A resistência começou (ou Uma lufada de ideologia)

Carlos Chagas

Graças ao Lula, o PT consegue enfrentar a tempestade. Volta aos tempos em que se usava galochas e desenvolve esforços para ganhar o segundo turno das eleições municipais onde seus candidatos se posicionaram. A principal arena de luta é São Paulo. Caso Fernando Haddad venha a ser eleito, teremos assistido a mais um milagre do primeiro-companheiro, a transformação de água em vinho e a demonstração de que o ex-presidente manteve-se à tona, até mesmo diante do tsunami do mensalão. Só que isso não basta, se é para mudar um partido que perdeu seu passado e agora se encontra sem futuro.

Uma das dúvidas refere-se à resistência até física do Lula. Politicamente, ele está pronto para enfrentar novas tempestades e sair, senão seco, ao menos sem pegar um resfriado. Mas até quando poderá ficar servindo de messias para um paraíso perdido? Continuará enfrentando dragões e salvando o PT de seu próprio veneno e de suas próprias contradições? Ou acabará sufocado pelos pecados dos discípulos por ele reunidos?

Não fosse o Lula e o partido jamais teria alcançado a votação que teve no primeiro turno do pleito municipal. Depois da aventura ainda inconclusa de Fernando Haddad, sua próxima meta será reeleger Dilma Rousseff em 2014, sucesso para o qual a presidente da República contribuirá cada vez mais com suas próprias forças, sua popularidade e sua imagem.

Mas conseguirá o antecessor manter o PT à tona? Livrar o partido da sombra sempre maior de haver-se tornado uma legenda fisiológica, burguesa no seu pior sentido, amorfa, inócua e inodora? Daqui a dois anos, qual a força dos companheiros para eleger grandes bancadas no Congresso, nas Assembléias e muitos governos estaduais? Só o Lula, que cansar jamais cansará, mas sabendo que sua varinha de fazer milagres acabará gastando?

Por conta desse raciocínio, ouvido nos grotões intelectuais do PT que ainda respiram, mesmo sempre mais asfixiados, é que surge a idéia de uma reconstrução do partido. De uma limpeza no quadro negro para que novas propostas sejam escritas. Porque, quando nasceu, o PT era muito maior do que o amontoado em que acabou se transformando, hoje alimentado pela sede do poder, a satisfação de interesses pessoais de seus líderes e de seus contingentes maiores e menores.

Viu-se, o PT, tomado pela tentação de nomeações, comissões, negócios e negociatas onde o mensalão surge apenas como uma faceta de um poliedro de vícios. Foi-se a pureza de seus ideais de mudança radical na sociedade, erradicação de privilégios e benesses, extensão da igualdade sem assistencialismos, tudo trocado pelas migalhas do banquete dos poderosos, ao qual os companheiros aderiram como convidados inoportunos ou, no máximo, administradores da cozinha.

Uma lufada de ideologia parece a única solução para evitar a queda que, com Lula ou sem Lula, com Dilma por mais um mandato ou não, surge inevitável. Há um grupo aguerrido de petistas pensando assim, mesmo aqueles faz pouco catapultados ou afastados por vontade própria.

Nada disso foi abordado na reunião do Diretório Nacional do PT, na noite de quarta-feira, mas era o que se respirava nas esquinas em volta da sede e na intenção de muitos abnegados fundadores, de novo reunidos em mosteiros, alguns sindicatos, certas universidades e redações de jornal. Estão reunindo a principal base que um dia inflou a legenda do Partido dos Trabalhadores: a juventude.

Para evitar a ação dos companheiros que hoje compuseram um núcleo secreto inspirado nas qualidades da CIA, do SNI, da KGB, do MI-6 e outras abomináveis instituições, ficam as escusas por não avançarmos maiores detalhes. Mas a resistência começou. Logo aumentará, até a libertação.

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