A revolta do escritor Lima Barreto contra o racismo

Fernando do Valle
Zonacurva

Com apenas 7 anos, Lima foi levado pelo pai à missa campal para a celebração da Abolição da Escravatura. Mesmo sem compreender exatamente a importância daquele momento, a boa energia da festa ficou marcada em sua memória. Em 1911, Lima escreveu na Gazeta da Tarde: “Fazia sol e o dia estava claro. Jamais, na minha vida, vi tanta alegria. Era geral, era total; e os dias que se seguiram, dias de folgança e satisfação, deram-me uma visão da vida inteiramente de festa e harmonia”. Lima lutou toda uma vida em busca daquela harmonia, fruto de uma autêntica esperança de uma convivência mais justa e fraterna.

Ainda estudante da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde entrou em março de 1897, o escritor mulato Lima Barreto desiste de participar de uma estudantada, ato de rebeldia dos alunos da escola de elite. Consciente do racismo, Lima explica em conversa com um colega o motivo que o levou a desistir de pular o muro em companhia de seus colegas para assistir a uma montagem da ópera Aída de Verdi no Teatro Lírico:

Todos haviam topado a estudantada. Todos, menos Lima Barreto. Este não tivera a coragem de pular o muro. Depois do ensaio geral, o estudante Nicolao Ciancio teve de ir sozinho para casa — a pensão de Madame Parisot. E ali chegando, cantarolando, como bom italiano, os últimos trechos de Aída, encontrou o amigo deitado, lendo. O diálogo que se seguiu e vai adiante transcrito foi reconstituído pelo próprio Nicolao Ciancio. Ei-lo sem alteração de uma vírgula:

— Por que você não veio?

— Para não ser preso como ladrão de galinha!

— ?!

— Sim, preto que salta muros de noite só pode ser ladrão de galinhas!

— E nós, não saltamos?

— Ah! Vocês, brancos, eram ‘rapazes da Politécnica’. Eram ‘acadêmicos’. Fizeram uma ‘estudantada’… Mas, eu? Pobre de mim. Um pretinho. Era seguro logo pela polícia. Seria o único a ir preso”.

SOFRENDO O PRECONCEITO

Afonso Henriques Lima Barreto nasceu numa sexta-feira 13, a de maio de 1881, exatos 7 anos antes da abolição da escravatura. Pobre, mulato e alcoólatra, sofreu na pele as agruras do preconceito dos literatos, acadêmicos e jornalistas. Mas não se fazia de rogado, já na Politécnica, Lima escreve ácidos artigos na revista universitária A Lanterna, onde não poupa os vaidosos professores sob o pseudônimo de “Momento de Inércia”.

Em seu diário íntimo, Lima frequentemente desabafava sempre o mesmo como um mantra: “É triste não ser branco”. Da sua revolta, nasceu uma literatura voltada para os personagens do subúrbio. Também praticou um jornalismo de resistência como na pequena Revista Floreal. No primeiro número da revista, Lima escreve que a publicação era “contra o formulário de regras de toda sorte, que nos comprimem de modo tão insólito no momento atual”.

O primeiro número da revista vendeu apenas 38 exemplares, a Floreal não passou do quarto número. Foi ali que Lima publicou trechos de uma de suas obras mais contundentes, “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” (1909), que narras as agruras de um jornalista negro e pobre no início de carreira. O livro é brutal, um grito contra a hipocrisia e um ataque aos medalhões da imprensa. Sem dúvida, o livro foi baseado na experiência de Lima no jornal Correio da Manhã. Antes do Correio, em 1903, Lima teve uma péssima experiência na Revista de Época, onde se viu obrigado a tecer loas a alguns políticos e pediu demissão. Dois anos depois, a partir de abril, escreve reportagens para o Correio da Manhã.

“Não obedeço a teorias de higiene mental, social, moral, estética, de espécie alguma. O que tenho são implicâncias parvas; e só isso. Implico com três ou quatro sujeitos das letras, com a Câmara, com os diplomatas, com Botafogo e Petrópolis; e não é em nome de teoria alguma, porque não sou republicano, não sou socialista, não sou anarquista, não sou nada; tenho implicâncias. É uma razão muito fraca e subalterna; mas como é a única, não fica bem à minha condição de escriba escondê-las” (Lima Barreto).

NO SERVIÇO PÚBLICO

Com 22 anos, Lima tornou-se copista da Secretaria de Guerra, onde redigia minutas e avisos e copiava decretos. Trabalhou lá por 14 anos. Mas era nos cafés que Lima mantinha contato com artistas, escritores e políticos. Por lá circulavam também as cocotes, mulheres francesas com certa sofisticação cultural, no romance Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá, Lima escreve que elas tinham como missão “afinar a nossa sociedade”, abrutalhada por séculos de escravidão.

Em seus textos jornalísticos, considerados precursores do jornalismo literário no país, Lima critica aspectos da vida social e política brasileira, desafia os cânones literários e esboça uma precursora visão anti-imperialista em relação aos norte-americanos.

Atrás da acidez e da combatividade, escondia-se um ser melancólico que encontrou no álcool seu refúgio, que o matou aos poucos. Lima deixou de frequentar os cafés e passou a beber cada vez mais nos botequins por volta de 1911. Muitas vezes, depois de várias doses de cachaça, era encontrado por amigos dormindo na sarjeta. Chegou a ficar dois meses internado em um hospício quando perdeu o controle de seu vício. Morreu jovem, com apenas 41 anos, em 1º de novembro de 1922.

