigo, pai do Carlos Augusto, atual presidente do IBOPE, me disse na época o desfecho: TV Manchete 47 pontos, Globo 7%. Menor índice da história da Vênus Platinada em horário noturno.

Comprovou-se assim que a teoria legada por McLuhan nem sempre funciona na prática. O meio não é mais forte do que a mensagem. Entre conteúdo (a mensagem) e a forma (o meio) o que, a meu ver, prevalece é uma sintonia semelhante à entre o jóquei e o cavalo. A do piloto de Fórmula I e a potência e estabilidade do carro. Uma coisa não se sobrepõe à outra. Convergem.

É claro que a mensagem mais forte veiculada pela Globo repercutirá sempre muito mais do que transportada por uma rede menor. Não estou negando tal evidência. O que refuto logicamente é que o meio não substitui a mensagem. McLuhan errou nesse ponto. E alguns comunicadores repetem a bobagem até hoje. Reinaldo Jardim que já morreu era um deles.

É que uma tese inteligente entusiasma e obscurece a própria inteligência de uma ou duas correntes de pensamento. Perde a coragem de contestar a vestal e, com isso, traduzem mal diversos episódios e situações humanas. Esquecem que se não houver dúvida e contestação não pode haver progresso. Galileu e Einstein foram contestadores frontais de teorias que se apresentavam como cristalizadas. E não era nada disso. Mas esta é outra questão.

Para arrematar, pode-se dizer sem medo de equívoco, que não existe no mundo veículo de comunicação, por mais forte que seja, que se torne capaz de vencer a verdade. Palavra eterna e intransponível. Mas a família Roberto Marinho vai ao combate com a Record com a equipe própria da Sport TV, num confronto entre a TV aberta, presente nos 62 milhões de domicílios brasileiros, e os 12 milhões de assinantes dos canais a cabo.

Depois do desastre na derrota na concorrência, a Globo joga uma cartada bastante lúcida. Se a Sport TV perder para a Record, será normal. Porém se vencer, ou empatar, terá marcado um lance excepcional. Alavancará o sistema de televisão a cabo e mostrará que a TV Record não é páreo para Vênus Platinada.

Assim como na cobrança de um pênalti. A responsabilidade é toda de quem bate. O goleiro, se defender, é um herói. Não tem obrigação de pegar.E La Nave Va. Mas a Globo, penso eu, talvez tenha custado um pouco a decidir entrar em campo em Londres com somente a equipe da Sport TV, aliás muito boa. Primeiro pensou em reforçá-la mobilizando Galvão Bueno. Mas este, segundo publicou a Veja, não desejou. Criou-se aí uma atmosfera sensível.

Cidadãos Kane não aceitam ser contrariados. E então o diretor presidente, Roberto Irineu Marinho, aproveitou a chance: a Globo pode vencer sem Galvão, através da Sport TV. Os fatos, sempre os fatos, confirmarão uma perspectiva ou outra.

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