A renúncia não elimina os conflitos de sua origem

Pedro do Coutto

A renúncia do Papa Bento XVI pode dar início a uma nova fase da Igreja de Roma, porém não elimina os conflitos de sua origem .São muitos, vários deles acentuados por Joseph Ratzinger, como escândalos financeiros, não punições a casos de pedofilia, vazamento de documentos e até hipocrisia, colocada em relevo. Um escândalo universal, sobretudo porque o Vaticano não é somente a sede do Papado, é também um Estado. Assim, mais uma vez através da história verifica-se a contradição entre a fé e o poder, a existência e a eternidade, o corpo e o espírito, a religião e a ciência.

Matéria primorosa a respeito do tema, a precisão histórica excepcional foi a que o jornalista Mário Sabino, correspondente da Veja em Paris, publicou na edição que se encontra nas bancas. Segundado à distância pelas que O Globo publicou sábado 16, inclusive a de Lola Galán, do Jornal espanhol El País.

Sabino arrola os casos de renúncia que antecederam a de Bento XVI, porém nenhum apresentando motivos tão fortes e severos. A Igreja de Burton, sobretudo esta, indenizou famílias das vítimas e as próprias vítimas de casos de pedofilia, uma das coisas mais imundas que infelizmente os trágicos acontecimentos registram. Indenizar, para abafar, é confessar por ação tácita. Como então a parte acusada pode ouvir e aceitar a confissão de pessoas, se ela própria confessa um pecado essencialmente profundo. Se a gula, por exemplo, constitui um pecado, que se pode dizer do abuso sexual de crianças e adolescentes?

Lembra Elena, minha mulher, que não se trata de homossexualismo, mas de ato contra inocentes. Os autores deveriam ter sido expulsos da Igreja, além de processados criminalmente. Isso não aconteceu por iniciativa da Cátedra de São Pedro. Esta foi uma das grandes falhas ao longo dos oito anos nos quais Bento XVI sucedeu a João Paulo II.

PONTOS CONTROVERSOS

O Vaticano exige reforma para o exercício da fé católica, com mais de um bilhão de seguidores na Terra. Mário Sabino coloca com perfeição alguns pontos controversos. Se o Papa é infalível em questões de fé, esta infalibilidade estaria limitada à idade? O tema nunca foi questionado. E aí um choque entre o corpo e o espírito. Se o Papa é um Santo Homem, a mesma limitação atingiria o corpo e o espírito?

Enfim, uma série de indagações pode ser feita ao longo do tempo e do espaço. E são séculos os espaços. Pelo menos dois mil e 33 anos de cristianismo e 1 mil e 700 de catolicismo, uma vez que a religião católica surgiu com o Imperador Constantino, conduzido por sua mãe, Helena, santa católica, comemorada a cada 21 de maio. Dois mil, de um lado, 1 mil e setecentos de outro, são uma convergência milenar e fortíssima para ser superada por acontecimentos temporais. Até porque a fé, seja ela qual for, é intemporal e eterna.

Roma sofreu abalos com o surgimento do Protestantismo com Erasmo de Roterdã, Martinho Luthero e Calvino. Mas a fé cristã não diminuiu, pelo contrário, agregou multidões ao longo do tempo. Caso dos Estados Unidos, país em que os protestantes são maioria. Mas esta é outra questão. A religião, ou melhor a fé, é e será sempre eterna. Uma prova? O número de ateus é insignificante. E quantos deles se dizem ateus graças a Deus?

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