(artigo enviado por Sergio Caldieri)

3 thoughts on “A revolta do escritor Lima Barreto contra o racismo

  1. Outro poeta que sofreu com o racismo foi o nosso Simbolista maior João da Cruz e Sousa, e em homenagem tanto a Lima Barreto quanto a Cruz e Sousa, publico aqui o poema simbolista de João, intitulado ANTÍFONA:

    ANTÍFONA

    Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
    De luares, de neves, de neblinas!
    Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas…
    Incensos dos turíbulos das aras
    Formas do Amor, constelarmante puras,
    De Virgens e de Santas vaporosas…
    Brilhos errantes, mádidas frescuras
    E dolências de lírios e de rosas …

    Indefiníveis músicas supremas,
    Harmonias da Cor e do Perfume…
    Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
    Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume…

    Visões, salmos e cânticos serenos,
    Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes…
    Dormências de volúpicos venenos
    Sutis e suaves, mórbidos, radiantes …

    Infinitos espíritos dispersos,
    Inefáveis, edênicos, aéreos,
    Fecundai o Mistério destes versos
    Com a chama ideal de todos os mistérios.

    Do Sonho as mais azuis diafaneidades
    Que fuljam, que na Estrofe se levantem
    E as emoções, todas as castidades
    Da alma do Verso, pelos versos cantem.

    Que o pólen de ouro dos mais finos astros
    Fecunde e inflame a rima clara e ardente…
    Que brilhe a correção dos alabastros
    Sonoramente, luminosamente.

    Forças originais, essência, graça
    De carnes de mulher, delicadezas…
    Todo esse eflúvio que por ondas passa
    Do Éter nas róseas e áureas correntezas…

    Cristais diluídos de clarões alacres,
    Desejos, vibrações, ânsias, alentos
    Fulvas vitórias, triunfamentos acres,
    Os mais estranhos estremecimentos…

    Flores negras do tédio e flores vagas
    De amores vãos, tantálicos, doentios…
    Fundas vermelhidões de velhas chagas
    Em sangue, abertas, escorrendo em rios…

    Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
    Nos turbilhões quiméricos do Sonho…

  2. Essas coisas são contadas mas não se sustentam na realidade. Senão vejamos: Lima Barreto não era negro era mulato. Filho de pai negro e mãe branca ou descentente dessa mistura de raças. Seu complexo está flagrante no que escreve: Primeiro teve todo o espaço e a oportunidade de estudar chegando a ser um escritor consagrado. Dizia não ser republicano, consequentemente era um revoltado com o regime implantado, que dentro de sua psique fora para derrubar ou prejudicar a abolição. Complexo afirmado ao dizer que: como é triste não ser branco. Não percebeu Lima Barreto que a Republica deu um corte institucional em nossa história muito mal contada. Primeiro 7 de setembro de 1822 nunca foi nossa data mágna. É apenas uma data simbólica. Tem exclusivamente a ver com a Monarquia Portuguêsa. É só ver que a independência é entre o Brasil Reino unido a Portugal e Algarves. O Brasil deixava de receber ordens da corte de Lisbôa. A escravidão continuou com tráfico de escravos só sendo extinto em 1850. O imperador PedroI é o Rei Pedro IV de Portugal. O povo continuou como súdito e escravo. Com a Proclamação da República dexamos de ser súditos e escravos para sermos cidadãos com direitos. A República com sua Constituição manteve a Abolição. Os cargos que Lima Barreto ocupou não davam a ele em condições normais manter esse rebate subjetivo. Revoltou-se por sua própria debilidade psicológica. Uma imensidão de brasileiros não tiveram as oportunidades de Lima Barreto ele teve todas. Deixou afogar na bebida uma vida que poderia nos ter brindado com muitos e muitos contos , livros e reportágens. Esses lívros valem ouro, principalmente para aqueles que ainda respiram a imagem da escravidão, adubada pela propaganda que vem dos EEUU e Afríca do Sul paises constitucionalmente racistas. Pergunta ingênua: Machado de Assis mulato filho de um mulato e uma portuguêsa fundador da Academia Brasileira de Letras chegou em algum livro poema ou conto em falar de racismo? Gustavo Lacerda mulato catarinense fez-se jornalista no Rio de Janeiro e fundou a Assossiação de Imprensa em 1908 hoje ABI sofreu de racismo? Nem se falava nisso Existiam intelectuais que falavm e escreviam algumas bobagens se amparo de nossa Constituição que a todos igualou juridicamente em direitos e deveres. Nilo Pessanha mulato declarado nascido em Camos do Goitacases foi presidente da República falou alguma coisa sobre racismo? Nunca falou e nada falou. O sentimento de racismo é questão subjetiva. Falta consciência a muitas pessoas educadas ou não de que a base da formação genetica do povo brasileiro é India, Portuguêsa e Negra. Somos miscigenados cruzados e recruzados entre nós mesmos e com outrs raças por 500 anos.( Lima Barreeto já morreu lamentavelmente. Se ouvisse minhas palavras mudaria totalmente sua compreeenção). Se a República não deu ainda a seus filhos uma educação de qualidade para que todos tenham sa mesmas oportunidades. Cabe aos mais fortes e sábios exigir para proteger e orientar os mais fracos.

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